Famílias denunciam que pacientes com Covid-19 não estão isolados no HRC

O que divide um setor do outro seria apenas meia parede, mas Saúde nega. Desesperados, os parentes fizeram imagens do local

Entrada do Hospital Regional de CeilândiaRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 22/05/2020 21:06

Familiares de pacientes internados no Hospital Regional de Ceilândia (HRC) denunciam que pacientes com o novo coronavírus estão no mesmo ambiente que os demais doentes. Eles afirmam que, na clínica médica, os que tratam a Covid-19 ficam no bloco I. Outros enfermos permanecem no bloco II. O que divide um setor do outro seria apenas meia parede. Desesperados, eles fizeram imagens do local.

Ao Metrópoles, uma mulher, que pediu para não ser identificada, acompanha uma familiar que está com câncer terminal. A idosa tem 83 anos. “Trata-se de um extermínio. Sou acompanhante e também estou no grupo de risco. A mudança ocorreu ontem (quinta) à noite. Quando os pacientes infectados foram transferidos, até mesmo os enfermeiros ficaram preocupados. Não há isolamento adequado”, denunciou.

Ela conta que esta no local há quatro dias e a situação tem piorado. “Não tem álcool em gel. Estou trazendo tudo de casa. Não consigo dormir, não consigo comer, se alguém tosse ou espirra, já entro em desespero. Tentei um leito na enfermaria, para que eu pudesse me despedir e que esses últimos momentos fossem vividos com o mínimo de dignidade. Pago os meus impostos e não consigo receber o mínimo do governo. Estou em pânico”, desabafou.

Questionada pelo Metrópoles, a Secretaria de Saúde afirmou que há um local isolado para os pacientes com coronavírus. Detalhou que a estrutura de isolamento é composta por: seis leitos de quarentena, com ventilação mecânica, onde ficam pacientes já confirmados, que aguardam remoção para o hospital de referência; cinco leitos com ventilação mecânica, nos quais ficam pacientes críticos, que aguardam resultado do exame para confirmação ou não da doença; e seis poltronas para pacientes suspeitos, que esperam resultados de exames, mas que apresentam bom estado geral.

“Com a crescente demanda registrada no pronto-socorro, começa hoje a ampliação do isolamento em mais seis leitos, onde poderão ficar pacientes suspeitos que aguardam resultados. Reiteramos que a equipe de profissionais segue todo protocolo para evitar a disseminação do vírus”, complementou a pasta.

Um homem de 55 anos contraiu coronavírus enquanto estava internado HRC. Ele chegou a receber alta, mas aguardava transferência a um abrigo. A informação foi confirmada ao Metrópoles pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O órgão informou ter, recebido, no último dia 15, relatório social do Núcleo de Serviço Social do Hospital Regional de Ceilândia sobre a situação de fragilidade sociofamiliar de Divino Joaquim do Vale .

“Ele já tinha alta do hospital, mas não havia estrutura familiar para recebê-lo. A partir desse documento, a Promotoria de Justiça de Defesa da Pessoa com Deficiência (Proped) requisitou à central de vagas da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedes) o acolhimento do sr. Divino em residência inclusiva para pessoas com deficiência adequada às suas necessidades”, explicou o MPDFT.

A Proped também informa que encaminhou cópia do caso à Defensoria Pública, para atuação na defesa dos direitos individuais do paciente. “Além disso, a Promotoria recomendou à central de vagas da Sedes, ainda neste mês de maio, que fosse concedida prioridade às demandas de acolhimento de pessoas com deficiência internadas em hospitais e em condição de alta médica. Em resposta do dia 19 de maio, a central de vagas informou que vem atribuindo prioridade a esses casos”, destacou.

“Quanto ao falecimento do sr. Divino por suspeita de infecção por Covid-19, a Proped aguardará as apurações da causa da morte para deliberação sobre eventuais medidas cabíveis por parte do Ministério Público”, assinalou.

Internado há três meses

O morador de Ceilândia foi levado no HRC tratar doenças crônicas. Em 16 de fevereiro, recebeu alta, mas ficou sob internação social, pois “a família não apresentou condições de recebê-lo”, segundo a Secretaria de Saúde. O MP afirmou que o caso chegou ao órgão somente em 15 de maio.

“Desde sua alta médica, o serviço social da unidade buscou uma moradia adequada para o paciente, prevendo, justamente, os riscos da permanência em ambiente hospitalar”, destacou a pasta.

A Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) esclarece que, no último dia 18, recebeu o pedido de vaga em Acolhimento de Adultos com Deficiência para o paciente, enviado pela Proded. Já no dia 19, o nome do paciente foi encaminhado para a Organização da Sociedade Civil parceira para avaliação socioassistencial, tendo 15 dias para apresentação de relatório para o acolhimento.

“A Sedes informa, ainda, que o Acolhimento Institucional, na modalidade de longa permanência, precisa sempre ser a última opção. Por isso, é necessário realizar o diagnóstico socioassistencial para identificar se a família do paciente realmente não tem condição de acolhe-lo, bem como avaliar se a pessoa necessita de cuidados médico continuados”, assinalou.

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