“Fatalidade anunciada”, diz primo de operário morto em cisterna em Águas Claras

Cinco homens entraram na cisterna. Quatro deles passaram mal, desmaiaram e precisaram ser socorridos. Dois não resistiram

atualizado 29/09/2022 11:37

Igo Estrela/Metrópoles

Wanderson Soares da Silva, morto aos 26 anos durante acidente de trabalho na cisterna do Residencial Santorini, na Quadra 208, em Águas Claras, nessa quarta-feira (28/9), trabalhava com paisagismo na empresa Império Garden. Segundo o pai da vítima, Carlos Antônio da Silva, ele e a outra vítima, Gutemberg José de Santana, 53, tinham sido contratados para instalar uma nova bomba em uma dos poços do prédio. Os dois chegaram a ser socorridos pelo Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) em parada cardiorrespiratória, mas não resistiram.

“A empresa que o meu filho trabalhava ia fazer apenas a instalação de uma nova bomba. Nós não sabemos nem a dinâmica certa, ninguém do condomínio nos informa. Nem sabíamos que ele viria. Só fomos informados quando ele já havia desmaiado”, conta Carlos.

De acordo com o pai de Wanderson, ele trabalhava na empresa de uma prima e ajudava nos serviços de paisagismo. Porém, o jovem não tinha experiência em limpeza de cisterna e instalação de bomba no local.

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Gutemberg José também fazia serviços para Império Garden e ajudava Wanderson na execução do serviço no condomínio. “Foi uma fatalidade anunciada. A única resposta que nos deram é que amanhã (quinta) temos que dar prosseguimento ao enterro do nosso ente querido”, lamentou Rafael Santana, primo de Gutemberg. O homem relata que procurou entender o que ocasionou o acidente e se havia algum supervisor acompanhando o trabalho deles, mas que ninguém do condomínio soube informar.

“Ninguém tinha equipamento de proteção, foi uma tragédia. Agora, a minha família vai ter que arcar com o sofrimento. Esperamos um posicionamento dos envolvidos. Eles não vão voltar”, ressaltou Rafael.

Emissão de gás

De acordo com o CBMDF, os operários que trabalhavam dentro cisterna utilizavam um motor movido à combustão. Em contrapartida, nenhum deles utilizava equipamento de proteção individual (EPI). “Este motor funciona à queima combustível e acaba exalando gases que podem intoxicar pessoas. Não se tem, ainda, a informação de que isso seja a causa da inconsciência deles, até eles submergirem na água. Quem dirá isso é a perícia, mas a informação é relevante”, disse o tenente Marcelo de Abreu, do Corpo de Bombeiros do DF.

Ao todo, cinco pessoas trabalhavam no local, que tinha 7 metros de profundidade. Dentro, a água chegava a 1,20m de altura. Das três vítimas em parada cardiorrespiratória, uma foi transportada de helicóptero para o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF).

 

Questionados sobre o que poderia ter provocado a inconsciência dos operários, os bombeiros, por meio da assessoria de comunicação do CBMDF, disseram que “ambientes como este, que acabam acumulando material orgânico, com o passar do tempo passam a emitir gases que podem intoxicar pessoas”. Esta é outra hipótese para a perda de consciência dos operários.

Empresas envolvidas

O Metrópoles apurou que há três empresas envolvidas no serviço de troca da bomba da cisterna: HL2 Engenharia, Grupo K2 Serviços e Império Garden.

A HL2 Engenharia confirmou, em nota, que o Residencial Santorini a contratou apenas para os serviços de impermeabilização e drenagem da cisterna. “Não consta em nosso contrato de prestação de serviços a execução da limpeza da cisterna e posterior ligação de bombas”, detalhou.

Segundo a empresa, a Império Garden “foi contratada diretamente pela administração do condomínio para serviço de limpeza de cisterna e ligação de bomba, sendo atividade terceirizada, desvinculada da empresa HL2”.

A HL2 também destacou que ajudou a entrar em contato com as equipes de socorro para o resgate das vítimas. “A empresa se solidariza com as famílias dos trabalhadores vitimados, e informa que está prestando assistência à família do funcionário internado”.

A K2 ressaltou que a “empresa realiza somente os serviços de limpeza e de portaria no condomínio. “Ocorre que o nosso porteiro, presenciando a situação, tentou ajudar a equipe e também caiu na cisterna e inalou o gás. Ele está no HRT e tem sintomas leves. Estamos acompanhando o funcionário e dando todo o suporte necessário a ele”, acrescentou.

 

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