Com alta busca por teste de Covid, médicos alertam para falso negativo

Segundo especialistas, resultados incorretos, gerados principalmente por testes rápidos, têm levado a uma subnotificação de casos. Entenda

atualizado 15/03/2021 10:23

teste drive-thru coronavírusRafaela Felicciano/Metrópoles

Neste mês de março, o Distrito Federal completou um ano desde a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus. Hoje, a capital soma mais de 310 mil infectados, e a quantidade de testes de Covid-19 realizados aumenta, à medida que os casos da doença seguem em alta.

No pior momento da pandemia, Brasília viu a procura pelos exames disparar. Empresas da iniciativa privada que promovem análises clínicas registraram aumento, na primeira semana de março, de 233,3% na média diária de amostras a fim de detectar o novo coronavírus.

Segundo levantamento do Sindicato dos Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas do DF (Sindilab), a média de testes feitos diariamente era de 1,5 mil, até 25 de fevereiro. Em sete dias, o número cresceu e chegou a 5 mil.

Especialmente diante deste cenário, é necessário ter ainda mais atenção ao tipo de teste a ser realizado, para evitar resultados incorretos. Segundo a médica Heloísa Ravagnani, presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, os exames identificam a infecção no organismo de diferentes formas, por meio do vírus ou dos anticorpos.

“Tem o RT-PCR, que é o padrão-ouro, aquele feito com o cotonete no nariz. Ele identifica o vírus”, aponta. “Há o teste de antígeno, que também procura o vírus mediante amostra retirada do nariz, mas que tem uma sensibilidade menor – o resultado sai em 30 minutos. E há, por fim, os exames sorológicos, que são os testes rápidos, os quais detectam anticorpos no sangue”, descreve a infectologista.

Diferentemente do RT-PCR, a sorologia verifica a resposta imunológica do corpo em relação ao vírus. Os testes avaliam a presença de dois tipos de anticorpos diferentes, IgG e IgM.

“O IgM é o anticorpo, uma defesa que é produzida de forma rápida pelo corpo assim que tem contato com o vírus. Indica infecção recente. Já o IgG é um anticorpo que fica mais tempo no organismo, demora mais para ser produzido, mas fica mais tempo. Indica que a pessoa já teve contato anterior com o vírus”, explica Heloísa.

Já dentre estes testes imunológicos que identificam a presença de anticorpos no sangue, o médico patologista Wilson Shcolnik, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica, diferencia dois tipos:

1) Os qualitativos, que apenas mostram se está positivo ou negativo.

2) Os quantitativos, que apontam o resultado e também a quantidade de anticorpos.

O primeiro tipo é o conhecido teste rápido. Feito a partir da amostra de uma gota de sangue coletada no dedo do paciente, esse exame detecta a presença de anticorpos que o organismo produz contra o coronavírus. Aconselha-se a realização deste procedimento a partir do oitavo dia do início dos sintomas. O resultado fica pronto em até 30 minutos.

O segundo teste coleta o sangue na veia. Geralmente é feito em laboratórios e apresenta resultados mais completos, que saem em até quatro horas.

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Teste rápido

Wilson alerta que, para apresentar um resultado correto, o teste rápido precisa ser feito em condições específicas. “Quando uma pessoa tem contato com alguém que está com Covid-19, ela demora alguns dias para começar a ter sintomas”, diz.

“Uma coisa que acontece paralelamente é a produção de anticorpos. Depois que a pessoa é infectada, ela começa a produzir anticorpos, mas varia de pessoa para pessoa. Tem gente que o organismo demora um pouco mais para responder, então a produção é um pouco depois”, explica.

Dessa forma, uma vez que o teste rápido identifica a resposta imunológica do corpo e ela pode demorar alguns dias para aparecer, é necessário esperar ao menos oito dias após o início dos sintomas para realizar este tipo de exame. “Caso contrário, vai ter um falso resultado negativo”, alerta Wilson.

Outro ponto que pode provocar um resultado equivocado é a qualidade dos testes. “Com essa onda que a gente percebeu de realização de teste rápido em qualquer lugar, na farmácia, em posto de gasolina […], o que aconteceu é que certamente não se tomou esse cuidado de usar o controle de qualidade”, comenta o médico.

“O que a gente recomenda é que os exames sejam feitos em laboratórios, com pessoal capacitado, treinado e que utiliza controle de qualidade para saber se os kits estão funcionando de forma adequada e, assim, evitar esses resultados falsos”, ressalta.

Falso resultado negativo

O recebimento de resultado errado foi o que aconteceu com o jornalista Saulo Araújo, 36 anos. Ele, a namorada, Thaís Mota, 27, e seu filho, de 8, começaram a apresentar sintomas no último dia 3. No dia seguinte, os três pagaram, no total, R$ 240 para fazer o exame de teste rápido num drive-thru de um laboratório particular instalado no Conjunto Nacional.

“Eu já estava sem paladar e olfato há 24 horas e, no dia do teste rápido, comecei a sentir dor de cabeça. O resultado saiu em 40 minutos e deu negativo para nós três”, conta.

O jornalista relata que os sintomas ficaram mais intensos, desta vez associados a febre e prostração, e motivaram a ida ao hospital. O médico pediu o PCR, que atestou coronavírus para Saulo, Thaís e a criança.

“O que mais assusta é que esses testes que dão falso negativo nos passam uma falsa sensação de tranquilidade. Imagina quantas pessoas não contaminam outras por acharem que não estão com coronavírus?”, questiona Saulo.

Confira, abaixo, os dois resultados dos exames, feitos com menos de 48 horas de intervalo:

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Subnotificação

De acordo com o patologista Wilson, a consequência dos resultados errados é uma subnotificação de casos de Covid-19. “Aquele resultado que obrigatoriamente deveria ser transmitido para o Ministério da Saúde como positivo é dado como falso. Então, com certeza a gente tem mais casos do que os números mostram.”

Conforme avalia a infectologista Heloísa, ainda hoje existe pouco conhecimento na sociedade quanto ao uso correto do teste rápido. Segundo a médica, o exame não deve ser feito para a pessoa conferir se está com a doença e, em caso de resposta negativa, deixar o isolamento.

“As pessoas não podem usá-lo para excluir uma infecção e se autorizar a ter contato com pessoas de risco, porque ele só positiva lá no décimo dia de sintomas. Não é um exame para fazer para tirar a pessoa do isolamento, para ir ver avô, avó…” , enfatiza.

A Secretaria de Saúde do DF frisa que somente laboratórios clínicos e estabelecimentos de saúde que tenham vínculo com laboratório clínico licenciado e drogarias devidamente autorizadas pela Vigilância Sanitária podem realizar os testes rápidos para diagnóstico do novo coronavírus. Em caso de ponto de testagem clandestino, a denúncia pode ser feita pelo 162.

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