Após fraudes na UnB, estudantes negros cobram rigor na aprovação por cotas

Movimento negro negocia criação de Diretoria de Ações Afirmativas – uma banca para avaliação dos cotistas e de combate ao racismo

atualizado 15/07/2020 11:04

Jack Di Araújo VieiraMaterial cedido ao Metrópoles

Após fraudes no sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB), estudantes do Movimento Negro cobram rigor na aprovação de cotistas pela instituição. Para evitar novos episódios, combater o racismo e implantar políticas de inclusão e respeito, defendem a criação da Diretoria de Ações Afirmativas, ligada diretamente à Reitoria da universidade.

A diretoria seria composta por alunos e professores do Movimento Negro. Do ponto de vista de Jack Di Araújo Vieira, psicólogo, mestrando em Direitos Humanos pela UnB, ativista do movimento antirracista e LGBT, o novo órgão teria a missão de organizar uma banca de identificação para fazer a avaliação presencial de cada cotista aprovado, antes da matrícula na instituição.

As denúncias de fraudes partiram dos próprios estudantes do Movimento Negro em 2017. Desde então, a universidade investigava as denúncias e, na segunda-feira (13/7), decidiu expulsar e anular créditos e diplomas de 25 estudantes acusados. O caso ainda será avaliado pelo Ministério Público Federal (MPF). Para Jack (fotos abaixo e em destaque), o capítulo destaca a importância da vigilância e do monitoramento das cotas.

“A implantação da Diretoria de Ações Afirmativas também teria a missão de implementar a política racial dentro da UnB. Essa é nossa maior luta. Estamos em diálogo com a Reitoria”, afirmou. “A gente também iria acompanhar e apurar os casos de racismo e dar uma resposta para a universidade. Buscar uma resolutividade desses casos”, completou o ativista.

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UnB embranquecida

O Movimento Negro imagina que há mais fraudadores. “Os dados mostram que mais de 50% dos alunos da UnB são negros. Claro que não. A UnB não é negra. É uma universidade superembranquecida. A UnB mudou muito. Não é mais aquela de 10 anos atrás, superbranca. Mas certamente esse dado de 50% não corresponde à realidade e ao dia a dia”, ponderou.

Nesse sentido, o ativista frisou: a cobrança e o diálogo constante do Movimento Negro foram determinante para a conclusão da comissão de investigação das fraudes montada pela instituição. As suspeitas pairam, inicialmente, sobre os cursos de medicina e direito, que reuniam a maioria dos estudantes expulsos nesta semana.

Cotas destorcidas

“O racismo no Brasil é silencioso, nos exclui dos espaços. No campus de Saúde, de medicina, a gente não está lá, mas a cota está, e será usada. Mas quando é usada vemos o racismo que existe na própria instituição: a gente sabe que há pessoas que conseguem entrar na universidade de forma clandestina”, lamentou Jack.

Mayara Castro de Souza, mestranda do programa em Direitos Humanos e Cidadania, compartilha da opinião do colega. Ela entrou na UnB pelas cotas e passou por uma avaliação presencial em 2012. A sessão foi filmada e a estudante, arguida por pessoas negras. Na época, a situação foi desconfortável. Mas após as fraudes, a universitária mudou de postura e defende a volta da banca.

“A banca é necessária para a política de cotas ser implementada como deveria ser. Da forma como o Movimento Negro militou e pautou a questão. Foi uma vitória. E a gente precisa efetuá-la de forma sincera e verdadeira, como a política definitiva”, explicou. Segundo Mayara, a aplicação apenas da autodeclaração também abre brechas para fraudes em concursos públicos.

Ela considera justo que a UnB busque as pessoas lesadas pelos 25 fraudadores da política de cotas, alunos e alunas que deixaram de entrar na universidade nas vagas destinadas a indígenas e negros porque outros estudantes conseguiram burlar a seleção. Para ela, isso seria uma forma de reparação do dano causado a negros e indígenas.

Mayara afirma que o Movimento Negro está organizando um coletivo de ações afirmativas na UnB. “Não só a UnB. O racismo é estrutural. E, infelizmente, para a instituição não ser racista, ela tem que praticar pautas antirracistas. O nosso sistema brasileiro ainda tem uma dificuldade imensa em relação a isso”, destacou.

O Metrópoles perguntou para Mayara se ela já sofreu racismo na UnB, e a resposta foi imediata: “Com certeza. A partir do momento em que a maioria da população é negra, mas entro numa universidade onde só tinha eu mais três alunas negras em uma turma, eu sofri racismo. E vi isso lá. A todo momento”.

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