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Edificada no vazio do cerrado, sob um pedaço de céu que parece pintado à mão, Brasília se ergue como um traço de sonho transformado em concreto. A construção e a consolidação da capital federal inspiraram empreendedores de todo país que encontraram na nova capital do país um espaço para crescer e empregar.
Pioneiros e vanguardistas, daqueles que chegaram sem nada, em 1960 ou antes, à capital federal, muitos despontaram e se destacaram em setores específicos, como o comércio.
A partir da necessidade de garantir insumos para construção da nova sede administrativa do país e promover bem-estar para a população que chegava, esses desbravadores sedimentaram seus espaços e a partir disso ajudaram a moldar não apenas a economia, mas também o desenho urbanístico de Brasília.
Muito além do que foi idealizado pelo urbanista Lucio Costa, o avanço do comércio acompanhou o crescimento da população e revelou uma cidade viva e adaptável que se expandiu conforme as demandas do dia a dia.
Com o passar dos anos, Brasília adquiriu uma característica peculiar e passou a abrigar áreas segmentadas de comércio, além dos setores já previstos no ordenamento arquitetônico — como o setor hospitalar e o setor hoteleiro — dando espaço a famosos logradouros. Entre eles, destaca-se a Rua das Farmácias (102 Sul), das Elétricas (109 Sul), das Noivas (304/305 Norte), dos Restaurantes (404/405 Sul) e Rua Japonesa (414/415 Sul).
Hoje, o setor do comércio, bens e serviços é a principal atividade econômica da capital federal e representa 95% do Produto Interno Bruto (PIB) do DF junto com as atividades públicas. São mais de 290 mil comércios ativos que empregam 931 mil pessoas, concentrando 87,7% dos postos de trabalho do DF, segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF).
“Brasília é uma cidade que nasceu planejada, mas que foi construída pelo trabalho de milhares de empreendedores e trabalhadores, e que hoje se afirma como um dos principais ecossistemas de serviços da região Centro-Oeste e do Brasil”, José Aparecido, presidente da Fecomércio-DF.

Construção e poder: Israel Pinheiro
“O projeto inicial de Brasília, era o desenho de uma ideia. Não era um projeto desenhado no papel, mas era uma ideia transposta para o papel”, afirmou José Alberto Barros, historiador e funcionário da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) desde 1976.
Para escolher a melhor forma de estruturar a nova capital do país, foi realizado um concurso público de arquitetura. Vencido por Lucio Costa, o projeto inicial passou por várias modificações durante a execução da obra e muitos anos depois.
O professor de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Flósculo Barreto afirma que o edital do projeto não tinha clareza com relação à população e outras necessidades da cidade e, por isso, deixou aberta a possibilidade de criações variadas.
“O edital foi muito generoso e cada candidato fez uma proporção de áreas de comércio, de área de serviço, até de áreas de governo diferentes. Cada um entendeu aquele enigma da nova capital do Brasil de uma maneira diferente”, explicou Flósculo.
O professor narra que, ao receber o projeto aprovado, Israel Pinheiro, então presidente da Novacap e responsável técnico pela construção da capital, determinou a ampliação de áreas destinadas ao comércio e expansão dos espaços em 30 vezes.
Ele destaca que o próprio conceito urbanístico permitiu mudanças ao longo do tempo. Diante da cidade linear proposta por Lúcio Costa, novos setores foram incorporados, o que contribuiu para o fortalecimento do comércio como elemento estruturador.
“A proposta de Lucio Costa era pequenina e ele exigiu de imediato, na primeira apresentação do projeto, que fossem criados muitos lotes comerciais. As faixas de comércio local resultantes são mais a cara do Israel Pinheiro, que do Lucio Costa”, frisou o professor.
Flósculo também destaca que a atuação sóbria de Israel Pinheiro para a realização do elegante projeto de Lucio Costa garantiu que a construção de Brasília se tornasse realidade.
“A construção de Brasília tinha razões de sustentabilidade muito fortes e o Israel Pinheiro era muito lúcido. Ele viabilizou a construção de Brasília, tanto é que estamos aqui há 66 anos. Brasília é um misto do trabalho criador de Lucio Costa e do trabalho operacional e executivo de Israel Pinheiro”, refletiu.
As divergências acerca do projeto da nova capital eram constantes, mas tinham o objetivo de aperfeiçoar a dinâmica da cidade e eram conduzidas de forma harmônica pela primeira diretoria da Novacap, composta por por Israel Pinheiro, Ernesto Silva, Bernardo Sayão e Íris Meimberg.
