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Ex-franqueados de loja de móveis planejados denunciam prejuízo milionário

Relatos mencionam atrasos, modelo de repasses e disputas judiciais envolvendo a Corazi. A empresa nega irregularidades

atualizado

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Loja Corazi de móveis planejados é acusada de golpe a clientes
1 de 1 Loja Corazi de móveis planejados é acusada de golpe a clientes - Foto: Reprodução/Google Maps

Ex-franqueados de uma marca de móveis planejados afirmam que a loja matriz, que opera por meio da empresa CRZ Representações Ltda., centralizava os valores pagos pelos clientes e controlava os repasses à produção. Segundo eles, o modelo de gestão teria provocado atrasos em série nos pedidos, fechamento de unidades e uma avalanche de processos judiciais contra os lojistas.

O Metrópoles ouviu empresários no Distrito Federal e em Goiás. Os relatos se repetem: promessa de um negócio promissor, investimento elevado, obrigação de repasse de cerca de 40% das vendas à empresa central — geralmente via Pix — e, posteriormente, atrasos na fabricação.

Com o restante do valor comprometido com aluguel, equipe, marketing e estrutura, as lojas não conseguiam gerar lucro e acabavam acumulando dívidas e fechando as portas. 

O início

No DF, o primeiro caso relatado é o de André Thiago, que afirma ter sido o primeiro franqueado da Corazi, quando ela ainda se chamava Idealli. Segundo ele, a unidade de Samambaia foi aberta em 2021.

De acordo com André, o investimento inicial foi de cerca de R$ 46 mil, além de empréstimos bancários. André afirma que repassava 40% de cada venda à matriz.

“O restante era para pagar estrutura, funcionários e pedidos antigos. Mesmo vendendo bem, não sobrava lucro”, relata.

A loja fechou em 2022. André afirma ter acumulado uma dívida superior a R$ 200 mil e que, ainda hoje, responde a processos de clientes que não receberam os móveis. Segundo o ex-lojista, após o fechamento, a unidade teria sido assumida por Lucas Soares Barbosa, apontado pelos ex-franqueados como o dono da marca.

Faturamento alto, lucro inexistente

O empresário Luiz Felipe Vaz assumiu uma unidade no shopping Duo Mall, em Águas Claras, entre 2022 e 2024. Ele afirma ter investido cerca de R$ 200 mil. “Mesmo faturando R$ 150 mil por mês, a loja nunca se pagou”, diz.

Ao conversar com donos de outras unidades — contrariando, segundo ele, orientação da matriz para que dificuldades não fossem compartilhadas — Luiz afirma ter descoberto que o problema não era isolado.

Ele diz, ainda, ter identificado diferença entre os prazos informados pela matriz e os prazos estipulados diretamente pela fábrica. Segundo ele, a Corazi trabalhava com até 45 dias úteis, enquanto o fornecedor indicaria produção em cerca de 15 dias úteis, caso a contratação fosse direta.

“Eles ficavam todo esse tempo extra com o valor que a gente repassava”, afirma.

O Metrópoles teve acesso a comprovantes de transferências feitas por Luiz à empresa central após as vendas, além de mensagens cobrando urgência na produção de pedidos já pagos porque já havia cobranças e atrasos. Ele calcula prejuízo próximo de R$ 500 mil em dois anos no comando da unidade. 

Goiânia

Na capital goiana, o empresário Gilberto Cândido Rodrigues foi dono da unidade do setor Marista, entre 2023 e 2024. Ele afirma que adquiriu a loja após apresentação feita por Lucas.

Segundo Gilberto, ele enfrentou atrasos e dificuldades semelhantes aos relatados por outros franqueados, e afirma que decidiu vender a unidade de volta ao empresário, deixando todas as dívidas quitadas e dinheiro em caixa.

Gilberto diz que até hoje aguarda o pagamento de R$ 66 mil referentes à negociação da venda e que entrou na Justiça para cobrar o valor. Ele calcula um prejuízo total de cerca de R$ 400 mil. Posteriormente, a unidade acabou sendo repassada a Carolina Muniz.

Altos custos de publicidade

Carolina afirma que assumiu a loja em maio de 2024. Segundo ela, o contrato previa mesmo a obrigação de repassar à matriz 40% dos valores pagos pelos clientes e ela não podia fazer o pedido diretamente à fábrica. 

Ela também apresentou à reportagem comprovantes de transferências feitas para à conta da CRZ Representações Ltda.

“Todo cliente que fechava comigo, eu tinha que mandar a porcentagem do dinheiro para eles”, afirma.

