Coronavírus: IML emprega técnica usada em Brumadinho para fazer necropsia

Reconhecimento de corpos no instituto também passou a ser feito por meio de fotografias para evitar os riscos de contágio

peritoRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 11/05/2020 10:31

A pandemia do novo coronavírus mudou completamente a rotina do Instituto de Medicina Legal (IML) do Distrito Federal.  Os peritos deixaram de lado o bisturi e passaram a adotar a tomografia computadorizada no exame dos corpos. A técnica foi usada, por exemplo, no reconhecimento das vítimas da tragédia de Brumadinho (MG).

O aparelho custa caro e só está disponível nos IMLs de Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Ele permite que os profissionais colham informações importantes sobre as causas da morte sem ter necessidade de contato direto com os cadáveres. Assim, reduzem os riscos de contágio.

Além dos cuidados anteriormente tomados, a atenção passou a ser redobrada e atinge desde a equipe de limpeza até os médicos e servidores que trabalham nas ruas com remoção dos corpos. Todos são tratados como se fossem possíveis contaminantes.

A cautela se justifica. O Metrópoles apurou que, nos últimos meses, quatro mortos chegaram ao instituto vítimas de queda da própria altura, acidentes de trânsito e um possível suicídio, por exemplo. Todos foram diagnosticados com Covid-19 posteriormente.

Os profissionais que atuam nos rabecões usam as mesmas roupas dos médicos que trabalham em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI). Contam ainda com óculos de proteção e máscaras. Ao chegar no local de remoção, as equipes usam um spray com solução de cloro ativo, que é borrifada no rosto e no tórax da vítima.

Uma proteção de plástico também é colocada na cabeça da pessoa, pois, mesmo após a morte, ainda é possível ter ar nos pulmões. Ao ser manipulado, o corpo pode expelir o vírus, caso a vítima esteja contaminada.

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O IML de Brasília foi pioneiro ao adotar as medidas no país. Com base em metodologias empregadas na Europa, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) elaborou um plano de contingência que contém medidas temporárias de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus.

A estratégia foi endossada dias depois pelo próprio Ministério da Saúde ao lançar uma cartilha de cuidados na manipulação dos corpos.

“As necropsias estão sendo realizadas de modo minimamente invasivo, com a realização de minucioso exame externo do cadáver, seguido da realização de tomografia computadorizada e coleta de amostras biológicas através de punção percutânea”, detalha a diretora do IML, Márcia dos Reis, ao Metrópoles.

A diretora elencou que foram adotadas novas rotinas de limpeza e higienização de rabecões e outras viaturas, além da reorganização de setores visando evitar aglomerações do público.  Metodologias de trabalho também foram modificadas, tais como o adiamento de alguns exames não urgentes, desde que não causem prejuízos a inquéritos policiais e processos judiciais.

Quanto à proteção individual dos servidores, a corporação disponibilizou luvas, máscaras cirúrgicas e N95, gorros, macacão impermeável, capotes descartáveis, propés e óculos de proteção individual.

“Houve um cuidado maior nos procedimentos de paramentação e desparamentação dos servidores, assim como reforço nas orientações quanto à sua utilização. Foram disponibilizadas máscaras com maior nível de proteção biológica para o atendimento de pessoas vivas”, ressalta Márcia dos Reis.

Trabalho não pode parar

O IML exerce uma atividade essencial para a população do Distrito Federal. O trabalho técnico permite a produção de provas periciais determinantes em investigações e processos judiciais. Além disso, possui função social importante no processo de identificação de desaparecidos e desconhecidos por meio da Seção de Antropologia Forense, permitindo que as famílias possam sepultar os entes queridos.

Em meio à pandemia, os especialistas do IML estão na linha de frente. Quando a batalha pela vida é perdida, esses profissionais entram em campo.

Médico legista há 11 anos, Fábio França, 46, relata que é preciso ficar sempre em estado de alerta. “A percepção de que algo grande e perigoso vem se aproximando cada dia gera um estado constante de vigilância, exigindo maior controle mental e emocional”, analisa.

Por conviver com idosos, Fábio precisou sair de casa. Atualmente, vive isolado em um outro apartamento.  “Creio que é um tempo em que se aprende a valorizar ainda mais o que de fato é prioridade, como a saúde, a solidariedade, o convívio com os que lhe são afetos. E, claro, a vida em si. A própria e a dos demais”, ressaltou.

“Hoje, como médico legista, talvez o principal desafio seja manter a saúde física e mental para que possamos continuar a prestar um bom serviço à população. Atuamos com famílias enlutadas, passando por momentos duros, de perda e desesperança”, lembra o médico.

“Sabemos que em momentos de dor como esses, pequenos gestos e a entrega de um trabalho com eficiência são pequenas ações que, se não a amenizam, pelo menos demonstram respeito e evitam maior sofrimento”, explica França.

A diretora Márcia dos Reis também falou sobre os desafios da profissão, como conciliar vida pessoal, capacitação e produtividade. Segundo ela, manter o equilíbrio emocional é um dos principais objetivos, pois há preocupação com a própria saúde e dos familiares dos servidores.

“Lidamos com seres humanos em diversas situações desfavoráveis, em níveis de sofrimento diversos, decorrentes de agressões, acidentes e perda de entes queridos. Também temos uma categoria de servidores envolvidos: os técnicos em anatomia, que sofrem elevada carga emocional para suportar, pois lidam diretamente com remoção, necropsia e entrega de corpos aos familiares”, conta.

“Há também, do ponto de vista gerencial, o desafio de garantir os recursos humanos e logísticos necessários ao bom desempenho pericial. Nesse aspecto, os esforços institucionais são muito intensos na PCDF”, completa.

Menos necropsias na pandemia

As necropsias diminuíram durante a pandemia. De acordo com a diretora do IML, a redução é significativa e resultado do isolamento social. Márcia dos Reis afirma que, na primeira semana de maio, foram realizados, em média, 70 exames diários.

Todos os corpos são submetidos ao processo de identificação biométrica pelos papiloscopistas policiais. É feita a coleta de material biológico para futuro confronto genético pelos peritos médico-legistas.

Quanto ao reconhecimento pelos familiares, o IML fornece aos parentes dados pessoais, fotos e informações que constam no laudo do Instituto de Identificação (II). Também é utilizada a imagem do rosto da vítima, registrada pelo perito médico legista.

A PCDF se prepara para expandir os trabalhos. Está em andamento o projeto destinado à construção de um novo prédio do IML, tendo em vista o crescimento populacional nos últimos 50 anos. E agora devido à necessidade de instalações adequadas à nova realidade imposta pela pandemia do coronavírus.

Foram afastados do trabalho presencial, até o momento, 14  servidores que pertencem ao grupo de risco ou apresentam alguma particularidade em relação à Covid-19. Desses, a maioria está em teletrabalho. O afastamento presencial é, a princípio, por tempo indeterminado, mas reavaliações periódicas são realizadas.

 

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