“É importante que a gente entenda que não era tudo paz e amor. Brasília foi construída dentro de um processo bastante rigoroso de contradições ideológicas, de contradições políticas e de oposições ferrenhas, mas um pouco mais civilizadas do que hoje”, disse.
A proposta do presidente Juscelino Kubitschek de transformar Brasília em símbolo da modernização do país também carregava um caráter simbólico. Em um mundo ainda impactado pelo período pós-Segunda Guerra Mundial, a nova capital surgia como um projeto de esperança.
“O governo francês dizia o seguinte: isso não é só uma capital moderna e futurista, ela é a capital da esperança porque o mundo estava cabisbaixo em decorrência de uma guerra absurda”, afirmou José.
“Com a ajuda de muitos pensadores do mundo inteiro, Brasília se concretizou e hoje é uma realidade que não tem mais como desmanchar”, considerou José Alberto,um dos mais antigos funcionários da Novacap.
Ritmo Brasília e a W3 Sul: o eixo que fez a cidade funcionar
“Israel Pinheiro sabia que se não fizesse uma cidade capaz de ser inaugurada no final do governo Juscelino jamais ela se realizaria. Ele foi um vetor dessa agilidade, duplicidade de horário, trabalho 24h. Criou-se uma coisa chamada ritmo de Brasília, que era diferente do ritmo brasileiro”, pontuou José Alberto.
A necessidade de concluir a cidade em quatro anos impôs um ritmo acelerado à construção, com jornadas contínuas e decisões voltadas à funcionalidade imediata. Nesse contexto, a implantação de comércio e serviços foi indispensável para garantir a permanência dos trabalhadores e dar suporte à vida cotidiana.
Convencer os novos moradores que a nova capital tinha condições de receber e promover qualidade de vida, mesmo durante a construção, se tornou imperioso.
O historiador José Alberto comenta que muitas pessoas estavam descrentes com as possibilidades da nova capital do Brasil quando o projeto foi iniciado. O fortalecimento do comércio ajudou a trazer os mais céticos e a W3 Sul passou a ser chamada de “maior shopping a céu aberto do Brasil”.
A via ganhou protagonismo como principal eixo de circulação e comércio, conectando áreas estratégicas como a Cidade Livre e o centro operacional da Novacap, na Candangolândia.
No entanto, o que inicialmente seria uma espécie de Estrada Parque, com concentração de postos de combustíveis e galpões operacionais, se transformou — através do uso real da cidade — e impactou na arquitetura para otimizar os acessos para a população.
A W3 Sul emergiu, então, como um dos principais eixos dessa dinâmica. Mais do que uma via de circulação, tornou-se um centro de comércio e serviços fundamental para atrair e fixar população em uma região ainda em formação.
“Tinha que ter um atrativo para que as pessoas pudessem ter o mínimo de conforto. O fato de se criar comércio e moradias era um atrativo para atender as necessidades básicas. Era o mínimo ter uma padaria, um açougue, uma loja de equipamentos, um telefone. Telefones naquela época eram casas onde se colocava um aparelho e as pessoas entravam para pedir ligações. E tudo isso foi centralizado na W3 e na 8 (Sul)”, contou.
Além dos serviços básicos, a falta de lazer também era um ponto de atenção. Por isso, cantores famosos eram constantemente convidados a fazer shows na capital federal e a W3 Sul se tornou o centro nervoso e cultural da construção de Brasília. “Naquela época tinha cinema e o prédio onde hoje fica o Espaço Renato Russo, era um teatro”, conta José Alberto.
Se, por um lado, o comércio respondeu às demandas imediatas da construção, por outro também evidenciou lacunas do planejamento original. O professor Frederico Flósculo explica que o projeto vencedor do concurso não previa com precisão o crescimento da cidade nem a complexidade das atividades econômicas.
Um exemplo disso foi a instalação de postos de combustíveis nas entrequadras residenciais e em outros espaços não previstos.
“No projeto original de Lucio Costa os postos seriam colocados na estrada parque que hoje é a W3, mas rapidamente os postos foram colocados próximos das superquadras nessas faixas dos eixos L e do eixo W e a multiplicação de postos obedeceu a várias etapas.”, observou Flósculo.
O historiador José Alberto diz que existem várias versões para o avanço dos postos de combustíveis pela cidade, mas uma das hipóteses mais aceitas é que foi uma exigência dos moradores das quadras, que em geral eram autoridades públicas.
Na prática, a expansão desses serviços acompanhou diretamente as demandas da população que chegava à capital. O empresário Antônio José Matias de Souza, pioneiro no setor de combustíveis, reafirma que a instalação de postos nem sempre seguiu o planejamento original.
