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Um dos nomes mais conhecidos do empreendedorismo no Brasil, Camila Farani é uma das palestrantes confirmadas do Capital Empreendedora, evento que será realizado entre os dias 18 e 19 de maio, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, a jurada do programa de TV Shark Tank Brasil (Sony) fala sobre o cenário de inovação no país e as principais características buscadas por ela nas startups que desejam receber investimentos.

De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), estudo realizado em parceria com o Sebrae, de cada 10 brasileiros, quatro são empreendedores. Você acredita que o brasileiro empreende mais por oportunidade ou por necessidade?
Depende muito do cenário econômico e até mesmo social de um determinado momento. Eu me recordo que, há uma década, aproximadamente 60% dos empreendedores que existiam no país eram por necessidade. Pessoas que resolviam abrir um negócio para sustentar a família, sobrando pouco tempo para algo que acredito ser essencial para quem empreende: qualificação, seja esta formal ou informal. Hoje sinto um movimento empolgante. Mais de 50% das pessoas que empreendem o fazem porque querem, ou seja, buscam por trabalho e não por emprego.

A pessoa tem que ter um perfil empreendedor para tocar um negócio, e o Brasil está desenvolvendo uma geração de empreendedores que estão causando um impacto muito positivo no país."

Como você definiria o mercado de startups do Brasil? Está muito longe dos países de primeiro escalão?
Sou uma otimista incorrigível, sem perder o pé no chão. Vejo um amadurecimento do nosso mercado nacional de startups. Os pitches estão cada vez melhores e os empreendedores com quem me deparo estão trazendo ideias com soluções que realmente precisamos resolver, em uma sociedade como a nossa. Apesar de conhecer muito bem outros polos de startups pelo mundo e estudá-los com profundidade, não gosto de fazer comparações com o que está rolando no Vale do Silício, Israel, China… No início, queríamos muito copiar o que acontecia lá fora; hoje, percebo sinais de que estamos desenvolvendo uma identidade própria no mercado de tecnologia. Basta ver o que anda ocorrendo em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Recife e outras.

Canal Sony/Divulgação

Segundo Camila, o fator mais importante na hora de investir em um negócio são “as pessoas”

 

Recentemente, a Receita Federal publicou uma norma que tributa de 15% a 22,5% o rendimento do valor investido em uma startup. É o mesmo tipo de tributação para quem investe, por exemplo, no Tesouro Direto, porém se submetendo a um risco muito maior. A lógica não deveria ser inversa, reduzindo-se o percentual de tributação para estimular o trabalho dos investidores-anjos e, consequentemente, o crescimento de startups?
Sem dúvida. O trabalho de fomento ao empreendedorismo, de uma forma geral, precisa analisar a figura do investidor-anjo como um propulsor para a criação de novas empresas e seus impactos positivos para o cenário econômico do Brasil. Mais empresas, mais capital circulando, mais impostos e sonhos realizados. Existem grupos de investidores-anjos em comunicação direta com o Ministro da Fazenda e com a Receita Federal para discutir proposições de isenção de IR sobre ganho de capital e compensação dos investimentos em impostos devidos. Há também interlocução com os congressistas, para que apoiem projetos de lei que estimulam o investimento-anjo, além de atuação junto às escolas de magistratura e tribunais trabalhistas, para entendimento da Lei Complementar 155/20.

Quando você, Camila, pensa em ser investidora-anjo de uma startup, quais as principais características que busca?
Cada vez que me fazem essa pergunta, devolvo questionando: “o que você acha?”. A maioria pensa que seria uma ideia incrível, o potencial de retorno… Lógico que analiso [esses quesitos], mas as pessoas ficam incrédulas quando respondo que é o fator “pessoas”. De que adianta ter um bom plano de negócios, um empreendimento revolucionário, se não tem uma pessoa que coloque a mão na massa? Acredito, sim, no poder da realização, mas é impossível uma entrega dentro das expectativas de um investidor sem uma execução impecável. Aprendi isso em casa, quando propus mudanças na charutaria da minha família e o desafio era eu atingir 30% no aumento de faturamento para ganhar uma porcentagem da empresa. Atingi 26%. Sabe o que aconteceu? Minha mãe deu a participação porque disse que eu provei ter uma capacidade incrível de execução. Levo essa lição, que aprendi em casa e a qual eu não teria com tanta efetividade nas melhores escolas de empreendedorismo do mundo. Um negócio com escalabilidade, que resolva um grande problema para um mercado maior ainda. Essa tríade, aliada à equipe envolvida – são os principais [requisitos].

