Empoderamento. Projeto ajuda meninas a enfrentarem a violência virtual

Batizada de Escola de App: enfrentando a violência on-line contra meninas, proposta acadêmica está provocando discussão em colégios do DF

atualizado 19/05/2018 19:44

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Uma discussão em sala de aula fez com que a adolescente Thayane Lima, 15 anos, passasse a ser alvo de graves ataques virtuais. Após as colegas terem se envolvido em uma confusão com outras meninas da mesma escola, ela teve a sua imagem e das amigas circulando na internet com graves ameaças.

“Nem estava na confusão. Mesmo assim, recebia mensagens nas redes sociais, pelo meu celular, com todo tipo de intimidação possível. Me xingavam de diversas coisas nos comentários das fotos e ainda deixavam recados dizendo que iriam me pegar na saída”, relata Thayane. Diante de intenso sofrimento, Thayane precisou mudar de colégio. Hoje, estuda no Centro de Ensino Médio Paulo Freire, na Asa Norte.

Ela não é a única a passar por esse tipo de problema. A organização não governamental (ONG) Safernet diz que em 2017 atendeu 300 casos de cyberbulling (perseguições, intimidação, discriminação, ofensa e exposição íntima). Geralmente, as principais vítimas são crianças, adolescentes (do sexo feminino), mulheres, gays, lésbicas e negros.

Diante desse cenário preocupante, há um ano, a professora da Faculdade de Comunicação (Fac) da Universidade de Brasília (UnB) Janara Sousa, 42 anos, idealizou o projeto de pesquisa e extensão “Escola de App: enfrentando a violência on-line contra meninas”.

Além de dar empoderamento, a iniciativa tem como objetivo fazer com que adolescentes do ensino médio aproximem-se mais da tecnologia e aprendam a desenvolver aplicativos para encarar o problema de frente. “Já fui vítima de violência on-line. A internet não é um ambiente seguro. Por não conhecerem, as meninas não sabem lidar com a situação. A nossa ideia é o aprofundamento no tema para que as jovens não se tornem vítimas”, diz Janara.

O projeto começou a ser desenvolvido no fim de 2017 com a ida em cinco escolas públicas do DF para debates com diretoras e alunas, além da realização de grupos focais. Agora, está na fase prática, com workshops que apontam riscos e dicas de como navegar com segurança.

Segundo a professora, as consequências dos ataques virtuais costumam ser tão nefastas para as vítimas como quando sofrem uma violência física. “Os principais problemas são: a desistência da escola, quadros profundos de depressão, afastamento da vida social, automutilação e, em alguns casos, suicídio”, alerta.

Na última semana, o Metrópoles acompanhou uma reunião do projeto no CEM Paulo Freire. Das 12 garotas presentes no debate, todas relataram ter sofrido algum tipo de desrespeito no âmbito virtual. A estudante Gabriella Souza, 15, se interessou em participar do Escola de App para evitar que as pessoas passem pelos mesmos problemas que ela enfrentou.

No meu caso, era discriminação por eu não seguir o ‘padrão de beleza’ imposto pela sociedade. Muitas mensagens negativas nas minhas imagens. Quero aprender as técnicas de enfrentamento e especialmente a mexer com aplicativos. Acredito, dessa maneira, poder ajudar outras jovens a superar o problema, como eu consegui.

Gabriella Souza
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Incentivo
Subcoordenador do Escola de App, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) e assessor da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, Gerson Scheidweiler diz que a iniciativa é fundamental para o avanço no debate de gênero.

Para ele, embora os estudos da violência contra a mulher venham sendo desenvolvidos há muito tempo, os ataques na internet precisam de uma investigação mais profunda. “Queremos desconstruir a ideia de que a culpa é da menina. Tirar foto de si mesma não é crime. O crime é vazar, compartilhar ou produzir fotos e vídeos sem a autorização de quem aparece nas imagens”, ressaltou.

Além de promover a ampla investigação sobre os casos de violência que se manifestam em ambientes digitais, o projeto contempla a criação de um site de direitos virtuais das meninas. A ideia é fazer um dossiê para subsidiar a elaboração do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas na Internet pela Secretaria da Presidência da República.

A proposta planeja também sensibilizar e treinar 300 estudantes de escolas públicas para elaboração de aplicativos que garantam a proteção e os direitos humanos das meninas na rede virtual. “Acreditamos que, desta forma, elas podem se tornar mais fortes e empoderadas na internet”, acrescenta o professor.

Na próxima semana, o projeto de pesquisa e extensão será ampliado para o Amapá e o Rio de Janeiro. Posteriormente, a pesquisa pretende alcançar também estados do Sul e o Ceará. “Com isso, vamos poder ter uma política pública construída fora dos gabinetes e com a participação de quem mais sofre”, destaca.

Arte/Metrópoles

 

Crimes
O Marco Civil da Internet, sancionado em 23 de abril de 2014, estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da rede no Brasil.  Entre os princípios básicos, destacam-se tanto a garantia da liberdade de expressão como a proteção à privacidade e aos dados pessoais.

Aquele que assumir ou criar identidade ou perfil falso em redes sociais ou sítios da internet, para obter vantagem indevida, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a outra pessoa, poderá ser condenado de 1 a 3 anos de reclusão.

 

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