Exclusivo: vídeos mostram pacientes amarrados em clínica de tratamento

Denúncias revelam rotina de violência que incluía tortura com choques, sedação forçada e internações involuntárias na unidade terapêutica

atualizado

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1 de 1 paciente-amarrado-clinica-el-shaddai - Foto: Imagem obtida pelo Metrópoles

O que deveria ser um ambiente de acolhimento humanizado e reabilitação para dependentes químicos transformou-se em um cenário de horror e violação sistemática dos direitos humanos em Luziânia (GO), Entorno do Distrito Federal. Relatos de ex-colaboradores e familiares de pacientes da Unidade Terapêutica Novo Recomeço (El Shaddai Tratamento e Recuperação Familiar Ltda) revelam uma rotina de violência que incluía tortura com choques, sedação forçada sem prescrição médica e internações involuntárias ilegais.

Veja: 

Imagens obtidas com exclusividade pelo Metrópoles mostram internos com os punhos amarrados por cordas dentro da instituição. Em um dos registros, um paciente também aparece com os tornozelos imobilizados (foto em destaque).

Na última quarta-feira (25/3), a comunidade terapêutica foi interditada pela Superintendência de Vigilância Sanitária (Suvisa), em uma ação integrada com outros órgãos. A gravidade da situação provocou a demissão em massa de funcionários.

Durante a ação, foram identificadas diversas irregularidades, entre elas a permanência de residentes mantidos de forma involuntária e ausência de responsável técnico.

Embora a instituição dispusesse de alvará de funcionamento válido à época da fiscalização, as irregularidades constatadas motivaram a suspensão do alvará, bem como a interdição cautelar do estabelecimento, até a conclusão do devido processo legal e a plena regularização das não conformidades apontadas.

Essa, no entanto, não é a primeira vez que a comunidade terapêutica é interditada cautelarmente devido a irregularidades. Em outubro de 2025, a Suvisa já havia constatado que a clínica operava sem licença sanitária, sem responsável técnico e mantinha residentes de forma involuntária, inclusive idosos.

A inspeção sanitária realizada no ano passado também constatou presença de teias de aranha em todas as áreas, vidros quebrados, janelas sem telas, falta de recursos humanos compatíveis com as atividades desenvolvidas e falta de condições mínimas de higiene e limpeza.

Passados cinco meses desde a primeira fiscalização, ex-colaboradores e familiares ouvidos pela reportagem detalharam que a rotina de violações na clínica se agravou, principalmente após o falecimento da proprietária, Geralda Bezerra de Morais, em março deste ano.

Em 2023, a unidade terapêutica de Geralda também passou a acolher internos provenientes da Clínica Restituindo Vidas, administrada por seu filho, Tiago de Morais Araújo, após o fechamento da instituição em decorrência de denúncias de mortes e práticas de tortura.

Agora, as denúncias das vítimas e ex-funcionários apontam para a figura de Sebastião Lopes de Sousa, atual gestor da unidade, e viúvo de Geralda, como o responsável por coordenar e permitir as agressões.

O “resgate”

De acordo com os depoimentos, a violência tinha início ainda antes da chegada à clínica. Durante o processo de remoção — que deveria garantir um transporte seguro, especializado e humanizado até clínicas ou hospitais —, pacientes submetidos à internação involuntária já eram alvo de agressões.

Relatos indicam que pacientes chegavam à unidade amarrados, machucados e, em casos extremos, transportados dentro de porta-malas.

O uso de enforcamentos, espancamentos e armas de choque foi citado por ex-funcionários. “Vi pessoa agredida, queimada com arma de choque… ele [Sebastião] fazia paradas durante o caminho até a clínica para oprimir”, afirmou um ex-colaborador que preferiu não se identificar.

Para ocultar os crimes, a orientação era não bater no rosto do interno. “Tirava foto para a família e ainda mandava o paciente sorrir”, revelou um dos denunciantes.

Segundo os profissionais que passaram pela instituição, a dificuldade de adaptação dos pacientes é imediata devido ao trauma causado pela forma como são capturados e mantidos.

