Morador do DF precisa trabalhar 19 dias para pagar enterro
No Brasil, custo médio é de R$ 2,5 mil, diz pesquisa. Funerária da cidade oferece serviços diferentes, como diamante das cinzas do falecido
atualizado
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Neste sábado (02/11/2019), Dia de Finados, muitos brasilienses prestarão homenagens a parentes e amigos falecidos. A estimativa da Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus) é de que entre 400 mil e 700 mil pessoas visitem os seis cemitérios da capital.
Enterrar uma pessoa querida não é uma tarefa fácil. Além da tristeza da despedida, muitos ainda precisam se preocupar em encaixar no orçamento os custos do serviço funerário, muitas vezes inesperados. Para o morador do Distrito Federal, é necessário trabalhar, em média, 19 dias para arcar com esse gasto.
O número faz parte de um levantamento do site Bons Investimentos que considera dados da Associação Brasileira de Empresas Funerárias e Administradoras de Planos Funerários (Abredif). O grupo estima que os custos de um enterro, em todo o país, giram em torno de R$ 2.500.
Um levantamento do Metrópoles encontrou opções abaixo da média da pesquisa. A Funerária Bom Samaritano, na Asa Sul, tem serviços a partir de R$ 1,5 mil e que chegam a R$ 15 mil. Já em Taguatinga, na Santo Antônio, o valor é de R$ 1,3 mil a R$ 45 mil. Na Funerária Portal do Sol, no Sudoeste, o brasiliense paga, no mínimo, R$ 1,8 mil. No DF há 46 empresas cadastradas junto ao Governo do Distrito Federal (GDF).
Para chegar à média de 19 dias, o levantamento cruzou o valor para o enterro com o rendimento médio para a capital, calculado em R$ 3.908. A quantia foi estimada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Rendimento alto
Apesar de o período parecer “uma eternidade”, de acordo com a pesquisa do site Bons Investimentos, o morador da capital é o que precisa trabalhar menos dias para arcar com os custos de enterrar uma pessoa. Isso porque esta unidade da Federação conta com o maior rendimento médio do país.
O número é o triplo da menor renda considerada: R$ 1.166, para o Maranhão, onde é necessário trabalhar 64 dias para pagar o mesmo valor – a maior média no Brasil.
O gasto pode, no entanto, ser ainda maior do que o previsto pela pesquisa. Há três anos, Sônia Silva, 67 anos, perdeu a mãe e afirma ter desembolsado R$ 10 mil ao todo. Por a ter enterrado ao lado do pai, a professora aposentada ainda precisou pagar pela exumação. “Pega todos desprevenidos e pesa bastante no orçamento”, conta. Para pagar os serviços, os familiares dividiram o valor total.
Gustavo Santos, 38, também teve a ajuda da família para arcar com os custos dos enterros do pai e da irmã, que faleceram de câncer. O autônomo estima ter gastado, ao todo, R$ 8 mil. “O custo é muito alto. Compromete [o orçamento]. Tiramos de uma coisa para colocar em outra”, afirma o autônomo.
Assistência funeral
Os altos valores não são apenas para casos mais recentes. Ao perder a mãe, há 20 anos, Márcio Barbosa (foto em destaque), 48, acredita que a família desembolsou R$ 5 mil – acima da média para este ano.
“Difícil pensar [no gasto]. A gente não quer se planejar para isso”, completa a esposa dele, Luciana. No entanto, segundo ela, há quem pense nessa conta com antecedência. “Algumas pessoas fazem plano funerário. A mãe de uma amiga já está com tudo pago”, conta.
No DF, há empresas que oferecem o plano, que funciona como um seguro. A Fênix Assistência Familiar tem três opções: de R$ 6, R$ 9 e R$ 12 por mês. O preço varia de acordo com os serviços oferecidos – transporte, urna, ornamentação, por exemplo. Para maiores de 70 anos, a Fênix oferece o serviço por R$ 60, pagos por 60 meses. Caso ultrapasse o período, o custo cai para 1% do salário mínimo.
O contrato pode ser feito também com bancos, como o Banco do Brasil. A instituição financeira oferece opção de assistência funeral vinculada aos seguros de vida. São cobertos gastos de até R$ 5 mil para serviços como remoção do corpo, carro funerário, taxa de velório, ornamentação, entre outros.
O pagamento é realizado por parcelas mensais, e o valor varia conforme a cotação do banco, levando em consideração características pessoais de cada segurado.
Manutenção
Os custos não param após o velório. A família de Márcio está se planejando para trocar o mármore do túmulo no próximo ano. “Vamos gastar R$ 1,2 mil”, afirmou. Muitos ainda contratam um jardineiro para cuidar do local frequentemente, por não considerarem a manutenção do cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, suficiente.
A família de Sônia desembolsa R$ 80 por mês para que o serviço seja feito. A professora aposentada conta que o túmulo, de 20 anos, só sobreviveu ao tempo por causa da atenção despendida pela família. “Está bem abandonado. O gramado está todo detonado”, diz Sônia sobre o cemitério.