“Esse posto está aqui [na Vila Planalto], mas aqui não era para ter esse posto porque aqui é um setor de clubes. Só que, pela necessidade da população, foi obrigado a abrir”, contou.
A trajetória de Antônio se confunde com os primeiros anos da cidade. Ele chegou a Brasília em 1958, ainda durante as obras, quando o uso de combustíveis era vital para manter os canteiros em funcionamento.
Inicialmente empregado em uma construtora, encontrou oportunidade no setor de combustíveis, começando a trabalhar em um dos primeiros postos da Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante.
“Lá realmente era a cidade que ajudava a construir Brasília porque lá era que vendia tudo […] qualquer coisa que você precisasse de indústria, de tudo, era no Núcleo Bandeirante”, contou.
Na época, o consumo de combustível era impulsionado principalmente por geradores que garantiam energia aos acampamentos das construtoras, em um cenário em que a infraestrutura ainda era limitada.
“O nosso posto era era um dos primeiros postos, mas era assim, se você comprasse um milhão de litros vendia no dia porque tinha cliente para comprar […] Nunca deixamos faltar combustível em Brasília”, explicou Antônio.
O empresário que chegou ainda jovem e sem nada a Brasília hoje é proprietário de uma rede com mais de 73 lojas.
“A gente começa a ter vários fenômenos de expansão comercial. Brasília, dentro das cidades brasileiras, é a que tem mais lote oficial criado por iniciativa do governo de comércio do Brasil. Nós temos muitos setores comerciais”, pontua o professor de Arquitetura da UnB.
Brasília setorizada
A dinâmica da Brasília planejada e projetada esbarrou nas necessidades da população e muito do que foi espontaneamente modificado. Aos poucos, segmentos econômicos começaram a se agrupar em áreas específicas.
Rua das Farmácias, Rua das Elétricas, Rua das Noivas, dos Restaurantes e Rua Japonesa são alguns dos exemplos de comércios que se agruparam. Sem contar os setores definidos no projeto inicial como os Setores Bancário e Hoteleiro.
“Esse desenho urbano favoreceu o surgimento de um ambiente de negócios dinâmico, que ao longo das décadas foi modernizando, sendo ocupado por empreendedores que ajudaram a construir a cidade. Muitos deles, inclusive, pioneiros que chegaram como pequenos comerciantes, e até mascates, e hoje fazem parte da nossa diretoria, tendo contribuído para a modernização e o fortalecimento do setor”, reflete José Aparecido, presidente da Fecomércio-DF.
Em 2024, as ruas temáticas da capital passaram a ter reconhecimento institucional por meio de uma lei distrital. A medida tem o objetivo de fortalecer a identidade e o comércio local, além de incentivar atividades relacionamentos que impulsionem a economia.
O movimento de agrupamento de setores não é inédito. Trata-se de um fenômeno bastante comum nas cidades e estudado dentro do urbanismo e da economia, conhecido como economias de aglomeração, conforme explica a arquiteta urbanista e Mestre em Desenvolvimento Urbano (UFPE) Carina Giovana Cipriano Carvalho.
“Esse fenômeno explica por que negócios do mesmo segmento tendem a se concentrar em uma mesma área: isso atrai mais público, facilita a comparação e fortalece o polo comercial”, detalha Carina.
Ela explana ainda que em Brasília esse padrão tem contornos singulares por causa do planejamento urbano de Lúcio Costa. “Brasília expressa uma rara integração entre planejamento, arquitetura e paisagem, com identidade visual única e escala monumental adequada ao papel de capital”, pontua a profissional.
“Por ser uma cidade relativamente jovem, essa lógica foi rapidamente incorporada e ampliada pelo mercado, criando pólos especializados de forma ainda mais evidente. Esse movimento gera ganhos claros de eficiência e atratividade econômica, mas também evidencia desafios, como a excessiva setorização, a dependência do automóvel e a dificuldade de promover maior diversidade e vitalidade no cotidiano urbano”, reflete a Mestre em Desenvolvimento Urbano.
A professora de Arquitetura do Centro Universitário de Brasília (CEUB) e especialista em urbanismo, Ana Carolina Drumond acrescenta que a segregação funcional estabelecida pelo projeto de Brasília é uma característica marcante. A “escala gregária” refere-se aos espaços de convivência e encontro. “A divisão em setores especializados reflete a visão modernista de otimização do espaço, enquanto a escala gregária busca promover a interação social em pontos estratégicos da cidade”, explica a professora.
