De coração gigante: família do DF adotou 19 crianças mais velhas

Em abrigos da capital, 129 meninos, meninas e adolescentes estão em busca de um novo lar, porém, maioria dos pais prefere menores de 3 anos

Vinícius Santa Rosa / MetrópolesVinícius Santa Rosa / Metrópoles

atualizado 13/10/2018 18:01

No Distrito Federal, há 129 crianças e adolescentes disponíveis para adoção no mês de outubro. Mas, apesar de haver 500 famílias aptas para receber um órfão em casa, a realidade é cruel: 94,6% dos pretendentes aceitam somente crianças de até três anos e todas as disponíveis passaram dessa idade, segundo dados da Vara da Infância e Juventude (VIJ) do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).  

Quanto maior a faixa etária, menos famílias estão dispostas a adotar. Os adolescentes em busca de um lar representam 53,48% do total, enquanto apenas cinco lares estão dispostos a ter filhos acima de 11 anos.

“Existe um desejo das pessoas em repetir ao máximo a situação biológica. É um anseio de viver todos os momentos da criança. Há também a tendência em acreditar que não vai ser possível educar um adolescente da mesma forma”, explica a supervisora da Seção de Colocação em Família da VIJ, Niva Campos. 

Na contramão da preferência da maioria, famílias que escolheram a adoção tardia, de crianças com mais de três anos, mostram possuir um coração gigante. “O amor me fez adotar”, afirma a professora aposentada Joana Célia de Oliveira, de 61 anos. Em 1976, veio sua primeira filha, Vanda Soares, aos 12 anos. Joana era amiga da mãe biológica da menina, que faleceu.

“Foi maravilhoso. Hoje, eu tenho certeza de que não seria a mesma pessoa. Apesar de termos só seis anos de diferença de idade, ela veio com o espírito amadurecido e me ensinou muito”, conta Vanda, aos 55 anos.

Foi o primeiro passo para Joana construir, ao lado do marido, o engenheiro militar da reserva Olavo Soares, de 71 anos, uma grande família: em 2018, são 22 filhos do coração. Alguns seguiram novos rumos na vida adulta, outros 13 moram na casa da família, no Condomínio Mansões Entre Lagos, em Sobradinho.

 

Dezenove filhos foram adotados com faixa etária de três a 14 anos. E, para Joana, não há mistério na criação. “É um desafio duplo. As crianças têm os mesmos receios em relação aos pais. É preciso, juntos, tentar se encaixar numa mesma vida, no mesmo teto. Cada um tem sua personalidade, então, a cabeça tem que estar sempre aberta”, explica a professora aposentada.

Às vezes, também é preciso de apoio profissional para acolher as crianças. “Quando a pessoa faz a opção de ser a responsável pela aquela criança, ela precisa ter ciência de que eles vêm com uma ‘caixinha preta’. Como a gente não sabe todos os problemas e desafios enfrentados no passado, é interessante buscar ajuda psicológica”, aconselha.

Em 2018, chegaram à família os seis filhos mais recentes, todos irmãos biológicos: Ana Paula, de 5 anos; os gêmeos Nathália e Nathan, 7; Evelyn, 9; Yago, 12; e Ruan, 14. “Trouxe vida para casa”, declara Joana.

Casa cheia
O desejo de aumentar a família também fez com que o técnico de áudio e vídeo Mário Luiz Rodrigues Balthar, 56, e a professora Aira Carina Pessoa Pereira, 45, fossem atrás do sonho de ter mais filhos. Paraplégico há 28 anos, ele já tinha um filho biológico. Ela também era mãe de Monise Pessoa Pereira, adotada aos sete anos.

Os dois tentaram uma gravidez por inseminação artificial. Como surgiram dificuldades no processo, decidiram adotar. Em 2014, dois irmãos biológico entraram para a família: Kauan, aos 7, e o Rodrigo, aos 5. Depois, no fim do ano seguinte, veio Nicolas, então com 9 anos. A residência da família, em Sobradinho, ficou cheia. 

“O nascimento é igual. A dificuldade na adaptação foi gerada mais pela mudança radical na vida deles do que na nossa, mas não tivemos problemas. Foram coisas pequenas, incapazes de interferir no processo”, conta o pai.

 

A psicóloga Soraya Pereira atua há cerca de 20 anos na ONG Aconchego, onde há um grupo de acolhimento para adoções tardias. A especialista ressalta a importância das famílias compartilharem  experiências.

A adoção tardia é mais trabalhosa, mas não é impossível. A criança tem uma história, por isso precisamos lidar com uma nova cultura familiar

Soraya Pereira, psicóloga da ONG Aconchego

A própria Soraya adotou tardiamente a filha, quando a pequena tinha quatro anos. Essa foi sua segunda experiência. O primogênito chegou à família ainda recém-nascido. “É a filha que a gente esperava. Eu me orgulho muito de ser mãe deles. Eles nos completam”, declara.

 

Divulgação nas redes sociais
O TJDFT tenta incentivar a adoção tardia por meio de projetos. Iniciado recentemente, o Busca de um Lar pretende utilizar ferramentas de divulgação, como vídeos, fotos e posts de crianças e adolescentes que se encontram em perfil à margem do desejado pelas famílias cadastradas, para sensibilizá-las.

“Vai ser uma experiência piloto com cinco adolescentes. Eles querem muito ser adotados, e a gente não conseguiu famílias no cadastro. Isso vai dar uma visibilidade maior e mais oportunidades para eles”, explica a supervisora Niva Campos.

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