Júlio Silva, irmão dela, também reclama: “Nos túmulos abandonados, a administração [do cemitério] deveria, pelo menos, dar uma limpada. Um [cuidado] anual já ajudava”, afirma.
Para Jéssica Dias, 25, e Mara Lúcia Dias, 48, separar um dinheiro todo mês para a manutenção dos jazigos dos parentes é importante. “Isso não é nada, se comparado ao que ele fez por nós”, conta Jéssica sobre a limpeza do túmulo do pai, que faleceu em 2017. O serviço do jardineiro custa R$ 60 para a família e inclui também o sepulcro do irmão da pedagoga, falecido há 14 anos.
Fora do comum
Tem gente que se esmera na manutenção das sepulturas dos entes queridos, e outros investem muito para a despedida. E as empresas da cidade oferecem um cardápio farto. Na Funerária San Matheus, na Asa Norte, o sepultamento custa a partir de R$ 916,70 – valor para os serviços mais básicos. Já para os enterros mais caros, a despesa gira em torno de R$ 30 mil. A funerária também dá opções para quem quer marcar o momento de uma maneira diferente.
O cliente pode, por exemplo, optar por usar um helicóptero para jogar as cinzas em algum ponto da capital, como a Ponte JK ou o Jardim Botânico. O serviço completo custa a partir de R$ 10 mil. Para fazer apenas o voo, o valor é de R$ 5 mil.
Outra opção é fazer um diamante com as cinzas da pessoa falecida. A transformação ocorre na Suíça e leva até dois meses para o item ser entregue ao cliente. O gasto pode chegar a R$ 60 mil, para um diamante de 1 quilate (o mesmo que 200 miligramas). A quantia inicial para o diamante é de R$ 7 mil, passando para R$ 12 mil com o sepultamento.
O terceiro serviço diferente do usual oferecido pela funerária é artístico, com a produção de um quadro. No trabalho, as cinzas são misturadas à tinta usada para a pintura, que pode ser abstrata ou com as feições da pessoa. A empresa já foi contratada, inclusive, para fazer o serviço com os restos de um animal de estimação.
Em todo o país
Ainda de acordo com a pesquisa do site Bons Investimentos, para todo o país, é preciso trabalhar, em média, 39 dias para pagar os custos de um enterro. Em um período de 20 anos, o brasileiro necessita economizar R$ 10,31 por mês até chegar ao valor total, de R$ 2.500.
Se o tempo de economia subir para 30 anos, por exemplo, a quantia investida cai para R$ 6,60 por mês, para um valor que será de R$ 5.877, após correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Segundo a pesquisa, o item mais caro em um enterro é o transporte: o brasileiro desembolsa 28,31% do gasto total, chegando ao valor de R$ 707,75. Em seguida, aparece o caixão, com um custo médio de R$ 704,50 – quantia que representa 28,18%.
O valor médio para o velório foi calculado em R$ 372, somando 17,88% do total. O levantamento considera ainda: os custos para o sepultamento (R$ 341,25, ou 13,65%); as decorações (R$ 290,75, ou 11,63%); e outros gastos (R$ 83,50, ou 3,34%). Os dados levam em consideração os preços de serviços funerários da Prefeitura do Município de São Paulo.
Já na tabela disponibilizada pela Secretaria de Justiça do Distrito Federal, o menor custo total para serviços funerários, sem a formolização, é de R$ 546,57. Com o uso do formol, o valor sobe para R$ 899,65.
Para o atendimento – veículo funerário, expedição de documentos e remoção do corpo, por exemplo –, o preço sugerido pelo GDF é de R$ 112,99. Os ornamentos podem custar até R$ 296,56. Os valores para os caixões, de acordo com a tabela da Sejus, variam de R$ 127,11 a R$ 1.694,80, dependendo do estilo, material e tamanho.
Sepultamento social
Quem não consegue arcar com os custos do serviço funerário no Distrito Federal pode recorrer à Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF). Os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) da capital fornecem cinco tamanhos de urnas funerárias.
Têm direito ao benefício, previsto em lei, famílias com renda per capita de até um salário mínimo, de R$ 998 em 2019. Ou aquela “que se encontre em situação de limitação pessoal e social, tais como impossibilidade ou dificuldade de subsistência, em decorrência de despesas essenciais (medicamentos, educação, aluguel)”.
Além do caixão, a legislação determina: o fornecimento de transporte funerário; ornamentação; a utilização de capelas situadas nos cemitérios; velório; e sepultamento no cemitério mais próximo da residência dos familiares.
Para obterem o benefício, as famílias precisam procurar os centros de assistência social, em dias de semana, e a Central de Vagas de Acolhimento e Atendimento Emergencial (Unisuas) ao sábados, domingos ou feriados.










