Em busca de ajuda, autista mora em frente à DPU há três meses

Portador de Asperger, grau de autismo, Alexandre Vajman reivindica tratamento e direitos sociais enquanto vive em frente ao prédio da DPU

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 27/07/2018 7:41

Trabalhadores e frequentadores de um complexo empresarial localizado no Setor de Autarquias Norte conhecem bem Alexandre Vajman Ferreira de Mendonça, 46 anos. A parte externa do lugar foi escolhida por ele como “lar”, há quase três meses.

O local abriga a Defensoria Pública da União (DPU), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Órgãos de interesse do próprio Alexandre, especialmente a DPU. “Estou aqui lutando pelos meus direitos sociais, que estão sendo todos violados”, afirma o sem-teto, demonstrando um propósito.

Com seus cobertores, mantimentos e nove gatos, o homem passou a viver no local, no início de maio, como forma de protesto. “Luto contra o sistema e por minhas reivindicações”, alega. Ele chegou a Brasília em dezembro de 2017, vindo de Sorocaba (SP). Desde então, peregrinou pelas rodoviárias interestadual e do Plano Piloto, além de abrigos em Sobradinho e na Asa Norte. Até, finalmente, se instalar em frente à DPU. Lá, tem livre acesso às áreas comuns do edifício.

Alexandre garante ser portador da síndrome de Asperger, um grau de autismo, e ter sido abandonado pelos pais e irmãos ainda na infância. Desde então, vive sozinho. Veio para Brasília, segundo conta, na esperança de conseguir mais qualidade de vida e, sobretudo, dignidade humana.

Ao conversar com o rapaz, é possível notar o seu nível de intelectualidade. Em um papo de meia hora, Alexandre cita artigos da Constituição Federal, além de frases do poeta Charles Bukowski e do cientista Stephen Hawking.

Entre as reivindicações, o diagnóstico e tratamento de seu transtorno, o direito à moradia, ao passe livre no transporte público e, ainda, o sonho de cursar medicina veterinária. Amante dos animais, o rapaz possui tatuagens que remetem ao tema.

Atualmente, o rapaz vive da solidariedade de pessoas que trabalham no complexo e se sensibilizaram com sua história. Um deles é Henrique Sebastiann, 31, funcionário de uma lanchonete. “Sempre o via lendo livros e andando pela área. Fui conhecendo a situação e percebi que é um cara inteligente. Sem dúvida, existe descaso dos órgãos competentes, caso contrário ele não estaria aqui há tanto tempo”, avalia.

Roberta Siqueira, 36, trabalha em um dos órgãos sediados no centro empresarial e diz entender a condição de Alexandre. “Tenho um primo autista e sei da necessidade de diagnóstico e tratamento. Ao notar a situação dele, fica perceptível o descaso”, relata.

Por conta do transtorno, Alexandre move processo junto à DPU para tentar reaver a pensão que diz ter sido tirada, além de garantir outros direitos sociais.

O outro lado
A DPU afirma que Alexandre Vajman Ferreira de Mendonça é assistido do órgão desde 2012, quando morava em São Paulo. Nesse período, foram abertos 14 processos de assistência jurídica em favor dele. Aposentadoria por invalidez e pensão por morte do pai, além de acesso ao Programa Universidade para Todos (Prouni) e ao Minha Casa Minha Vida, são algumas de suas demandas.

Ainda de acordo com a DPU, Alexandre conquistou o direito à aposentadoria por invalidez e à pensão por morte do pai, mas os benefícios foram suspensos pela Previdência Social em outubro de 2017, após o homem, que sofre de transtornos mentais, ter ficado sem curador.

“A curatela foi decidida pela 3ª Vara de Família e Sucessões de Sorocaba, que precisa definir novo responsável legal por Alexandre”, informou a DPU, acrescentando que já enviou ofício para  Defensoria Pública de São Paulo para que resolva rapidamente o caso.

Segundo o órgão, Alexandre teria rejeitado encaminhamento para locais que oferecem assistência social no DF e preferiu ficar em situação de rua.

Últimas notícias