Caso Naskar: pirâmides no Brasil movimentaram R$ 100 bilhões em 20 anos

Na esteira do Naskar, Metrópoles traz memória de alguns dos golpes financeiros que mais geraram repercussão à época em que foram descobertos

atualizado

metropoles.com

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Gabriel Lucas/Arte Metrópoles
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1 de 1 piramides2jpg - Foto: Gabriel Lucas/Arte Metrópoles

A paralisação das atividades da fintech Naskar Gestão de Ativos e o desaparecimento dos três sócios da empresa, que operava no Brasil há 13 anos, criou nos seus 3 mil clientes a sensação de que houve um golpe financeiro. Embora autoridades não confirmem devido ao estágio inicial das investigações, o caso remete a outras histórias de pirâmide financeira realizadas no país, dadas certas semelhanças.

Somados, os casos de pirâmide financeira mais emblemáticos registrados no Brasil nos últimos 20 anos movimentaram cerca de R$ 100 bilhões. Para se ter a dimensão da gravidade dos crimes, basta comparar com o orçamento anual do Governo do Distrito Federal (GDF), que, em 2026, tem R$ 74,4 bilhões disponíveis.

O Metrópoles traz uma memória de alguns dos golpes que mais geraram repercussão à época em que foram descobertos. Todas as histórias continham promessas de alto retorno e supostos clientes bem-sucedidos, entre outros pontos em comum.

Confira:

GAS Consultoria (2021): R$ 38 bilhões – a empresa GAS Consultoria e Tecnologia Ltda., do ex-garçom e ex-pastor Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó dos Bitcoins, foi acusada de operar ilegalmente no mercado de criptomoedas. A GAS prometia um retorno mensal de 10% sobre o valor investido, mas, segundo a Polícia Federal (PF), sequer reaplicava os valores dos clientes em criptomoedas.

Glaidson teria roubado ao menos R$ 38 bilhões em investimentos. Ele está preso desde agosto de 2021. Em 2025, a Justiça do Rio confirmou a falência da empresa, que ainda devia R$ 3,8 bilhões a mais de 62 mil clientes àquela altura.

Unick Forex (2019): R$ 28 bilhões – A Unick Forex, sediada em São Leopoldo (RS), se apresentava como uma empresa de investimentos que dava retornos financeiros rápidos aos investidores. Com o investimento inicial baixo, de R$ 90, a empresa fazia a promessa de lucros de até 33% ao mês sobre o valor investido e comissões de 10% para aqueles que indicassem novos clientes, o que criou uma estrutura típica de pirâmide financeira, segundo as investigações. Em 2019, a PF informou que a empresa deve cerca de R$ 12 bilhões aos clientes, segundo inquérito da Operação Lamanai. Ainda naquele ano, 10 pessoas foram presas.

Atlas Quantum (2019): R$ 7 bilhões – a Atlas Quantum se apresentava como empresa do mercado de criptomoedas e ganhou notoriedade após contratar famosos para protagonizar propagandas — o ator Cauã Reymond e a apresentadora Tatá Werneck participaram de ações da fintech. A Atlas, porém, deixou de pagar cerca de 200 mil pessoas no Brasil e em outros países, gerando prejuízo de R$ 7 bilhões. O criador, Rodrigo Marques dos Santos, chegou a ser investigado e multado em R$ 113 milhões.

Fazendas Reunidas Boi Gordo (anos 1990): R$ 6 bilhões – uma das maiores fraudes do mundo do agronegócio, a empresa Fazendas Reunidas Boi Gordo vendia cotas de investimento em fazendas de gado. O grupo prometia aos investidores a compra de arrobas de boi magro, que é a unidade de peso utilizada para medir a massa dos bovinos, e engordar o animal nos meses seguintes com a garantia de retorno sobre o peso inicial.

A empresa contratou garotos-propaganda como Antonio Fagundes, Marisa Orth e Benedito Ruy Barbosa. O principal slogan era “Quem tem cabeça, investe com gado”, o que conquistou telespectadores à época. A realidade, porém, era diferente: ao invés do pagamento vir do lucro da engorda dos bois, vinha da entrada de novos investidores. O prejuízo estimado passou de R$ 2,5 bilhões e, em 2024, era calculado em R$ 6 bilhões.

Telexfree (2013): R$ 3 bilhões – a empresa Ympactus Comercial Ltda. ME, conhecida pelo nome fantasia Telexfree, se descrevia como marketing multinível. Foi fundada em 2010 pelo norte-americano James Merrill, que atuava como presidente, e o brasileiro Carlos Wanzeler. Chegou ao Brasil em 2012, com venda de serviços de telefonia por internet, prometendo ganhos altos às pessoas captadas, que eram chamadas de “divulgadoras”. Logo, as autoridades apontaram a suspeita de prática de pirâmide financeira, com “investimentos” estimulados por meio do sistema. A Telexfree declarou falência em 2019 e os ativos bloqueados da empresa chegam a R$ 1 bilhão só no Brasil, com uma quantia ainda maior parada nos Estados Unidos.