Sedação clandestina

Uma das denúncias mais graves envolve o uso de medicação controlada sem qualquer supervisão médica. Sebastião é acusado de aplicar indutores de sono e sedativos considerados “pesados.”

“Teve gente que convulsionou com remédio que ele [Sebastião] mandou ministrar. Medicamento clandestino… ele mesmo aplicava para dopar os pacientes”, relata um ex-funcionário.

Há menções uso de outros internos para imobilizar e sedar os recém-chegados, criando um ambiente de total descontrole sanitário.

Condições insalubres

Dentro da clínica, os pacientes viviam em condições descritas como degradantes. De acordo com a lista de acolhidos referente a março deste ano, o local abrigava 51 pessoas.

O cardápio prometido às famílias era substituído por refeições de baixa qualidade, descritas como “arroz, feijão e osso de porco”.

Em alguns casos, pacientes foram mantidos amarrados por tanto tempo que chegaram a urinar e evacuar na própria roupa. Também foram mencionados episódios de internos trancados nos quartos por “estarem de castigo”.

“Não tem gestão, não tem padrão terapêutico. É muito mais fácil só trancar a pessoa e não dar tratamento”, afirma um ex-colaborador

Segundo as denúncias, a unidade terapêutica também não conta com profissionais capacitados para lidar com crises de abstinência ou surtos, resultando em pacientes sem qualquer evolução no quadro de saúde.

Trauma de famílias

Um dos relatos vem da familiar de um ex-interno que permaneceu cinco meses sob a custódia da comunidade terapêutica. O paciente foi retirado pelos parentes da unidade nesta semana, após a interdição da clínica.

“Certa vez, deram murros no peito dele, ele disse que começou a sentir falta de ar. Diziam para a gente que era abstinência. Também vi por videochamada o pescoço dele rasgado; disseram que era ‘procedimento’ porque ele resistiu”, relata a familiar que preferiu não se identificar.

Segundo ela, os pacientes eram obrigados a limpar o ambiente e levados para trabalhar em outra clínica administrada por Sebastião.

“A gente fica muito triste. Já chorei muito. Não sabemos o que é pior: deixar a pessoa morrer na rua ou mandá-la para a clínica e ela sair completamente diferente”, desabafa.

Na última visita feita ao parente, ela disse que o homem não conseguia nem falar direito de tão sedado que estava.

“Ele está em casa agora, mas está muito estranho. Só quer dormir ou fica andando de um lado para o outro. Ele era normal, só tinha o vício. Agora parece uma pessoa com problema mental grave”, acusa.

Alvo do MPGO

O Ministério Público de Goiás (MPGO), por meio da 6ª Promotoria de Justiça de Luziânia, ajuizou no início de 2026 uma ação civil pública com o objetivo de interditar a Unidade Terapêutica Novo Recomeço (El Shaddai Tratamento e Recuperação Familiar Ltda).

Diante das constatações, o MPGO requereu na ação, em caráter liminar, a interdição cautelar definitiva da unidade, com vedação de reabertura sob outro nome, CNPJ ou endereço até regularização completa.

O MP pediu ainda a indisponibilidade de bens das instituições e das responsáveis e dos responsáveis legais no valor de R$ 500 mil a cada acionado.

Por fim, o órgão solicitou também que Geralda fosse proibida de exercer atividades relacionadas ao tratamento de pessoas com transtornos mentais e assistência social envolvendo idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes.

Em  fevereiro deste ano, o juiz responsável pelo caso entendeu que a desativação imediata da unidade, sem um plano estruturado de acolhimento, poderia agravar a situação dos pacientes, considerados pessoas em condição de vulnerabilidade.

Diante disso, a Justiça de Goiás determinou que as secretarias municipais de Saúde e de Assistência Social realizassem uma avaliação detalhada de cada interno. Até a atualização mais recente da ação civil, os réus haviam sido citados e intimados.

O que diz a clínica

Procurado pela reportagem, o jurídico da Unidade Terapêutica Novo Recomeço não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

 

 

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