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“Ser empreendedor é empolgante porque você está tendo o domínio da própria vida em todos os aspectos”, conta Camila Farani

No programa Shark Tank, você já se arrependeu de ter feito ou deixado de fazer algum negócio?
Felizmente, ainda não tive essa sensação de frustração em um investimento equivocado. Lógico que estamos sujeitos a erros e não estamos livres de um dia passar por isso. Mas a experiência faz a gente ter um certo senso de sermos mais assertivos. É muito dinheiro e expectativas em jogo. Todos queremos ganhar.

Quais os principais erros cometidos por quem busca um investimento ao abordar um possível investidor?
Vejo que muitos buscam investimento-anjo no momento errado do negócio. Muitas vezes, o empreendimento precisa caminhar mais um pouco para entender melhor algo precioso em uma negociação: números, tanto os de mercado quanto os referentes à própria empresa. Outro erro é que falta um pouco de estudo e planejamento sobre para quem se vai pedir um investimento. De que adianta um empreendedor com uma ideia B2B pedir um aporte para um investidor que costuma invejar capital em e-commerces?

E o mais grave, que é enrolar e não ser objetivo quanto a três argumentos que precisam estar na ponta da língua: o problema que existe no mercado, como seu produto é a solução para tal e de que forma você monetizará seu modelo de negócio."

Muitas pessoas se preocupam com os erros que se pode cometer antes de abrir um negócio. Quais são os equívocos mais perigosos que os empreendedores cometem após abrirem suas próprias empresas?
Não saber gerenciar todas as demandas que o negócio requer. Gosto de fazer uma comparação: o empreendedor é como aquele artista que em um espetáculo fica equilibrando diversos pratos girando no alto de um cabo fino. Tem uma hora que o prato começa a perder velocidade enquanto está rodando, e neste momento se deve agir para não deixar o prato cair. Acontece o mesmo no mundo dos negócios: muitas vezes, temos um perfil muito bom em vendas, mas que não se dá muito bem com contabilidade, impostos a pagar ou gestão de estoques. Mas nada disso é mais perigoso que a falta de domínio do fluxo de caixa. Quando começa a haver problemas nesse ponto, os outros “pratos” do negócio começam a dar sinais de desequilíbrio ao mesmo tempo.

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Servidores públicos podem ser intraempreendedores que buscam soluções para problemas dos órgãos

 

Brasília é conhecida por abrigar muitos órgãos do governo e, consequentemente, atrair muitas pessoas para o serviço público. Como é possível empreender trabalhando para o Estado?
Sou adepta de uma teoria segundo a qual empreender é estilo de vida e não meramente abrir negócios. É um estado permanente de fazer acontecer, de buscar soluções para problemas complexos, porque os fáceis todo mundo resolve. Nessa linha, quaisquer pessoas que trabalham em órgãos públicos ou privados podem ser consideradas numa categoria chamada de intraempreendedores, ou seja, aqueles que fazem acontecer dentro de empresas.

Você é cofundadora do MIA (Mulheres Investidoras-Anjo), um grupo que incentiva mulheres empreendedoras. Na sua opinião, o que mais dificulta a expansão do empreendedorismo feminino: o sexismo no mercado, a jornada múltipla ou a falta de incentivo dentro das próprias empresas?
Dificulta as mulheres acharem-se incapazes por causa de tudo que foi mencionado na pergunta. Existe um inconsciente coletivo criado por questões históricas e culturais que fomentam esse tipo de presunção.

Costumo dizer que, se você quer fazer a diferença, em vez de resistir e brigar pelas estatísticas, olhe para si e concentre seus esforços em ser melhor a cada dia, como ser humano e profissional. Isso cria uma mentalidade de crescimento em vez de rejeição."
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Camila: “Vejo um amadurecimento de nossas startups. Os pitches estão cada vez melhores”

 

Por fim, ser um empreendedor é ser, digamos, seu próprio chefe e responsável por suas ações. O que você diria para quem ainda está em dúvida em ser ou não um empreendedor?
Faça muitos questionamentos para si, como “é isso que eu quero para a minha vida?” ou “tenho perfil para isso?”. Ser empreendedor é empolgante porque você está tendo o domínio da própria vida em todos os aspectos. Entretanto, a carga de responsabilidades triplica e, por mais que você cumpra todas elas, não há garantias de que o retorno é certo. Apesar de o mercado viver muito de números e diversas métricas e indicadores, empreendedorismo não é uma ciência exata. Meu conselho é colocar tudo no papel e planejar muito, estudar, perguntar para pessoas mais experientes na arte de abrir e tocar uma empresa – para, aí sim, partir para a execução.

Estamos em um dos melhores momentos da nossa história para empreender, um cenário de recessão, que é quando as ideias – principalmente as inovadoras – encontram um terreno fértil para se desenvolverem."

Capital Empreendedora 2018
Data: 18 e 19 de maio
Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães
Ingresso e mais informações: https://www.capitalempreendedora.com

 

 

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