A fila por uma vaga em uma creche do Governo do Distrito Federal (GDF) não para de crescer. Mas, nem por isso, a Secretaria de Educação acelera o processo de entrega dos Centros de Ensino da Primeira Infância (CEPIs) que estão em construção. A população aguarda com ansiedade a inauguração dos estabelecimentos, que devem abrir 1,3 mil vagas no DF. Atualmente, há aproximadamente 25 mil crianças na espera em todo o DF.

Metrópoles percorreu 10 endereços que abrigam – ou deveriam abrigar – CEPIs: um em Águas Claras, cinco em Samambaia, dois em Brazlândia e dois no Lago Norte. Seis deles têm previsão de entrega ainda para 2016, de acordo com a Secretaria de Educação. No entanto, o cenário não é dos mais animadores.

Isso porque a maioria das obras já deveria estar concluída. Para piorar, as que estão prontas apresentam sinais de abandono, como mato alto e estruturas danificadas. Cada CEPI atende até 136 crianças de zero a cinco anos e custou, em média, R$ 2 milhões aos cofres públicos para ser construído.

No Lago Norte, a unidade da QI 13 está praticamente finalizada e é uma das que têm previsão de entrega para este ano. No entanto, o espaço possui faixas de interdição, como se houvesse algum problema no estabelecimento. O Metrópoles tentou contato com os funcionários que trabalhavam no local, mas ninguém quis falar a reportagem. O centro deveria ter sido entregue há dois anos, em 28 de abril de 2014.

Já a do Centro de Atividades 2 está longe de poder abrigar crianças. A área, que está cercada e com uma placa da Secretaria de Educação, acumula mato e materiais de construção abandonados. De acordo com a pasta, a obra “está em processo de distrato, já que a empresa vencedora da licitação solicitou cancelamento do contrato. A situação está sob análise jurídica da pasta”.

A secretaria afirmou ainda que, em condição normais, as obras podem levar de um ano e meio a dois anos até a finalização.

Abandono
A chegada da reportagem no local despertou a curiosidade de Adilson Soares, de 45 anos, um vidraceiro que mora em frente ao CEPI Rosa do Cerrado (foto maior), na AS 7 do Areal (Águas Claras). O local está pronto há mais de um ano e deveria ter sido entregue em setembro de 2014. Não há segurança na unidade de ensino e o mato toma conta do espaço que deveria educar crianças.

“(A creche) está abandonada há mais de um ano. A gente, que mora aqui em frente, é que tenta vigiar. Ninguém vem aqui fazer inspeção e já até entrou gente aí mais de uma vez. Já até pensei em entrar pra ver se tem água acumulada, mas tenho medo de acharem que estou assaltando”, contou Soares, preocupado. “Tem muita criança que precisa do espaço aqui na região e o governo não ajuda”, completou o vidraceiro.

A reportagem encontrou ainda contas atrasadas de luz e água deixadas no portão da (futura) instituição de ensino. As dívidas com a Companhia Energética de Brasília (CEB) e a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) ultrapassam, somadas, os R$ 19 mil.

 

Em Samambaia, a situação é um pouco melhor. Um funcionário da obra do CEPI Cutia, na QS 127, informou que a administração da cidade passa no centro e corta o mato de vez em quando. Ele, que preferiu não ter o nome divulgado, disse ainda que falta apenas a instalação de uma ligação de esgoto para que o espaço entre em funcionamento. “Disseram que era para abrir na última segunda (25), mas ainda nem sinal. O pessoal vem aqui direto perguntando se já aceitam currículos, mas infelizmente não podemos ajudar”, revelou.

Na QS 413, a creche está pronta para receber as crianças há cerca de dois meses. No entanto, os funcionários do local informaram que ainda não há previsão para que ela seja entregue ao governo.

Já na QS 613, também em Samambaia, os operários trabalham para colocar o prédio em funcionamento. O CEPI Capim Estrela deveria ter sido entregue ao GDF em março de 2015, mas o responsável pela obra – que não quis ser identificado – afirmou que um problema com o pagamento inviabilizou a conclusão do processo no tempo estipulado. “O governo não paga, então ficou tudo paralisado. Se houvesse interesse do GDF, eles ocupariam os espaços. Tem creches que deveriam estar prontas e ainda nem saíram do chão. Eu mesmo já fiquei 10 meses sem receber, não existe compromisso”, lamentou.

Canteiro de obras
Se não fosse pelas placas avisando sobre o lote em construção, quem passa em frente a outras três unidades visitadas pela reportagem não notaria que ali pretende-se erguer creches no futuro. Duas delas ficam em Samambaia (QN 425 e QS 607) e a terceira em Brazlândia (Quadra 1 do Setor Sul).

A Secretaria de Educação informou, em nota, que uma unidade de Águas Claras, uma do Lago Norte, três de Samambaia e uma de Brazlândia terão as obras concluídas em 2016. As que estão sendo concluídas nessas regiões ainda não têm prazo de conclusão.

Quanto àquelas que estão prontas e ainda não foram inauguradas, a pasta afirmou que estão em fase de vistoria e ainda receberão visitas do órgão. “A secretaria não recebe obras com pendências, devido ao zelo pelo recurso público e o cumprimento do memorial descritivo da obra”, completou.