Ações da CEB valorizaram mais de 20%, mesmo após rombo bilionário

Especialistas entendem que possibilidade de privatização da empresa pode ter contribuído para alta dos papéis nas últimas 52 semanas.

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 17/07/2019 10:58

O comportamento da Companhia Energética de Brasília (CEB) no mercado financeiro aparenta uma realidade diferente do que as notícias recentes de crise sinalizam. Nas últimas 52 semanas, as três categorias de ações da estatal (CEBR3, CEBR5 e CEBR6)  na Bolsa de Valores tiveram valorização entre 20% e 30%, conforme a própria empresa. A alta, que significou a maior guinada nos papéis desde agosto de 2011, se manteve mesmo após a revelação de uma dívida de R$ 1 bilhão e das divergências internas quanto à abertura de capital da CEB – Distribuidora.

O economista David Mendes, da Voga Invest, esmiuçou as variações dos papéis da empresa no passado e a divulgação de resultados operacionais, a pedido da reportagem do Metrópoles, e admite ter se surpreendido com o que viu. Segundo ele, a explicação mais provável para o movimento é a possibilidade de privatização de parte da companhia, defendida abertamente pelo governador Ibaneis Rocha (MDB).

“Vi que a empresa apresentou prejuízos em 2014 e 2015 e, em 2016, voltou a ter resultados financeiros interessantes. Esse lucro veio a aumentar em 2017. E, aqui, comento apenas os resultados de operações e me abstenho de analisar possíveis dívidas”, diz o especialista.

Segundo ele, essa recuperação a partir de 2016 pode explicar o incremento inicial dos preços dos papéis da empresa. O economista faz a ressalva, porém, que se tratam de ações com pouca comercialização e que “não aparecem em nenhum relatório de recomendação”. “Acredito que quem invista nisso sejam mais ex-servidores da companhia, então são poucas compras e vendas”, explica.

Números no papel

A CEB revelou que seu capital é composto por 7.184.178 ações ordinárias normativas (ON), aquelas que dão direito a voto no conselho da companhia, 1.313.002 de ações preferenciais classe “A” (PNA) e 5.919.203 preferenciais nominativas classe “B” (PNB).

As ON são negociadas no mercado financeiro sob o código CEBR3 e tiveram variação positiva, entre 3 de julho de 2018 e 3 de julho de 2019, de 30%, passando de R$ 25 para R$ 32,50. As PNA são comercializadas com o codinome CEBR5 e tiveram valorização de 20%, no mesmo período, saltando de R$ 35 para R$ 42. Já para as PNB, lançadas na bolsa como CEBR6, o aumento foi de 20,55%, pulando de R$ 29 para R$ 34,96.

Os dois momentos de alta observados por David Mendes foram em 2017, após a divulgação de lucro com as operações da companhia no ano anterior, e em março de 2019, quando a chance de privatizar a CEB – Distribuidora se tornou mais concreta. “Vira e mexe sai uma notícia de possível venda de uma subsidiária e isso tudo mexe nos valores do papel. Mas acredito que, de forma geral, tenham sido esses dois fatores”, garante.

Fatores políticos

O diretor do Sindicato dos Urbanitários do DF (Stiu-DF), João Carlos Ferreira, salienta que os resultados da empresa na Bolsa estão constantemente ligados a fatores políticos. Ele sugere ainda que agentes do mercado financeiro tiveram informações sobre as intenções de privatizar a companhia antes mesmo dos anúncios feitos pelo governador Ibaneis, em fevereiro de 2019. “Olhei o comportamento dos papéis nos últimos cinco anos. Quando há mudança de governo, há pico”, diz.

“Houve pico também quando o Rodrigo [Rollemberg, ex-governador] surgiu com a história de abrir o capital de uma das subsidiárias. Existiam indicativos e os profissionais do mercado estão aí para captar movimentos que ninguém mais consegue”, avalia. “Não posso dizer que esses boatos tenham surgido de forma proposital, para um ou outro acionista se beneficiar, mas exite gente especializada nessa área”, especula.

O diretor do sindicato reconhece que as notícias sobre abertura de capital são positivas para qualquer estatal, mas volta a defender a postura da entidade de ser contra a privatização. “Há um ambiente de especulação que, num primeiro momento, sugere que as empresas vão se recuperar rapidamente em termos de gestão e resultado. Isso agrada a quem opera em bolsa. Nos lugares onde isso de fato aconteceu, verificamos que há frustração da sociedade, porque os serviços caem de qualidade e são encarecidos”, critica.

Contrassenso

O economista Marcos Valadão, da G2W Investimentos, explica que ações de empresas públicas não costumam fazer tanto sucesso na Bolsa por conta da baixa liquidez de estatais. O objetivo desse tipo de empreendimento não é produzir lucro, apenas fornecer o serviço para a população, portanto, o viés de alta costuma ter razões específicas. Ele também acredita que os indícios de privatização podem ter contribuído para a manutenção dos bons preços dos papéis da companhia, mas não crava a razão.

“As empresas são precificadas por seus acionistas. Quando há perspectiva de melhora do fluxo de caixa, há valorização dos ativos. O movimento que vem de notícias significa que o mercado projeta uma melhora nas ações da empresa e as ações sobem. Não significa que está certo. Não é uma lei absoluta. Mas com certeza o senso comum diz que o rombo [verificado na CEB] deveria depreciar as ações”, atesta o especialista.

A CEB, por meio de sua assessoria de imprensa, não quis detalhar os motivos e o comportamento de seus papéis. “Somos uma empresa de capital aberto e não vamos comentar decisões dos investidores”, respondeu.

 

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