Coronavírus: após nascimento de Davi, família vive amor e preconceito no DF

Mãe está com Covid-19 e diz que, graças ao trabalho dos médicos e à fé, menino nasceu saudável no Hran. Porém, sofre com a intolerância

atualizado 12/05/2020 16:08

Bebe usando mascara no HranMATERIAL CEDIDO AO METRÓPOLES

Por milagre de Deus e competência dos profissionais da rede de saúde pública, Davi Miguel (foto em destaque) nasceu bem e livre do novo coronavírus. Essa é a opinião da mãe do pequeno, Mariane Silva, 28 anos. Ela contraiu a Covid-19 no Distrito Federal e enfrentou gravidez de alto risco. O fim da história é feliz. Ou quase.

Mãe e filho voltaram para a casa onde vivem, em Planaltina. Mas estão separados. Mariane tem a Covid-19. Por isso, ainda não beijou o pequeno. E o pior: a família tem sido alvo de preconceito e gozações de vizinhos.

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Mariane desenvolveu diabetes gestacional e pressão alta antes do diagnóstico da Covid-19. “Tive muito medo. Medo da doença evoluir. Medo de morrer. Medo de não ver mais minhas crianças. Medo de meu filho nascer doente”, desabafou a mãe de três filhos.

A apreensão perdeu força graças ao trabalho das equipes médicas. Mariane não economiza agradecimentos à equipe do Hran, ao doutor Fernando Cerqueira, da Unidade Básica (USB) de Planaltina, e à doutora Ediane, da Policlínica de Planaltina.

Mariane também é mãe de Pedro, 3 anos, e Nicolly, 5. “Foi o amor de Deus e a forma como a equipe fez o parto. Meu filho nasceu perfeito e livre do coronavírus. E ainda sou do grupo de risco. Nós somos um milagre”, sorriu.

A equipe do Hran realizou uma cesárea diferente justamente para preservar a saúde do menino. O parto ocorreu em 7 de maio. Segundo Mariane, o atendimento proporcionado pelos profissionais antes do parto foi marcado por muito atenção, respeito e cuidado.

À espera do primeiro beijo

Mariane não sofreu complicações graves pela Covid-19. Vivenciou apenas perda do olfato e paladar. Caminha para a recuperação dentro dos próximos dias. Em momento algum, ela garante, tratou a doença com menosprezo. Por isso, cumpre o isolamento em um quarto da casa.

“Eu estou sofrendo, toda costurada. Não posso dar um beijo no meu marido nem nos meus filhos. Isso está me doendo”, desabafou. Com máscara, Mariane amamenta Davi rapidamente, sem poder viver o aconchego do pequeno.

Mariane recebe comida pela janela. Quando precisa usar o banheiro, passa uma mensagem de WhatsApp para o marido. Ele retira as crianças da cozinha e, depois, ela higieniza o local com álcool para não contaminar os parentes.

Doloroso preconceito

Limpar o banheiro dói. Afinal, Mariane é recém-operada. Ela também organiza o quarto. Ninguém pode ajudar. “A barra é dolorosa. É o triplo do trabalho. Mas sabe o que dói mais? A falta de respeito das pessoas”, chorou.

Desde o diagnóstico, pessoas da vizinhança começaram a brincar com o drama da família. “Criticam, colocam a gente para baixo. Fazem piadinha. Alguns têm nojo de pegar dinheiro da nossa mão. Nos apelidaram de ‘Família Covid'”, lamentou.

Para Mariane, este deveria ser um momento de união. “Em vez de unir, nos tratam como lixo. O preconceito e a falta de respeito com o próximo estão fazendo o problema do coronavírus ser ainda maior”, alertou.

Por outro lado, Mariane e a família também são acolhidos por familiares e vizinhos de lote, superando o preconceito com força e união. E o sorriso de Davi também anima a expectativa por dias melhores, mais leves, mais humanos.

“Rezo todos os dias para esse vírus passar. Davi é um exemplo de esperança para todos que estão enfrentando esse problema. Ele vai escolher o futuro dele. Mas, se for médico, vou ficar muito feliz, pois ele vai estar salvando outras vidas”, pontuou.

Mariane carrega também a certeza de que o isolamento social ainda é a melhor estratégia contra a doença. “Quanto mais gente for contaminada, mais sobrecarregados vão ficar os hospitais. E esse vírus é estranho: em cada corpo age de um jeito”, ensina.

 

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