Para o historiador José Alberto, essas especializações surgiram da necessidade direta dos trabalhadores envolvidos na construção.
“A Rua das Elétricas era uma necessidade fundamental para a elaboração de pequenos utensílios que eram da construção. Já a Rua das Farmácias [surgiu] porque o projeto do hospital estava ali onde hoje é o Hospital de Base. A Rua das Farmácias era para ficar adequada àquela proximidade do hospital”, explicou.
É nesse cenário, marcado pela mistura entre planejamento e adaptação, que trajetórias individuais ajudam a contar a história da cidade.
Rua das Elétricas
A família Moisés é um desses exemplos. O pioneiro saiu de Minas Gerais e chegou a Brasília em 1960 em busca de oportunidades e, dez anos depois, fundou a Elétrica Moisés, na 109 Sul, onde o negócio permanece ativo até hoje, atravessando gerações.
A mais antiga loja da Rua das Elétricas, hoje é administrada por Flávio Moisés, filho do fundador, ao lado de filhos e netos, em uma rotina que se confunde com a própria evolução da capital. “Eu trabalho com o meu pai desde criancinha, a gente já vinha para a loja até brincar dentro da loja, então é todo mundo pioneiro de Brasília”, contou.
“A gente cresceu junto com a cidade. Não foi uma cidade pronta. A gente ajudou na construção de Brasília e Brasília abraçou toda a nossa família”, afirmou o empresário Flávio Moisés.
Ao longo das décadas, ele acompanhou de perto as transformações do comércio local, desde o surgimento orgânico das quadras especializadas, como a Rua das Elétricas, até a rotatividade constante de estabelecimentos que marcaram diferentes fases da cidade.
Segundo ele, o surgimento de uma quadra focada apenas em materiais elétricos veio como herança da W3 Sul, que era uma das principais vias naquela época.
“Era um orgulho quem tinha um prédio ou comprasse alguma coisa na W3, e a gente viu ela crescer, ela ser construída […] O legado da 110 e 109, ela vem da W3, tudo começou ali na W3, aí a gente foi migrando para as entrequadras, mas o forte sempre foi a W3”, explicou.
Esse movimento de expansão não apenas reorganizou o comércio, como também se consolidou como uma herança familiar construída no cotidiano e transmitida entre gerações.
“Meus filhos veem o pai trabalhando desde criança porque o comerciante acorda cedo, vai para a sua loja, vai para o seu comércio, trabalha até tarde, então ele fica vendo isso […] No comércio você cresce pegando gosto por tratar gente, então você conversa muito, você tem gente para tratar todo dia, e você vai pegando gosto por aquele amor”, afirmou.
Com o passar dos anos, o vínculo com Brasília também se fortaleceu. Para ele, as dificuldades do início fazem parte do processo de construção de uma trajetória e ajudam a dar sentido às conquistas alcançadas.
Além de ser um espaço de acolhimento e oportunidade, onde diferentes famílias conseguiram crescer e se estabelecer.
“Eu tenho um amor muito grande por Brasília, por meu pai ter vindo para cá. No começo, como começo de todo mundo, é sofrido. Você só dá muito valor quando você vê o sofrimento. A dificuldade do passado virou o seu sucesso do futuro, então a nossa família teve muito sucesso em Brasília”, declarou.
Rua Japonesa
Uma das ruas reconhecidas pela lei distrital de 2024 é a “Rua Japonesa”, localizada na 4015/414 Sul. O local abriga restaurantes e lojas temáticas com produtos asiáticos.
O empresário Samuel Lin, 21 anos, é brasiliense e filho de chineses. No ano passado ele e a família abriram uma loja de doces e alimentos orientais na rua que já concentrava grande número de comércios similares. O local foi escolhido pela proximidade com restaurantes e outros serviços segmentados.
“Escolhemos esse local principalmente pela procura das pessoas de produtos asiáticos nessa rua específica. Entendemos que nosso negócio também agrega valor na rua para entregar mais da cultura asiática em Brasília”, explicou.
A família Lin chegou a Brasília pouco antes da pandemia. Os pais trabalhavam como ambulantes, vendendo eletrônicos e outros objetos em lojas do plano piloto. Depois, a família abriu um comércio na Feira dos Importados. Já estabelecidos em Brasília, a rotina da família passou a incluir viagens para São Paulo, com o objetivo de comprar produtos alimentícios orientais. Ao observar que a demanda familiar poderia ser também uma demanda da comunidade brasiliense, eles resolveram abrir a loja, que vem fazendo sucesso.