Braiscompany (2023): R$ 1,5 bilhão  – A empresa Braiscompany, da Paraíba, movimentou R$ 1,5 bilhão em criptoativos em contas vinculadas aos sócios, que respondem por crimes contra o sistema financeiro nacional e lavagem de dinheiro. O dono, Antônio Neto Ais, tentava se passar como amigo de jogadores famosos, exibindo fotos com estrelas como Romário, Deco, Denílson, Cafu e até o argentino Lionel Messi. Ele e a esposa foram presos em 2024.

Avestruz Master (1998): R$ 1 bilhão – antes mesmo da era das criptomoedas e da popularidade de termos como “fintech” e “bitcoin”, um golpe financeiro enganava cerca de 50 mil pessoas em um esquema semelhante ao do Boi Gordo, mas ainda mais inusitado: um esquema criado pela empresa Avestruz Master, sediada em Goiânia (GO), vendia filhotes de avestruz para abatê-los após certa idade e gerar lucro com a carne do animal.

O retorno prometido era de 11% ao mês. Durou sete anos, até que, em 2005, a pirâmide desmoronou. O Ministério Público Federal (MPF) interceptou a ação fraudulenta, e a empresa fechou as portas no mesmo ano. Três sócios da Avestruz Master foram condenados a seis anos de prisão, em 2019.

Destacam-se ainda outros casos, como Trust Investing (2021), Rental Coins (2021), Grupo Bitcoin Banco (2019) e BBom (2013).

PCDF investiga o Caso Naskar

O número de boletins de ocorrências registrados na Polícia Civil do DF (PCDF) disparou nos últimos dias, após a reportagem revelar o “sumiço” dos sócios da Naskar José Maurício Volpato, Marcelo Liranco Arantes e Rogério Vieira. De acordo com a última contagem, eram 30 BOs computados no sistema da corporação.

Embora ainda não haja evidências de crime financeiro confirmadas pelas autoridades, o Metrópoles apurou que a PCDF investiga o caso. Em um primeiro momento, não haverá centralização das ocorrências em uma só delegacia.


Entenda o Caso Naskar

  • Naskar Gestão de Ativos é uma fintech com 13 anos de atuação. A empresa operava captando recursos de clientes com promessa de  retorno de 2% ao mês, valor muito acima do operado pelo mercado;
  • Por exemplo: se uma pessoa investisse R$ 1 milhão, receberia R$ 20 mil mensais pagos pela fintech, enquanto a empresa se comprometeria a cuidar do patrimônio investido pelo cidadão;
  • Apesar de o valor prometido ser bem maior do que o praticado por bancos tradicionais, a Naskar atuou durante os 13 anos de existência sem que clientes tivessem problemas;
  • Até que, no início da última semana, o pagamento mensal de rendimentos, que era previsto para 4 de maio, não foi realizado;
  • Os clientes, então, buscaram contato com os sócios para entender o que estava ocorrendo, mas nenhum respondeu. Os empresários em questão são Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o ex-jogador de vôlei e apresentador de TV Maurício Jahu;
  • Sem contato com os sócios da Naskar, os investidores logo foram ao aplicativo da instituição para verificar se o patrimônio investido ainda estava ali. O app, porém, deixou de funcionar em 6 de maio e ainda não voltou ao ar;
  • A Naskar chegou a ter sede no DF e, mais recentemente, tinha endereço fixo em São Paulo (SP). Contudo, mudou-se desse local fixo sem informar os clientes, conforme noticiou o Metrópoles em 9/5.
  • Na manhã de quinta-feira (14/5), a Naskar anunciou que uma empresa norteamericana chamada Azara Capital teria comprado por R$ 1,2 bilhão a fintech brasileira. A tal Azara é quem supostamente ficará responsável por ressarcir os clientes, movimento este que ocorrerá a partir desta segunda-feira (18/5), segundo ambas as empresas.
  • A Azara Capital apresenta várias inconsistências: o site não informa nomes de presidente, diretores ou de qualquer pessoa; o endereço físico informado é de Miami, na Flórida, mas o Google Maps aponta a localização informada para o Ocean Bank, banco comercial independente; o perfil @azara.capital no Instagram foi criado há apenas três meses; entre outras questões.
  • Até o momento, os clientes da Naskar não obtiveram retornos concretos sobre quando (e se) receberão os valores de volta.

O outro lado

Em nota encaminhada na segunda-feira (11/5), a Naskar informou que entrou em contato com os clientes, conforme antecipou o Metrópoles no sábado (9/5).

“A Naskar informa que, neste momento, enviou os e-mails de circularização a toda a base de investidores. A próxima etapa é receber os documentos solicitados para entendimento da situação de cada um. Caso algum investidor não tenha recebido o e-mail, por favor, escreva para o endereço auditoria@sejanaskar.com.br”, diz a instituição, sem dar prazo de quando devolverá o dinheiro dos clientes.

 

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