DF: 69% dos profissionais da enfermagem já foram agredidos em serviço

Violência verbal supera a física e é a mais frequente segundo IPE-DF. As vítimas são, em sua maioria, auxiliares e técnicas de enfermagem

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Profissionais de saúde agredidos - Metrópoles
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Ser chamada de “imunda” e “incompetente” ou até levar um tapa no rosto durante o atendimento não é uma realidade isolada da técnica de radiologia que denunciou ter sido agredida pelo senador Magno Malta dentro do Hospital DF Star, em Brasília. Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF), realizada em 2025 com 702 profissionais de saúde, aponta que 69,1% dos entrevistados já sofreram algum tipo de violência no ambiente de trabalho.

 


Senador acusado de agressão

  • O episódio envolvendo um senador da República ocorreu no Hospital DF Star, em Brasília, em 30 de abril. Na ocasião, a técnica de radiologia afirma ter sido agredida durante um atendimento ao parlamentar Magno Malta (PL-ES), que estava internado após passar mal no Congresso Nacional;
  • Segundo a profissional, ela era responsável por conduzir o paciente até a sala de exames, realizar a monitorização e iniciar a e angiotomografia de tórax e coronariana, incluindo o teste com soro para acesso venoso;
  • Durante o exame, ao iniciar a aplicação do contraste, o equipamento teria identificado uma oclusão, interrompendo automaticamente o procedimento. A técnica afirma que, ao verificar a intercorrência, constatou o extravasamento do líquido no braço do paciente. Ela relata que explicou a necessidade de compressão no local afetado para evitar complicações;
  • Nesse momento, de acordo com relato da jovem, o senador teria reagido de forma agressiva, se levantado do equipamento e, quando a profissional se aproximou para prestar assistência, teria desferido um tapa em seu rosto, o que chegou a entortar seus óculos. Em seguida, a técnica afirma ter sido xingada de “imunda” e “incompetente”.
  • Assustada, ela deixou imediatamente a sala de exames e acionou a equipe médica, incluindo enfermeira e médico. Ela relata dor e vermelhidão no rosto após a agressão e afirma estar com medo de um novo contato com o paciente;
  • O caso foi registrado em Boletim de Ocorrência na Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no mesmo dia, e o Hospital DF Star informou que abriu apuração administrativa para investigar o ocorrido.

Nas redes sociais, o senador negou as acusações de agressão e afirmou que nunca encostou a mão em ninguém, classificando o caso como “falsa comunicação de crime”. “Vocês me conhecem. Eu nunca encostei a mão em ninguém, nem nas minhas filhas, nem em nenhuma mulher”, disse.

Em nota divulgada pela equipe jurídica, a defesa também afirmou que o parlamentar estava sob forte medicação e com a cognição comprometida no momento do atendimento, sustentando que ele teria reagido ao sofrimento físico durante o exame e acionado imediatamente o médico responsável, sem direcionar qualquer conduta contra a profissional de saúde.

Protesto

O caso motivou uma manifestação marcada para esta quinta-feira (8/5), às 7h30, em frente à unidade de saúde. A mobilização reúne entidades da enfermagem em protesto contra o aumento da violência no ambiente de trabalho e para cobrar mudanças estruturais nos serviços.

Em entrevista ao Metrópoles, a presidente da ABEn-DF, Karine Rodrigues, afirmou que as reivindicações incluem a criação de fluxos seguros de denúncia e de apuração dos casos dentro das instituições. Segundo ela, há um cenário de medo entre as profissionais. “Os profissionais têm medo de retaliação e acreditam que nada vai acontecer”, disse.

Os dados reforçam esse contexto: apenas 15,2% das vítimas de violência física registram ocorrência formal. Nos demais casos, os índices variam entre 10,2% e 14,8%, o que, segundo a entidade, está ligado ao medo de retaliação e à descrença na resolução dos casos.

Karine defende, ainda, que os hospitais garantam acolhimento às vítimas, com suporte administrativo e jurídico, além de campanhas educativas voltadas a pacientes e trabalhadores. A violência no ambiente de trabalho também impacta a saúde mental das profissionais, com relatos frequentes de estresse em 74,4% dos casos, ansiedade em 67,2%, além de medo e desmotivação.

Ela também destacou que a falta de profissionais nos plantões contribui para o aumento da tensão nas unidades. “Quando falta equipe, o paciente fica mais impaciente e isso pode gerar comportamentos agressivos”, afirmou.

Locais de agressão

Os hospitais concentram a maior parte dos registros de violência contra profissionais de enfermagem, sendo o principal local de ocorrência identificado na pesquisa. É dentro dessas unidades que os episódios se repetem com mais frequência, em um ambiente marcado por alta demanda, sobrecarga de trabalho e longas esperas por atendimento.

Dentro dos hospitais, os setores mais críticos são a internação, as Unidades de Terapias Intensivas (UTIs), as salas de triagem e os corredores de circulação. A triagem aparece como um dos pontos mais sensíveis por ser a porta de entrada do atendimento, onde se define a ordem de prioridade e há maior contato inicial com pacientes e acompanhantes. Já as UTIs e as áreas de internação concentram situações de maior gravidade clínica e forte carga emocional, envolvendo pacientes em estado crítico e familiares sob estresse.

Também em espaços de atendimento de urgência, como prontos-socorros e unidades de pronto atendimento, a combinação entre superlotação, demora no atendimento e pressão por respostas rápidas contribui para um ambiente de maior tensão, favorecendo episódios de conflito entre usuários e equipes de saúde.

Quem agride

Os dados da pesquisa mostram que o perfil dos agressores muda conforme o tipo de violência, mas os pacientes aparecem como os principais responsáveis nos casos mais diretos. Na violência física, eles concentram a maior parte das ocorrências, com cerca de 79% dos registros, seguidos à distância por familiares e acompanhantes. Já na violência verbal, os pacientes também lideram, mas com participação mais distribuída entre outros grupos: acompanhantes, familiares e, em menor proporção, colegas de trabalho, o que reflete um ambiente de maior tensão durante o atendimento.

No caso do assédio moral, o padrão muda completamente. Nesse tipo de violência, que está mais ligado às relações internas de trabalho, as chefias, supervisores e coordenadores aparecem como os principais responsáveis, seguidos por colegas de equipe. O recorte reforça que a violência na enfermagem não vem de uma única fonte, mas se manifesta tanto na relação direta com o paciente quanto dentro da própria estrutura hierárquica dos serviços de saúde.

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