Para ele, abrir a loja nesse ponto da cidade já apresenta retornos claros. Na análise de dados do negócio, ele observa que metade dos clientes que compram na loja vão até o comércio pelo local onde ela está instalado.
“Pra gente abrir a loja ali também é também agregar aquela rua como patrimônio cultural de Brasilia. Brasilia que é conhecida como capital planejada e recebeu muitos imigrantes, pessoas que vieram de outros países para construir a cidade. Acredito que vai ser uma rua característica de cultura asiática e penso que vai se estabelecer como a Liberdade, de São Paulo”, pontuou.
Rua das Noivas
Famosa no Plano Piloto até os anos 2000, a rua da noivas, na 304/305 Norte, hoje vive um cenário inverso. Todas as lojas da rua fecharam, restando apenas o estabelecimento de dona Ana Ferreira, 60 anos, que foi inaugurado em 1987. A modista e empresária trabalha no ramo de vestidos de noivas há 40 anos e diz que a permanência na rua — hoje marcada pela presença de bares, restaurantes e comércios variados — é pura resistência.
“Minha profissão é da costura até a criação das peças, eu consigo com os meus funcionários manter o trabalho pela minha experiência. Nas maioria das outras lojas eram funcionários que faziam o trabalho, e isso faz muita diferença, porque quando o proprietário não tem o domínio completo do que está trabalhando, é mais complexo”, refletiu a empresária e modista.
Ela conta que atua na loja “da faxina até a finalização do vestido” e narra que se superou pela experiência e pelo saber.
O primeiro emprego de Ana, assim que chegou em Brasília, em 1997, foi na loja onde hoje é proprietária. Pouco mais de uma década trabalhando no local, ela recebeu a proposta de comprar a loja e aceitou. Quando finalmente estava prestes a quitar a negociação, veio a pandemia e desbancou os planos pretensos. Ana viu as últimas quatro lojas de noivas que restavam na rua, fecharem ao seu lado.
“Foi uma batalha mesmo. Suspendemos funcionários e eu fiquei sozinha na loja trabalhando. Quando a loja reabriu eu tinha uma coleção totalmente nova. Na época tive ajuda do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). A gente tem uma história, então conseguimos preservar” comentou.
Hoje, sozinha na Rua das Noivas, a solitária empresária narra os desafios que enfrenta com a descaracterização da rua.
“Foi um movimento negativo [o abandono da lojas]. Antes era mais fácil aparecer. A Rua das Noivas as pessoas iam porque já sabiam que ia ter. Quando tem concorrência, se você trabalha com qualidade e bom atendimento
você se destaca. Hoje tem muitos cafés e bares, então fica descaracterizado e é mais difícil, a gente tem que investir mais em publicidade para atrair os clientes”, desabafou.
Atualmente, Brasília vive um movimento de migração desse segmento. Muitos empreendimentos voltados a noivas e casamentos construiram em Taguatinga (DF) uma nova “Rua das Noivas”.
Rua das Farmácias
Outra história que se entrelaça aos 66 anos da capital é a do farmacêutico Rogério Tokarski, que chegou do Paraná na década de 1970 atraído pelo potencial de crescimento da cidade.
Em um período em que Brasília ainda carecia de formação especializada na área, ele encontrou espaço ao lado da esposa, Romelita Milagres Tokarski, para desenvolver um trabalho pioneiro com manipulação de medicamentos. Foi assim que surgiu a Farmacotécnica.
“Todos os farmacêuticos como eu, éramos forasteiros do no DF. Assim, fomos estudando e o tempo foi passando e fomos nos tornando expert cada dia mais em personalizar medicamentos com doses individualizadas”, disse Rogério.
Instalado na Asa Sul desde 1976, Rogério acompanhou de perto a consolidação da chamada Rua das Farmácias, que se transformou em um dos principais polos do setor.
“A rua das farmácias naquela época já era a rua que tinha mais farmácias, mas o mais era muito menos do que hoje. Desenvolveu-se muito esta rua com farmácias e eu estou batalhando para pôr no Guinness Book, a rua que mais tem farmácias no mundo. Nós temos mais farmácias aqui na rua das farmácias do que qualquer outra cidade do Brasil e do mundo em distâncias limites da 302 a ao final da 102”, afirmou.
A decisão de se instalar na Asa Sul esteve diretamente ligada à localização estratégica da região, especialmente pela proximidade com o Hospital de Base e a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, o que favorecia a demanda por serviços farmacêuticos.
Assim como em outras histórias de pioneiros, o negócio também se tornou parte da estrutura familiar. As filhas, Rogy e Romy Tokarsi, seguiram a mesma profissão, garantindo a continuidade do trabalho.
