Cena desfeita: boate onde jovem morreu após briga com PM foi limpa

Delegada da 6ª DP vai investigar o motivo pelo qual o lugar foi alterado e ouvir mais testemunhas. O caso tem versões conflitantes

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atualizado 28/06/2019 14:53

A Polícia Civil ainda vai ouvir mais testemunhas sobre o assassinato de Ithallo Matias Gomes, 20 anos. O crime ocorreu após um briga generalizada envolvendo o segundo-sargento da PMDF Carlos Eduardo Lopes Vidal, em uma boate do Itapoã, na madrugada desta sexta-feira (28/06/2019). De acordo com a delegada-chefe da 6ª DP (Paranoá), Jane Klébia, as versões são conflitantes. A investigadora ressalta ainda que o lugar onde aconteceu o episódio passou por limpeza.

“As investigações estão muito no início. O PM relatou que foi vítima de roubo, reagiu, disparou contra a vítima, que foi levada ao hospital. Começamos a diligenciar para saber o que de fato havia ocorrido. Fomos ao estabelecimento e estava tudo fechado. Isso é muito preocupante. Desfizeram o local do crime. Tudo foi limpo e não tinha vestígios. Precisamos investigar o motivo dessa conduta”, frisou a delegada.

Jane Klébia informou que as testemunhas serão ouvidas na tarde desta sexta-feira (28/06/2019). Os agentes da 6ª DP conseguiram contato com uma mulher que teria sido o pivô da situação. “Ela se apresentou como ex-namorada do policial e disse que, quando o PM chegou ao local, foi ao encontro dela. Como ela estava acompanhada de outras pessoas que não sabiam do envolvimento dos dois, imaginaram que seria um homem importunando a garota. Nesse momento, eles reagiram e entraram em uma briga generalizada”, relatou a investigadora.

O sargento se apresentou espontaneamente. Foi ouvido e teve a arma apreendida. Argumentou, na ocasião, que reagiu à tentativa de roubo. No entanto, a testemunha-chave do caso, que teria tido envolvimento com o policial, afirma que um mal-entendido teria resultado na confusão. Segundo a jovem, o policial recebeu um soco no rosto, oportunidade em que reagiu dando um tiro que teria acertado Ithallo.

“Vamos ter de confrontar as versões e ouvir outras pessoas para que realmente os fatos se esclareçam, conforme ocorreu. Vamos avaliar, e se confirmar a versão do homicídio, o policial responderá pelo crime”, assinalou a delegada Jane Klébia.

Logo após levar um tiro, Ithallo Matias Gomes deu entrada no Hospital Regional do Paranoá, mas não resistiu aos ferimentos. O rapaz trabalhava como mecânico e pintor e não tinha passagens pela polícia. Uma jovem que compareceu à delegacia disse que a vítima morava de favor na casa dela, na Quadra 1 do Condomínio Entre Lagos.

O local onde aconteceu o crime fica em cima da loja Rocca. Na porta, há uma inscrição intitulada “Secret”. O proprietário da casa noturna confirmou o episódio, inclusive sobre o disparo de arma de fogo. Ressaltou ainda ter pedido para que levassem a vítima a uma unidade de saúde.

 

Versão do PM

Na delegacia, o PM contou que é lotado no 20º Batalhão da PMDF, no Gama, há três meses. Afirmou ainda que chegou sozinho ao estabelecimento, por volta das 21h de quinta-feira (27/06/2019), e permaneceu na boate até a 1h de sexta. Nesse período, segundo relatou, fez uso de bebida alcoólica, mas de forma moderada.

Informou ainda que se preparava para ir embora quando um homem se aproximou e teria tentado roubar sua arma, que estava na cintura. Ele reagiu e segurou a mão do rapaz. Aos policiais, garantiu que o jovem teria conseguido pegar a pistola dele. Enquanto ambos puxavam a arma, ela teria disparado, contou o integrante da Polícia Militar.

O segundo-sargento disse que não tem certeza de quem acionou o gatilho. Houve pânico e gritaria na casa noturna. Em seguida, o policial foi  para a 6ª DP a fim de comunicar o fato. Acrescentou que, até a chegada à delegacia, não sabia se Ithallo havia sido atingido.

Versão da testemunha-chave

Apontada pela polícia como testemunha-chave, uma mulher contou na DP que chegou à casa noturna com uns amigos. Em seguida, Carlos Eduardo teria aparecido na boate com dois colegas. Ao se aproximar para cumprimentá-la, os rapazes que estavam com ela acharam que o PM “estava dando em cima” da mulher. Iniciou-se uma confusão entre eles, com empurrões e puxões de camisetas por parte de ambos os grupos.

Um dos rapazes teria dado um soco no rosto de Carlos Eduardo, derrubando os óculos de grau do PM. Em seguida, houve confusão generalizada no estabelecimento. De acordo com a testemunha, o segundo-sargento avançou sobre o agressor e fez um disparo. A testemunha disse não ter visto no momento se o tiro havia acertado alguém. Pontuou que, logo depois da desavença, se deparou com a vítima, que estava ferida, encostada na parede, com sangue no pescoço. Porém, ela garante que não conhecia Ithallo e que ele não estava em seu grupo.

Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) destacou que, “de acordo com as apurações iniciais acerca da ocorrência que envolve o sargento Carlos Eduardo Lopes Vidal, tanto o policial como o proprietário do estabelecimento onde ocorreu o fato alegam que o indivíduo tentou roubar a arma do sargento, que agiu em legítima defesa”. “O policial não está preso. O fato está sendo investigado”, acrescentou a corporação.

Comerciantes da área onde aconteceu o episódio dizem que as festas na boate/bar ocorrem todos os dias da semana. “Regadas a drogas e sexo. A gente não tem paz. Quando chegamos para trabalhar pela manhã, as entradas dos comércios estão cheias de mijo. O cheiro é horrível”, disse um deles, que preferiu não se identificar.

Outra pessoa disse que testemunhou um funcionário da casa noturna colocando a vítima dentro do carro para levá-la ao hospital. “Por volta de 1h. Eles fazem isso para fugir do flagrante. Não ouvimos barulho de tiro, mas foi possível presenciar a confusão logo depois da ação. Algumas pessoas desceram gritando. A música estava muito alta. Eles acabam as festas aqui só por volta das 5h. É um pardieiro. Demorou muito para um crime ocorrer”, frisou.

Um morador da quadra tratou o caso como “tragédia anunciada”. “Faz um ano que isso funciona neste endereço. Já foram registradas outras ocorrências de tráfico e até mesmo de homicídio. Eles dizem que é bar e boate, mas sabemos que vai muito além. Pedimos a interdição do prédio para a Agefis (Agência de Fiscalização do DF), mas a empresa faz vista grossa”, destacou.

Recomendação do MPDFT

O mais recente caso reacende a polêmica sobre o uso de armas por agentes das forças de segurança local em momentos de lazer. Uma recomendação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) diz que, antes de entrarem em estabelecimentos armados, precisam assinar um termo de responsabilidade.

No documento expedido pelo Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial (NCAP), consta ainda a “expressa proibição do uso de bebida alcoólica nas casas de diversão pública e congêneres, quando tiverem a entrada franqueada em razão do serviço”. Além disso, em outra recomendação, o MP prevê regras mais duras para as chamadas “carteiradas” de servidores da PCDF.

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