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Com o lema “o esporte ao alcance de todos”, os centros olímpicos e paralímpicos do Distrito Federal buscam melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e formar atletas. No entanto, a realidade em muitos desses locais, presentes em 12 regiões administrativas, está longe de alcançar tal objetivo.

Enquanto alguns estão em pleno funcionamento, como no Gama, outros sofrem problemas básicos de manutenção e segurança. As falhas incluem falta de energia, fiação e materiais roubados, banheiros quebrados e quadras esburacadas.

Centro Olímpico de Sobradinho

 

O programa
Os centros olímpicos e paralímpicos do Distrito Federal têm como objetivo assegurar a prática esportiva da população e promover atividades socioeducativas. As unidades atendem, gratuitamente, crianças a partir dos 4 anos, adolescentes, jovens, adultos e idosos.

As obras foram executadas pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Anualmente, são gastos em torno de R$ 25 milhões com tais centros, nos quais há 37.933 alunos matriculados. Atividades ocorrem nos três turnos (matutino, vespertino e noturno), de terça a sexta-feira, podendo funcionar das 6h45 às 21h45 e, aos sábados, das 7h às 16h, variando de acordo com a necessidade. Mas na prática, não tem sido assim.

Falta de manutenção
As aulas noturnas do Centro Olímpico e Paralímpico de Santa Maria, por exemplo, estão suspensas. Há sete meses, um transformador da subestação de energia queimou após sofrer uma descarga elétrica, deixando a unidade às escuras quando termina o dia. A piscina, por depender de eletricidade para o tratamento da água, não pode ser utilizada em nenhum período.

Quem praticava natação trocou de exercício. É o caso do filho do vigilante Edson Silva, 41 anos. O rapaz, de 14, agora utiliza a pista de atletismo em vez da piscina.

“Meu filho fazia natação porque ele escolheu esse esporte, mas aqui é um centro olímpico e também paralímpico. Muitas crianças precisam da piscina por recomendação médica”, reclama Edson. Os problemas vão além: o vigilante alega que o jovem requisitou uniformes há três anos, mas as roupas só chegaram em novembro passado.

De acordo com a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer, um novo transformador está em processo de aluguel, e a situação deve ser normalizada em breve. “A manutenção do local acontece regularmente, seguindo o cronograma de prioridades”, esclarece a pasta. O Centro Olímpico e Paralímpico de Santa Maria custou R$ 5.536.604. No local, são atendidas 3.333 pessoas entre as 21 especialidades esportivas oferecidas.

 

A falta de manutenção nos centros olímpicos se estende DF afora. Na unidade de São Sebastião, a assistente social Carla Mendes, 53 anos, depara-se com os banheiros exclusivos para uso de pessoas com necessidades especiais desativados há mais de dois anos.

Carla frequenta o local há cinco anos. Quem participa das aulas, no entanto, é sua irmã Maiza, 54, que tem dificuldade motora. A assistente social se encarrega de levá-la ao centro todas as terças e quintas-feiras, para a natação. Mas, por causa do ocorrido, Maiza tem que utilizar os banheiros comuns.

Quando observou o sanitário especial malcuidado, com o vaso sanitário quebrado, temeu que alguém sofresse um acidente.

Reclamei e o banheiro foi interditado. Dois anos depois, ainda não foi consertado. Se fossem dois meses, seria outra situação, mas são anos"
Carla Mendes, irmã de aluna do Centro Olímpico de São Sebastião
 

Apesar da estrutura precária, Carla classifica os centros olímpicos como uma grande vantagem para a comunidade. “O projeto é ótimo para pessoas com deficiência. Os professores são superatenciosos. Os centros olímpicos são muito importantes para a região e mudam a vida das pessoas. O único problema é a falta de cuidado.”

A assistente social diz que o benefício para sua irmã foi grande: quando iniciou as atividades, Maiza tinha medo de entrar na piscina. Atualmente, ela está muito mais adaptada e se desenvolveu muito bem, graças à atividade.

Reféns da criminalidade
Na Estrutural, o principal problema é outro: o centro olímpico está à mercê da criminalidade espalhada pela região. Situada próximo a um ponto de venda de drogas, a unidade – conforme relatam os funcionários – é constantemente invadida e furtada. Materiais de natação, computadores e impressoras foram listados entre os itens roubados.

De acordo com um trabalhador, apenas a guarita e a área de natação possuem energia elétrica, pois há dois meses o restante da fiação foi levado por ladrões. Os banheiros estão sem reformas, em péssimo estado.

 

Simone da Silva, 38 anos, dona de casa, é moradora da Estrutural e recentemente matriculou os filhos na natação. No entanto, sente-se apreensiva. Ela reside a poucos passos do centro e afirma que a área é de grande risco.

“Aqui melhorou quando começou a ter policiamento, mas não vejo mais viaturas. Parece até que a polícia tem medo dos ladrões. Não podemos nem andar tranquilos nesta rua”, diz Simone. 

Por meio de nota, a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer informou ter aumentado a quantidade de vigilantes, além de contar com uma unidade de apoio da Polícia Militar dentro do Centro Olímpico da Estrutural. No entanto, os funcionários e alunos afirmam que os policiais militares raramente estão presentes.

Próximo governo promete investimentos
O cenário do programa pode mudar nos próximos anos. Em novembro, o governador eleito do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), reuniu-se com o ministro dos Esportes, Leandro Cruz. O futuro chefe do Palácio do Buriti conseguiu R$ 10 milhões para investimentos na área.

Desse total, R$ 6 milhões são para a infraestrutura dos centros olímpicos. O restante vai para dois programas: um voltado para adolescentes infratores e jovens em situação de vulnerabilidade social, chamado Esporte e Cidadania; o outro é para o Delas, que vai oferecer aulas de artes marciais para mulheres. Os dois são projetos-pilotos a serem implantados no DF.

Auditoria
Enquanto os investimentos não chegam, as unidades são alvo dos órgãos de fiscalização. Em 2014, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) realizou auditoria nos centros olímpicos. A matéria está em análise por meio de processo.

A auditoria, realizada na então Secretaria de Esporte, analisou a regularidade e os resultados da gestão dos centros olímpicos do Distrito Federal. Na época, a Corte de Contas constatou falhas na distribuição de uniformes e materiais esportivos, nos gastos com publicidade e nos repasses de recursos.

Em 26 de abril de 2016, o Tribunal determinou que fossem implementadas as alterações necessárias para a adequação das instalações dos centros olímpicos às normas de acessibilidade. No entanto, passados mais de dois anos, as unidades continuam com uma série de falhas.

Confira o documento:

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