“Imagina a felicidade de um pai saber que daqui uns dias — a gente é passageiro por causa da idade — e tem alguém que vai substituir. Eu não quero que elas sejam herdeiras, eu quero que elas sejam também proprietárias do nosso saber porque o saber é um conjunto de extremas ações […] e elas então serão as que darão a continuidade ao nosso trabalho, a nossa ciência”, afirmou.
As filhas sentem que a formação em farmácia foi algo natural. “Desde criança eu brincava no laboratório e sempre me via fazendo farmácia”, comentou Ruth.
Se, por um lado, histórias como a da família Moisés e a família de Rogério representam a permanência e a adaptação ao longo do tempo, por outro há trajetórias que revelam o impacto das mudanças no modelo de comércio e na dinâmica urbana de Brasília.
É o caso da família de Flávio Resende, cuja história também se confunde com a construção da capital. Após 70 anos, chegou ao fim um ciclo empresarial iniciado ainda nos primeiros anos da cidade, mas manteve-se o espírito empreendedor e o amor pela cidade.
O pai dele, Orédio Alves de Rezende, chegou a Brasília em 1957, antes mesmo da inauguração, vindo de Anápolis (GO) para gerenciar a Induspina Autopeças, uma das primeiras lojas do setor na então Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante, em um período em que, segundo o filho, “ninguém queria vir” para a nova capital.
“Ele se candidatou para vir e ajudar nessa empresa, na instalação da indústria em Brasília. Portanto, a loja completa esse ano 69 anos de muita luta e muita tradição. Ela foi durante muitos anos, principalmente na década de 80 e 90, líder nesse mercado de autopeças”, contou Flávio.
Com o crescimento da cidade e o aumento da demanda por peças automotivas, a expansão do negócio ocorreu de forma natural. Em 1962, Orédio decidiu abrir uma unidade na W3 Sul, acompanhando o surgimento da avenida, que à época era apresentada como o “maior shopping horizontal do Brasil”.
Segundo Flávio, a 514 Sul chegou a reunir mais de 10 lojas do mesmo segmento, consolidando-se como um polo de autopeças, em um movimento semelhante ao que ocorreu em outras áreas especializadas da cidade.
“Era o lugar pra se comprar autopeça, como aqui tem rua das elétricas e das farmácias. Essa era uma quadra que tinha muitos, muitos empreendimentos dessa área e só ficou a gente”, explicou.
Com a morte do pai, em 2021, devido a complicações pulmonares causadas pela Covid-19, a família se viu diante de uma decisão difícil: manter ou encerrar a atividade. Nos anos seguintes, a perda da mãe e as mudanças no cenário comercial reforçaram a necessidade de reavaliar o futuro do negócio.
“Eu e meus irmãos [estávamos] tocando esse negócio e seguindo esse legado e tentando trazer outras possibilidades, outros olhares, mas a gente entendeu que não fazia mais sentido seguir, que era um fechamento de um ciclo, que foi muito bonito, que a gente tem muito orgulho, que faz parte da história de Brasília, mas que a gente entendeu que temos outros caminhos a seguir e outras contribuições a fazer”, afirmou Flávio.
Segundo Flávio, apesar da decisão difícil, o sentimento que permanece é o de legado e que a trajetória construída pelos pais segue como a principal herança da família.
“A gente tem muito orgulho da história dos meus pais, especialmente do meu pai, que chegou antes. A história da minha família se conecta com a história de Brasília nesse espírito empreendedor. E quando a gente fala de empreendedorismo não é necessariamente abrir um negócio, mas é você planejar, persistir, inovar, pensar diferente. Então eu entendo que essas são as características que cruzam a história de uma cidade que começou muito pequena, numa cidade livre em que abrigava as pessoas que construíam para se tornar o que é hoje: uma cidade exemplo uma cidade moderna”, Flávio Resende, empresário, jornalista e filho de pioneiro
Ao longo de 66 anos, a capital foi desenhada não apenas por seus arquitetos, mas também por quem ocupou seus vazios, abriu portas, ergueu fachadas e respondeu, no cotidiano, às necessidades de uma cidade em construção.

































































































































































