Duas escolas do DF entram em programa de militarização federal

A previsão é de que os integrantes das Forças Armadas sejam encaminhados às unidades do Gama e de Santa Maria até abril deste ano

atualizado 01/03/2020 14:34

Hugo Barreto/Metrópoles

Duas instituições de ensino públicas do Distrito Federal aderiram ao Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares, do Ministério da Educação (MEC), em parceria com a pasta da Defesa. O Centro Educacional (CED) 416, de Santa Maria, e o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 5, do Gama (foto em destaque), passam a seguir o modelo proposto pela União.

Praças e oficiais aposentados das Forças Armadas vão participar da gestão disciplinar em funções administrativas com o objetivo de melhorar os resultados das avaliações educacionais.

A previsão para a chegada dos efetivos aos colégios, segundo informações de pais, alunos e professores, é abril deste ano. No entanto, de acordo com a Secretaria de Educação do DF, desde o início do ano, os estabelecimentos educacionais já seguem o cronograma de implementação, incluindo reuniões com os gestores e a comunidade escolar.

A indicação dos colégios, de acordo com o MEC, partiu do GDF. As unidades foram selecionadas levando em conta a situação de vulnerabilidade social e o baixo desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com preferência para as instituições com maior volume de alunos, de 500 a mil nos dois turnos.

Também foi necessária a aprovação da comunidade escolar.

O CED 416, situado em uma das regiões administrativas mais carentes do DF, tem mais de 900 estudantes do 6º ano até os ensinos médio e especial, e foi selecionado com base no Indicador de Vulnerabilidade Escolar (IVE), que abrange dados de vulnerabilidade social, índices de criminalidade, de desenvolvimento humano e da educação básica.

A nota do Ideb do colégio, em 2015, para o ensino fundamental, por exemplo, foi de 3,6 pontos – em uma escala de zero a 10. A média estipulada como meta era a de 4,3 pontos.

Já o CEF 5, no Gama, começou os trabalhos em 1973 e, atualmente, atende 600 alunos do 6º ao 9º ano. A unidade também acabou escolhida com base no IVE.

As forças de segurança não serão responsáveis por todas as aulas, como ocorre no Colégio Militar de Brasília. A parte pedagógica na rede pública de ensino continua sob responsabilidade de professores, diretores e orientadores.

Opinião da comunidade

Metrópoles visitou as escolas que serão contempladas com o modelo na capital da República ainda neste primeiro semestre.

Como a mudança ainda não ocorreu com militares dentro das instituições, muitos alunos frequentam a escola sem o uniforme. Após o período de adaptação, eles enfrentarão uma disciplina mais rígida, com rotinas e regras específicas.

Oliver Gabriel Andrade, 16 anos, está no 2º ano do ensino médio e estuda no CED 416. Ele acredita que o programa vai trazer melhoria na disciplina, segurança, assiduidade, no comportamento e no desempenho dos alunos.

“O nosso diretor tem passado nas turmas desde o primeiro dia de aula para explicar um pouco de como vai ser quando eles estiverem aqui dentro. Nós também já recebemos visitas de militares no colégio. Nós participaremos do projeto-piloto e espero que sirvamos de espelho”, defende Oliver.

A cozinheira Clara Maria dos Santos, 38 anos, tem um filho de 15 matriculado no colégio e também aposta na iniciativa. “A disciplina e segurança no interior da escola vão ser diferentes. Meu filho já brigou com um colega e ninguém ficou sabendo. Ele chegou em casa com o olho machucado e me contou. Em um caso desses, com a presença das forças, alguém poderá intervir.”

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Já uma aluna de 16 anos confessa estar preocupada com a adaptação. “As regras são muito severas. Os meninos não podem andar com brincos e pulseiras, nem usar cabelos compridos. As meninas só devem ter adereços discretos e os cabelos amarrados. Até uniforme amassado vai ter punição. Não estou de acordo”, comentou.

Gama

No CEF 5, há também quem enxergue a proposta com desconfiança. “Acho que não vai mudar. Os militares não conseguirão impor as regras e nem todos vão aceitar com facilidade. Vamos ter que apreender a lidar com eles aqui. Espero que a gente se acostume”, ponderou uma aluna de 15 anos

Outra, de 13, acredita que o mais difícil vai ser não poder usar o cabelo solto. “Isso é retrocesso. Por que não podemos usar cabelo solto? A gente vai ter que prender todo santo dia? Sou contra”, opina.

Mas há aqueles animados com as mudanças que estão para chegar. “Acho que vamos ganhar muito. A presença dos militares vai afastar a insegurança. Na nossa escola tem muito bullying e a maioria dos alunos é indisciplinado. Vamos virar exemplo a ser seguido. Às regras, com o tempo, todos conseguirão se adaptar.”

Projeto

O projeto do MEC terá um regulamento próprio, diferentemente da Gestão Compartilhada com a Polícia Militar, que já tem 12 escolas no Distrito Federal. Os dois modelos são independentes e não haverá interrupção no cronograma já implementado na capital federal.

A Educação informou que os modelos são bastante semelhantes, em que cabe aos militares os aspectos disciplinares e atividades no contraturno. “A Secretaria de Educação, por sua vez, segue com o trabalho pedagógico desenvolvido nas escolas. A diferença principal está no efetivo militar, uma vez que o programa nacional conta com apoio das Forças Armadas, enquanto no DF as parcerias são realizadas com policiais e bombeiros”, detalhou a pasta.

O Ministério da Defesa já começou a selecionar os militares da reserva do Exército, da Marinha e da Aeronáutica que vão atuar na gestão educacional das instituições.

Em 2020, o MEC destinará R$ 54 milhões para levar a gestão de excelência cívico-militar para 54 escolas, sendo R$ 1 milhão por instituição de ensino.

São dois modelos. Em um, de disponibilização de pessoal, o MEC repassará R$ 28 milhões para o Ministério da Defesa arcar com os pagamentos dos militares da reserva das Forças Armadas. Os outros R$ 26 milhões vão para o governo local aplicar nas infraestruturas das unidades com materiais escolares e pequenas reformas.

A ideia é que, até 2023, 216 unidades se tornem cívico-militares.

De acordo com o diretor de Políticas para Escolas Cívico-Militares, Aroldo Cursino, a implementação dos estabelecimentos está saindo conforme o planejado. “Já capacitamos diretores e gestores das escolas e os policiais e bombeiros das forças estaduais. Tudo está sendo feito com o máximo de transparência e gestão necessárias ao processo”, explicou.

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