*
 

Quem caminhar pelo Instituto Central de Ciências (ICC) — principal prédio da Universidade de Brasília (UnB), conhecido como Minhocão — verá cartazes espalhados pelos corredores. Eles convocam a comunidade acadêmica para discutir um tema caro aos que pesquisam e produzem ciência: “Plagiar é crime”. Por ironia, o evento ocorrerá no Laboratório de Linguística Aplicada, mesmo órgão que recebeu e investiga, desde janeiro, a denúncia de que um dos seus docentes teria plagiado outra profissional.

Kleber Aparecido da Silva, doutor especializado em estudos linguísticos e professor de português do Brasil como segunda língua na UnB é acusado de copiar trabalhos de uma colega da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O plágio teria ocorrido no livro “Da Percepção ao Pensamento Crítico: Análises Multimodais em Leituras Resistentes do Cotidiano“. A obra, organizada por Simone Reis, professora de letras estrangeiras modernas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, foi publicada no ano passado. Ele escreveu a orelha do livro, espaço de prestígio, usado para que convidados façam uma bela propaganda das obras.

O que seria marketing, no entanto, virou preocupação para a organizadora do livro. Em janeiro, Simone releu o texto escrito por Kleber e se incomodou. Sentiu que já havia lido aquilo antes. E não era naquele mesmo espaço privilegiado que ela cedera ao professor respeitado da UnB. “Constatei que o texto assinado pelo professor era plágio. Pude ver isso porque reli um livro organizado por ex-alunas minhas um ano antes e lá estavam os trechos copiados”, contou a professora de Londrina ao Metrópoles.

O livro em questão, “Tendências contemporâneas para o ensino de língua inglesa“, é de 2014. Faz parte de uma coletânea coordenada pelo próprio professor Kleber. Simone comparou o prefácio da obra, escrito pela professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Claudia Hilsdorf Rocha, com o texto impresso na orelha da edição organizada por ela. O resultado foi um choque para Simone.

Trecho assinado pelo professor Kleber Aparecido da Silva, publicado na orelha do livro organizado por Simone Reis, publicado em 2015:

Arte/Metrópoles

 

Texto escrito por Claudia Hilsdorf Rocha para a obra coordenada pelo próprio Kleber e publicada em 2014:

Arte/Metrópoles

 

Depois de identificar o plágio, Simone deu início a uma troca de e-mails entre os envolvidos para tentar solucionar a situação, à qual o Metrópoles teve acesso. No dia 15 de janeiro, a professora pediu ao Kleber uma proposta para “solucionar o caso”. Ressaltou que ele teria de contribuir para pagar os custos da republicação do livro sem o texto plagiado. Dois dias depois, o professor da UnB respondeu apenas que o livro seria retirado de circulação e voltaria ao mercado sem o texto dele e “sem custos” para ela. Segundo ele, com o aval da editora responsável pela publicação.

E-mail/Reprodução
Não houve um pedido de desculpas nem a mim e nem à professora que ele plagiou. Ele também não mencionou o transtorno das pessoas que compraram o livro com o trabalho plagiado. É uma pouca vergonha"
Simone Reis
Unicamp/Divulgação

A professora da UEL descobriu o plágio enquanto preparava as aulas deste semestre

Indignação e reincidência
O pouco caso de Kleber gerou mais indignação entre as professoras envolvidas no triste episódio. Em um dos e-mails, Claudia Hilsdorf Rocha afirma que “nada justifica a cópia”. Além disso, ela afirma ser “obrigada a cortar relações acadêmicas com ele” e comunica o fim de sua “participação em outras obras organizadas por Kleber, para as quais havia sido convidada”.

Os dois livros foram publicados pela editora Pontes Editores. Simone avisou aos responsáveis da empresa sobre o plágio de Kleber. Como resposta, eles afirmaram que as obras assinadas pelo professor da UnB seriam “suspensas por hora”.

Essa não é a primeira vez que o professor Kleber se envolve em episódios como esse. Em 2005, quando ele concluía seu mestrado, uma professora da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, identificou trechos de outros artigos e da própria dissertação dela no trabalho de conclusão que ele apresentava. O plágio foi apresentado ao orientador de Kleber, mas não o impediu de obter o título de mestre.

UnB
A denúncia está em investigação. Se o plágio for comprovado, o Departamento de Linguística do Instituto de Letras, responsável pela apuração, encaminha um parecer à administração geral da universidade para que as medidas punitivas sejam definidas.

Qualquer caso de plágio é inaceitável dentro da universidade. Trata-se de um problema ético e está sendo averiguado com bastante zelo "
Jaime Martins de Santana, decano de Pesquisa e Pós-graduação da UnB

As punições variam. Kleber pode ter de fazer uma retratação pública do erro, tomar uma advertência e até ser suspenso. “Dificilmente temos um caso que exija a demissão do professor concursado, mas nenhum deles passam impunes”, afirma o decano.

Até a conclusão do processo, a rotina de trabalho do professor não muda. Ele pode dar aulas, orientar alunos de mestrado e doutorado e produzir. Pós-doutor em linguística pela Unicamp, Kleber é uma referência na área. Atualmente é responsável por três disciplinas da graduação e coordena equipes no programa de iniciação à docência. Bastante homenageado na academia, participa do corpo editorial de sete publicações especializadas em letras.

Simone, por sua vez, pretende entrar com uma ação na Justiça contra o professor. “Ele tem que cobrir os danos morais e materiais que tive com essa história, pois dediquei muito tempo na elaboração deste projeto e investi dinheiro na publicação da obra”, desabafa a professora da UEL.

O professor não atendeu às chamadas e mensagens do Metrópoles.