Após quase matar Jessyka a pancadas, PM mandou cartão: “Me perdoa”

Na mensagem, o soldado diz que a amava. O comportamento, segundo especialista em violência, é típico de homens agressores

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 07/05/2018 20:59

Seis dias após espancar e quase matar a ex-noiva em casa – com chutes, socos e coronhadas na cabeça –, o soldado da Polícia Militar Ronan Menezes, de 27 anos, mandou-lhe um cartão no qual se dizia apaixonado por ela, Jessyka Laynara da Silva Souza, 25. “Espero que um dia consiga me perdoar e te peço uma chance de provar que posso te fazer a mulher mais feliz do mundo. Me perdoa, por favor. Amo você para sempre”, dizia a mensagem escrita pelo militar, à qual o Metrópoles teve acesso.

Jessyka foi agredida na noite de 14 de abril e recebeu o cartão no dia 20. Quatorze dias depois, o homem invadiu a casa dela, na QNO 15 de Ceilândia, e a matou com pelo menos três tiros. Para a família, o assassinato foi premeditado. Um dos motivos é o fato de o PM ter tirado cópia da chave da residência da jovem sem o consentimento dela. No dia do crime, ele a utilizou para invadir o imóvel e disparar uma pistola calibre .40 contra a moça, que esperava tomar posse como soldado do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal.

Apesar de não ter denunciado Ronan à polícia, “para ele não ser preso”, Jessyka resolveu pôr fim no relacionamento de seis anos. E, segundo a família, decidiu conhecer melhor o professor da academia onde o casal malhava, Pedro Henrique da Silva Torres, 29 – também baleado na sexta-feira (4/5) pelo policial militar. Pedro levou três tiros, passou por cirurgia e está internado na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Regional de Samambaia. Ele sabe que a moça foi ferida, mas não tem conhecimento da tragédia.

Além dos pais e da irmã de Ronan, apenas uma amiga soube do espancamento. Em áudio, a jovem contou o horror que viveu na noite das agressões. “Era para eu estar enterrada agora. Ele me espancou tanto, tanto. Me deu tanto chute, soco, coronhada. Rasgou minha cabeça”, disse Jessyka.

No áudio de 9 minutos, ela ainda contou ter ficado coberta de sangue e, mesmo assim, Ronan não parava de bater. “Coloquei uma fralda na cabeça, que encharcou e começou a pingar. Tive de colocar uma toalha, para você ter noção. Só não morri porque os pais dele chegaram”, ressaltou.

A agressão ocorreu na casa de Ronan. Enciumado com uma mensagem que Jessyka havia recebido, o rapaz se transformou e mostrou a sua face ainda mais violenta. Passou a espancar a jovem após ela impedir que ele mexesse em seu celular. Mas, com pena do militar, a moça nada relatou à família. Tentava disfarçar os roxos na pele com maquiagem.

Depois de agredir a jovem, Ronan alegou estar arrependido. Chorava, dizia que estava tentando mudar e, inclusive, passou a frequentar um psicólogo. “Amiga, eu sempre disse para você que traição eu até poderia perdoar, mas, se um dia ele me encostasse a mão, não ia aceitar. Não sei o que fazer. Queria sua opinião”, destacou a moça, no áudio.

A presidente do Instituto Personna de Estudos e Pesquisas em Violência e Criminalidade, Elisa Waleska Krüger Costa, mostra que, ao primeiro sinal de violência doméstica, é preciso denunciar. “A mulher não deve tentar ser psicóloga do agressor, dando conselhos ou justificando seus comportamentos”, afirma.

Segundo ela – que também é doutora em psicologia clínica e cultura, perita criminal, psicóloga forense e professora universitária –, o comportamento de Ronan é típico de homens exterminadores de mulheres. “Baixa tolerância à frustração, possessivo, ciumento, controlador, inseguro, manipulador e sedutor. E sempre em companhia de uma mulher que reforça essas características”, destacou.

Os homens agressivos, em geral, começam com pequenas exigências, cenas de ciúme, cobranças, brigas seguidas de presentes e pedidos de desculpas com promessas de mudanças. “Muitas amigas aconselham a mulher a perdoar, ir a uma igreja, relevar como sendo prova de amor. É uma escalada que passa para murros, socos e acaba em morte. O ideal é que nenhum tipo de violência seja consentido”, alertou a especialista.

Ronan se entregou na noite de sexta-feira (4/5), logo após o crime, e está preso preventivamente por determinação judicial. Segundo o comando da corporação, ele será expulso. Enquanto isso, a família de Jessyka chora a sua perda e espera por justiça.

Ouça os relatos de Jessyka sobre o dia em que foi brutalmente espancada por Ronan:

Últimas notícias