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“Para você, o que é o espaço público?” A pergunta é projetada numa sala de aula do Colégio Jesus Maria José, em Taguatinga. Os 15 alunos ali presentes, todos no 2º e no 3º ano do ensino médio, começam a debater o tema. “Um lugar de acesso a todos”, diz uma das estudantes. “Mas nem a todo lugar a gente tem acesso. Eu não posso entrar no gabinete do governador, por exemplo”, rebate outro. “O terreno baldio no lado de casa é um espaço público, mas ninguém pode entrar também”, lembra uma terceira pessoa. “Para mim, até shopping é lugar público”, responde o quarto a entrar na conversa.

O bate-papo faz parte da rotina do projeto “Nossa Casa Comum”, que ocorre na escola toda quinta-feira à tarde. Ele é mediado por João Augusto Pereira e Mariana Bomtempo, ambos brasilienses com formação em arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB). “O objetivo do projeto é estimular o pensamento crítico dos jovens em relação à cidade em que vivem”, explica João Augusto.

Assim, além de debater conceitos gerais sobre a capital, os alunos passam a elaborar estratégias que possam ser implementadas nas regiões administrativas para solucionar problemas. A primeira intervenção do grupo ocorreu no último dia 8, quando os jovens participaram de um mutirão promovido pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) organizado a fim de restaurar uma quadra poliesportiva na QNR de Ceilândia.

Veja vídeo da intervenção dos estudantes na quadra

 

Do campus para a sociedade 
A ideia do projeto surgiu a partir do trabalho de conclusão de curso de João Augusto na Universidade de Brasília (UnB), que buscava compreender a arquitetura como uma prática pedagógica na capital. Para o “Nossa Casa Comum” tomar corpo, o caminho foi relativamente simples. “Tenho um vínculo muito grande com o Colégio Jesus Maria José, pois estudei lá da 5ª série até o 3º ano, enquanto meu irmão estudou até a 8ª série. Além disso, minha mãe, Nilva, é coordenadora pedagógica da instituição e conhecia meu trabalho do começo ao fim”, explica.

O projeto, que teve início em fevereiro deste ano dentro da escola, foi basicamente dividido em dois momentos. No primeiro, os alunos tiveram que construir e manter uma cidade de 50 mil habitantes no SimCity, game virtual de estratégia bastante popular entre os jovens. “O jogador atua como um prefeito que tem de ser bem avaliado por seus cidadãos. Assim, os estudantes compreenderam a importância do planejamento urbano para a cidade”, explica. Além disso, os alunos anotaram os principais princípios do urbanismo percebidos durante a brincadeira para debater em sala.

No segundo momento, os estudantes separaram as anotações discutidas em temas como saúde, cultura e energia para, em seguida, organizar um questionário a ser levado às ruas e respondido por moradores de Taguatinga. No total, eles conseguiram entrevistar mais de 500 pessoas na região administrativa — inclusive especialistas de cada uma das áreas especificadas.

De volta para a sala de aula, eles debateram os resultados da pesquisa e reuniram tudo em um relatório, que veio a se tornar um vídeo rico de imagens e entrevistas. “Essa fase foi muito importante, pois eles identificaram também a importância do comércio local como meio de manutenção da cidade. Inclusive criaram um plano de negócios a que só os alunos têm acesso, para dar preferência aos produtos feitos na região”, conta João. O plano, posto em prática no site feitoaqui.com.br, será aberto ao público ainda neste ano.

As filmagens, divulgadas na página oficial do projeto no YouTube, já podem ser acessadas. Confira dois vídeos:

Mutirão em Ceilândia
Depois disso, os estudantes puderam, então, participar do mutirão na praça de Ceilândia. A saída de campo serviu para colocarem em prática o espírito de equipe da turma. “É um modo de eles compreenderem que o trabalho coletivo é um meio real de mudar a cidade”, explica Mariana Bomtempo, uma das idealizadoras do projeto.

A participação na iniciativa não é obrigatória aos alunos, mas oferece pontuação extra em outras disciplinas. Além disso, os participantes recebem certificação e podem adicionar a atividade no portfólio, como trabalho voluntário. “Apesar de não ser muito comum no Brasil, é algo bastante requisitado nas universidades no exterior”, explica Mariana. O trabalho continuará a ser realizado em 2017 e deve abrir vagas para alunos do 1º ano do ensino médio.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

As anotações feitas ao longo do projeto ficam penduradas na parede da sala.

Mas não foram só os alunos que ganharam com o projeto. O trabalho serviu de “estudo de caso” para a pesquisa de mestrado de João Augusto pela Universidade Politécnica de Turim, na Itália. Mariana também aproveitou o projeto para sua dissertação na Parsons New School, em Nova York (EUA). Dessa forma, um projeto acadêmico com premissas regionais ganha o mundo.

 

 

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