Com salários atrasados, professores se recusam a dar aula no Alub

Alunos chegaram a ir para a aula, mas foram dispensados na unidade da 913 Norte. Alguns pularam o muro antes de os pais chegarem

Allane Moraes/Especial para o MetrópolesAllane Moraes/Especial para o Metrópoles

atualizado 07/08/2019 13:00

Alunos do Colégio Alub da 913 Norte ficaram sem aula na manhã desta terça-feira (06/08/2019) por falta de professores. Os docentes reclamam que estão sem receber salários e se recusaram a trabalhar. Os estudantes só puderam sair com autorização da escola, então foram levados à quadra do colégio para esperar os pais irem buscá-los. Alguns pularam a cerca da escola para sair da instituição.

“Já estávamos sem aula de sociologia e redação desde semana passada. Hoje (terça), ficamos sem aula, porque os professores se recusaram a entrar na escola, pois estão há meses sem receber. E alguns funcionários já se demitiram, como a psicóloga e a coordenadora”, ressaltou uma estudante.

Uma mãe que foi buscar as filhas se mostrou irritada com a situação. “Elas me ligaram porque estavam sem aula. Meu medo é que percam o ano. Elas já estão no último do ensino médio”, destacou. Outra disse que a crise no colégio preocupa. “O problema é mais no ensino médio. O  fundamental parece que não está sendo muito afetado. Mas a própria estrutura da escola já vem apresentando problemas. Tiraram o ar-condicionado, estão sem professores, daqui a pouco não vai ter nem água e luz”, pontuou.

Uma professora, que preferiu não se identificar, confirmou que o pagamento dos salários de maio e junho está atrasado. “Paramos na unidade da 913 Norte para ver se damos um choque de realidade. Mas a ideia é fazer o movimento em outros colégios da rede também”, disse.

Mãe de um aluno, uma servidora pública diz ter sido pega de surpresa. “Tinha acabado de comprar um monte de uniformes, gastei uma fortuna e nem me avisaram nada. Meu filho tem síndrome de Asperger, a adaptação para ele é muito difícil. Aí tem esses boatos que a escola vai fechar? Como que eles não avisam nada, o que vou fazer?”, questionou. Conta ainda que, na semana passada, teve que mandar Uber três vezes para buscar o filho na escola, pois ele estava sem aula. Explica que não pôde ir porque tinha acabado de realizar um procedimento cirúrgico.

O diretor jurídico do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino no DF (Sinproep), Rodrigo de Paula, confirma que a paralisação é resultado do atraso de salários. “Eles só voltam quando o pagamento cair na conta”, afirma. De acordo com Rodrigo, outras unidades podem parar. “O sindicato enviará uma nota aos pais pedindo compreensão e o apoio deles. Afinal, pagam mensalidade e esse salário precisa sair. ”

O diretor diz que a situação no Alub está crítica há algum tempo. Com os salários dos funcionários atrasados, a entidade entrou com ação no Ministério Público do Trabalho (MPT) contra o colégio. A ata da audiência pública realizada em 11 de julho revela que o Alub estaria endividado com o Banco Bradesco e os salários dos meses de maio e junho deste ano estariam atrasados, além do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), não recolhido desde setembro do ano passado.

Uma das medidas tomadas foi o bloqueio imediato de uma quantia de R$ 2,7 milhões, que corresponde aos salários atrasados de maio e junho, para garantir o pagamento aos 523 funcionários. Segundo Rodrigo, havia um acordo para um parcelamento do FGTS. O diretor afirma que ele não foi cumprido.

O diretor do sindicato conta que 50 professores foram demitidos em dezembro do ano passado e que atualmente também há prejuízo aos alunos. “São cerca de 4 mil alunos no Alub e essa situação com o Ministério Público vem se arrastando desde o começo do ano. Mas faz tempo que a situação está grave”, afirma. Ele comenta, ainda, que a crise financeira afeta a instituição desde que o dono, Arthur Mário Pinheiro Machado, foi preso em um dos desdobramentos da Operação Lava jato.

Professores, que preferiram não se identificar, manifestaram-se após deixar o colégio em dezembro do ano passado. Entre eles, alguns já receberam o ressarcimento total da instituição, enquanto outros ainda esperam para receber o FGTS, parcelado em cinco vezes pela empresa.

“Estamos esperando uma resposta da instituição. Foram feitas várias audiências, mas nada resolvido. O acordo do parcelamento do FGTS foi descumprido. Para mim, ainda falta a última parcela, que era para ter sido paga em maio e, como não passaram nenhum demonstrativo, nem tenho ideia do quanto falta eu receber”, afirma uma das professoras, que trabalhou na instituição entre 2017 e 2018.

Um dos funcionários diz nem mais ter o esperança de ver o valor devido em sua conta. Desempregado desde de a demissão em dezembro de 2018, ele afirma que houve atraso nos salários durante os nove meses em que trabalhou na empresa.”Faltam mais de R$ 2 mil para receber e a corrida para achar emprego está muito difícil. Estou completamente falido”, lamenta.

Em nota, o Alub disse que está com índice de inadimplência alto, na casa dos 30%, o que compromete a saúde financeira da instituição. “A gestão vem trabalhando arduamente para reverter o quadro com soluções que serão implantadas nos próximos meses, entre elas o pedido de parcelamento do FGTS. Mesmo com toda dificuldade atual, o Alub continua com um dos melhores resultados em número de aprovados em vestibular e com uma educação de ponta. São mais de 644 aprovados no Sisu, 33 aprovados em medicina em 2019 e sete prêmios de reconhecimento, entre eles o Top of Mind.”

Sobre o fato de não ter tido aula nesta terça, o colégio ainda não se manifestou. A informação é de que haverá reunião de pais com o vice-diretor nesta quarta-feira (07/08/2019), às 14h30. Na ocasião, será definido o que fazer sobre a situação.

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