Segundo Carolina, além do repasse das vendas, a matriz também controlava campanhas de marketing e venda de leads. Ela afirma que os custos com publicidade digital eram definidos pela empresa central e os valores pagos pelos contratos comerciais eram elevados, segundo ela a cima do mercado, o que pressionava ainda mais o caixa da loja.

Depois, como ocorreu com os outros franqueados, os pedidos começaram a atrasar, e processos judiciais passaram a chegar em seu nome, inclusive de vendas realizadas antes de sua entrada na unidade.

Ela afirma ter identificado inconsistências na titularidade do CNPJ da loja e que pagamentos ao antigo dono (Gilberto) teriam sido interrompidos após sua entrada.


O padrão

  • Cliente pagava à loja;
  • Cerca de 40% do valor era repassado à matriz;
  • A produção dependia da liberação desses valores;
  • Pedidos atrasavam;
  • A matriz dizia para continuar as vendas aos clientes mesmo em meio aos atrasos;
  • A loja acumulava prejuízos e processos;
  • Os lojistas devolviam ou vendiam a loja;
  • O ponto era repassado a outro empreendedor.

Outros casos

Em Taguatinga-DF, o ex-dono da filial, Gaspar, teria acumulado prejuízos superiores a R$ 2 milhões pelos longos anos no comando da loja e em razão de processos judiciais de clientes. O caso da unidade de Taguatinga foi publicado pelo Metrópoles em 13 de fevereiro.

Outro caso envolve Wellington Dias dos Santos, que afirma ter assumido, a pedido de Lucas, uma unidade no bairro Bueno, em Goiânia, em 2025, sem contrato formalizado.

Ele diz ter vendido apenas quatro projetos antes de deixar a operação por considerar o modelo “arriscado”. Ele estima prejuízo entre R$ 120 mil e R$ 150 mil e também responde a ação judicial.

Investimento de R$ 240 mil

O cantor e compositor conhecido como “Nego Rainner” afirma ter investido R$ 240 mil, em 2024, para a abertura de uma unidade em Goiânia. Segundo ele, o contrato previa que 30% do lucro ficaria com ele e 70% com Lucas, além da devolução do investimento independentemente do desempenho da loja.

Rainner afirma que a unidade teria operado por cerca de um ano e dois meses, período em que passou a ouvir que o negócio não dava lucro. Segundo ele, a loja teria sido encerrada sem comunicação formal e o valor investido não foi devolvido.

Ainda enquanto era sócio, Rainner afirma que pagou R$ 105 mil à marca para a fabricação dos móveis de sua residência. Segundo ele, o pedido, que deveria ter sido entregue em três meses, levou cerca de um ano para ser finalizado por suposto atraso no pedido à fábrica.

O que diz a Corazi

Procurado pelo Metrópoles, Lucas Soares negou irregularidades e afirmou que o modelo de negócio da Corazi não prevê centralização dos valores das vendas.

Segundo ele, os pagamentos feitos pelos clientes permanecem nas contas dos franqueados, responsáveis pelos custos operacionais, como frete, impostos, montagem e estrutura da loja. A empresa central afirma, que retém apenas cerca de 11% do valor total da venda a título de royalties.

“O dinheiro não passa pela Corazi. Ele fica com o franqueado. Se a loja quebrou, foi por má gestão”, declarou.

Lucas afirmou que 60% do valor das vendas permanece com o lojista e que os casos problemáticos representariam menos de 1% dos contratos firmados.

Segundo ele, a empresa já teria entregue cerca de 1.800 projetos desde a criação da marca.

O empresário também contestou os relatos de atrasos generalizados. Ele afirmou que, em alguns casos, a matriz deixou de encaminhar pedidos à fábrica porque o franqueado não teria comprovado capacidade de arcar com custos complementares da operação, como frete e montagem, o que poderia gerar inadimplência futura.

Segundo Lucas, o modelo é sustentável. Ele reconheceu, no entanto, que não sabe informar quantas unidades estão atualmente ativas. Disse que a rede já teve diversas lojas em operação, mas que algumas estariam encerrando atividades também em razão do desgaste da marca.

Lucas afirmou ainda que parte dos lojistas deixou de cumprir obrigações contratuais e acumulou débitos com a empresa. Ele informou que pretende ingressar judicialmente contra ex-franqueados por inadimplência.

Fábrica citada

O Metrópoles também procurou o diretor da HR Móveis, citada pelos ex-franqueados, para esclarecer como funcionavam os repasses e a dinâmica de produção. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto para possíveis manifestações.

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