Conheça a história de Iago, o “babá perfeito” de duas crianças
Aos 20 anos, o rapaz ajuda a cuidar diariamente dos filhos de Mariana e Alexandre, e já é considerado membro da família
atualizado
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A jornalista Mariana Caminha, 38 anos, e o economista Alexandre Campos, 45, são pais de dois meninos: Fabrício, 7, e Santiago, 4. O casal mora na Asa Norte e enfrentou as dificuldades comuns de quem precisa passar o dia trabalhando: encontrar alguém de confiança para cuidar dos filhos. O desafio da família foi ainda maior porque precisavam de uma pessoa qualificada, tendo em vista que a criança mais velha tem um grau leve de autismo.
“Foram várias tentativas frustradas com babás”, relata a mãe. “Todas eram ótimas, mas acabavam tendo de sair por um motivo ou outro.” A solução para o problema de longa data surgiu de uma forma inusitada, quando, há dois meses, Mariana visitou o salão de uma amiga. Foi lá que ela conheceu o afilhado da comerciante: Iago de Oliveira, de 20 anos.
O jovem morava no Piauí e veio para Brasília no começo do ano em busca de melhores condições de estudo. Começou trabalhando numa loja de equipamentos industriais, mas não estava satisfeito com o emprego. Mariana o viu em algumas ocasiões e observou que tinha jeito com crianças. Um dia, ela fez a proposta inesperada: convidou o rapaz para ser babá de seus filhos.
Para nós, nunca foi uma questão de gênero. O que importa é o amor pelo que se faz e o caráter. Queremos exemplos de pessoas sem medo de mostrar quem são e que lutam por seus sonhos
Mariana, mãe dos meninos
A experiência prévia de Iago com crianças, conforme ele mesmo lembra, se limitava ao cuidado dos filhos dos primos, na sua terra natal. Ele teve medo de afetar a relação de Mariana com sua madrinha, caso o serviço não desse certo. “Mas aconteceram várias coisas na mesma semana. Liguei e perguntei quando poderia começar, e ela já queria que fosse naquele dia”, recorda.
As tarefas do jovem incluem supervisionar os dois e acompanhá-los nas atividades, na terapia e participar na educação. Seu expediente se estende do começo da tarde até a noite e, quando precisa, dorme na casa da família. “Quando chegou aqui, foi inédito: já tinha pesquisado muita coisa sobre autismo. Ele foi o primeiro a quem não precisei introduzir a questão dos cuidados especiais”, destaca Mariana.
Com o tempo, o piauiense conquistou de vez a confiança do casal. Segundo o pai dos meninos, Iago consegue disciplinar as crianças e ser afetuoso ao mesmo tempo. “O resultado disso? Duas crianças com rotina mais estruturada e muito felizes com o novo membro da família”, avalia Alexandre.
Mariana declara que a vida se tornou muito mais sossegada depois da contratação. Ela diz que nunca deixou de cumprir o seu papel de mãe ou de participar ativamente na educação dos pequenos, mas a ajuda permite mais momentos de tranquilidade e facilita a vida profissional.
A jornalista descreve Iago como “o babá perfeito”. Com talento para o cuidado infantil, a mãe revela que ele é amado pelos meninos. No momento, o rapaz está recebendo orientações da terapeuta das crianças para que possa lidar ainda melhor com o autismo do primogênito.
“Eles são muito carinhosos. Quando chego em casa, já me cumprimentam com ‘te amo, tio Iago'”, conta o cuidador. “Hoje em dia, não me imagino sem eles.”
Luciana Tani, psicóloga dos garotos, explica que o ideal é que todos os envolvidos sejam capacitados. “O Iago fica muito tempo com o Fabrício e o auxilia, então o oriento em alguns pontos. Ele é muito esforçado, esperto e de boa vontade, então está se saindo muito bem.”
https://youtu.be/nLl2wHYmk50
Além do emprego, a família dá suporte para que Iago siga os estudos. Ele finalizou um curso de fotografia recentemente e pretende cursar uma faculdade. Conforme conta Mariana, o grande diferencial dele é a vontade de aprender. “Agora, não consigo imaginar uma rotina sem ele”, diz a jornalista.
Apesar de ser um homem na função de babá, Iago afirma nunca ter tido medo de ser alvo de preconceito. “Só tive receio de que o trabalho não desse certo, mas, mesmo assim, aceitei”, revela.
Segundo Mariana, no início, os amigos acharam a situação estranha, mas já mudaram de ideia. “Hoje em dia, eles gostariam de ter o Iago trabalhando com eles”, diz. “Essa postura desbravadora de assumir um papel tão incomum também nos conquistou. São pessoas como ele que queremos por perto, como exemplo para nossos filhos”, completa Alexandre.
Receio
A médica Kelly Vitalino, 37 anos, conta que já teve problemas com as mulheres que contratou para cuidar de seus dois filhos, como falta de responsabilidade e uso de drogas. Atualmente, quem fica na sua casa é alguém de referência. “Meus horários são uma bagunça e não tenho familiares para quem pedir ajuda”, explica. Questionada se contrataria um homem para o cuidado das crianças, ela diz que o faria desde que confiasse na idoneidade do profissional.
Cecília Lima, 41, também é médica e deixa os filhos – uma menina de 4 anos e um menino de 6 – com a mesma babá há 3 anos. Ela diz que deu autoridade para a funcionária educar e colocar as crianças de castigo quando necessário. No entanto, ela compartilha o receio da colega por temer pela filha. “Se for alguém de confiança, não tem problema. Se não, é complicado.”
Mãe de um garoto de 8 anos, a advogada Gracemerce Jatobá, 40, sempre trabalhou com pessoas que conhecia ou com quem tinha alguma indicação. “Homem ou mulher, precisa de referência. Não é só procurar na internet”, recomenda.
Babás na educação
De acordo com a psicóloga Geane Santos, muitas vezes os prestadores de serviço acabam sabendo mais sobre as crianças com quem passam os dias do que a própria família. Em casos em que a realidade da casa faz com que a presença de uma cuidadora seja necessária, esta inevitavelmente participa do processo de educação. No entanto, a especialista diz não ver a questão de gênero como um problema. “Ele irá desempenhar um papel masculino, que é tão importante quanto o feminino.”
A psicopedagoga Luciene Oliveira diz que as situações variam de acordo com a necessidade e situação de cada família, mas não há motivo para falar em preconceito quando o assunto é a contratação de babá. “Nos casos de meninos, uma figura masculina entenderia melhor os gostos pessoais e interesses deles. Se assemelha a quando as pessoas estão doentes e precisam de cuidadores. Mais do que tudo, é uma questão de estar à vontade”, avalia Luciene.















