Após ameaça terrorista a Bolsonaro, Abin, GSI e PF se unem para caçar suspeitos

Força-tarefa inclui SSP e da Polícia Civil local. Delegado da PCDF que iniciou investigação fala em "ameaça real". Segurança é reforçada

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 28/12/2018 6:11

Os principais órgãos de inteligência do país formaram uma força-tarefa para identificar os autores das ameaças de um suposto grupo terrorista a Jair Bolsonaro (PSL). A mobilização ocorre no dia em que o Metrópoles revelou a existência de um site no qual uma organização que assumiu a autoria de atentado a bomba em Brazlândia na madrugada do Natal (25/12) anunciar que planejava um ato durante a posse do presidente eleito.

Integrantes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), da Polícia Federal (PF) e da Subsecretaria de Inteligência (SI) da Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP) estiveram em Brazlândia, nesta quinta-feira (27/12), para colher informações na 18ª Delegacia de Polícia, que iniciou as apurações. A segurança envolvendo a posse presidencial foi reforçada.

Ainda nesta quinta (27), a PF confirmou, em nota, que abriu inquérito e acompanha o andamento da investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) sobre o artefato deixado ao lado da Igreja Santuário Menino Jesus, em Brazlândia, na madrugada de terça-feira (25).

“Hoje, a PF abriu inquérito para apurar se o caso tem relação com postagens feitas na internet por grupo que reivindica a autoria do crime”, afirmou a PF. Também procurados pela reportagem, a Abin e o GSI não quiseram se manifestar.

Investigadores da 18ª DP coletaram uma série de imagens gravadas por câmeras de segurança instaladas nas cercanias da igreja e as repassaram à PF. O objetivo é chegar a quem deixou a bomba na igreja.

No site Maldição Ancestral, o suposto grupo extremista diz que foi o responsável pelo artefato. Na página há, inclusive, fotos do artefato antes de ser levado ao templo religioso e reclamações pelo fato de o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar ter desarmado o dispositivo.

Como na mesma página havia uma série de ameaças a Bolsonaro, inclusive com referências a um atentado na posse, foram acionadas as forças federais.

As forças de segurança trabalham juntas de modo que não haja choque entre as investigações. Nosso objetivo é evitar que uma tragédia ocorra no dia 1° de janeiro de 2019. A ameaça é real e estamos investigando

Adval Cardoso, delegado-chefe da 18ª DP (Brazlândia)

Coleta de imagens
Todas as imagens gravadas desde 20 de dezembro na área próxima à igreja estão sendo minuciosamente analisadas para identificar o momento exato em que integrantes da suposta organização abandonaram a mochila preta contendo uma bomba caseira nos arredores do templo.

Informações repassadas pela perícia da Polícia Civil aos investigadores apontam que a bomba teria pelo menos 5kg de pólvora. “A perícia acredita que o acionamento falhou. Ela tinha até mesmo um relógio com data e hora certa para detonação”, afirmou uma fonte ao Metrópoles. Peritos reconheceram similaridades entre esse artefato e outro encontrado nas proximidades da Rodoviária do Plano Piloto recentemente.

Ainda de acordo com o delegado Adval Cardoso, a escolha do santuário para o atentado não foi aleatória. “Essa igreja é uma das três maiores do país. No momento em que acreditamos que seria acionada, havia em torno de 1 mil pessoas celebrando a Missa do Galo”, disse.

O caso
A suposta organização, chamada de Maldição Ancestral, mantém um site no qual diz estar “em tocaia terrorística contra o progresso humano”. Na página da internet, são disseminadas diversas mensagens de ódio e são pregados “o caos e o terror no seio da civilização”. O grupo teria integrantes, inclusive, nos Estados Unidos, segundo as investigações.

Em trechos de um texto publicado na internet, a suposta organização criminosa diz o seguinte: “Se a facada não foi suficiente para matar Bolsonaro, talvez ele venha a ter mais surpresas em algum outro momento, já que não somos os únicos a querer a sua cabeça”.

O caso ocorre quase quatro meses após Bolsonaro, ainda candidato, ser esfaqueado durante agenda de campanha em Juiz de Fora (MG). Até hoje, o futuro mandatário do país faz uso de uma bolsa de colostomia para a retirada de fezes devido à gravidade do ferimento na região abdominal.

Adolescente cria perfil fake
Na tarde desta quinta (27), o grupo de investigadores chegou a um endereço em Brazlândia onde mora um adolescente de 15 anos. A suspeita era de que o rapaz pudesse ter alguma relação com a organização extremista. No entanto, as apurações apontaram que o jovem quis apenas aproveitar o momento de pânico provocado pela presença da bomba na igreja para causar mais medo aos moradores locais.

O adolescente criou, na terça (25), um perfil em uma rede social para ameaçar detonar pelo menos seis bombas em diferentes pontos do DF e ainda teria assumido, de forma mentirosa, a autoria pela bomba detonada pela Polícia Militar ao lado da igreja. A localização do jovem contou com a ajuda de policiais da Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC) da Polícia Civil.

Ouvido na delegacia, o adolescente negou em um primeiro momento ter criado o perfil “Terrorista Brazlândia” no Instagram, mas teve o computador e o celular apreendidos pela polícia Em seguida, o jovem resolveu contar a verdade e assumiu ser o dono do perfil falso. Os dispositivos serão encaminhados ao Instituto de Criminalística (IC) para serem periciados.

Veja imagens da página criada pelo jovem

Ligação com facções criminosas
Intitulada como uma espécie de “sociedade secreta”, a Maldição Ancestral afirma ter ligações com duas das maiores facções criminosas do país.

“Nos alinhamos com o PCC [Primeiro Comando da Capital] no que diz respeito aos planos de ataques terroristas com explosivos C-4 que seriam perpetrados pela facção paulista durante as eleições. Isso não é uma aliança, é um alinhamento criminal que se refere a objetivos, logo a polícia pode também ser um alvo nosso, é parte de nosso posicionamento antipolítico”, aponta outra postagem do grupo.

As investigações, agora, tentam chegar aos autores das postagens. Um obstáculo é que a página na internet está hospedada em servidores estrangeiros e, segundo os responsáveis, usa uma série de meios de encriptação e anonimato.

Caso sejam indiciados, os integrantes do suposto grupo podem ser enquadrados na Lei Antiterrorismo. Em caso de condenação, a pena prevista é de 12 a 30 anos de prisão. Tempo que pode aumentar devido a outros crimes, como as ameaças e a tentativa de detonar artefato explosivo.

Preocupação com segurança
A solenidade que marcará o início da gestão de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto está prevista para começar às 14h05 do dia 1º de janeiro. Um ensaio para ajustar ações de logística e do esquema de segurança foi realizado no último domingo (23). Outra simulação deve ocorrer no próximo domingo (30).

deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmou na manhã da última segunda-feira (24), em sua conta oficial no Twitter, que a segurança no dia da posse do seu pai será “inédita” porque a avaliação de risco é “a maior da história”.

Haverá atiradores estrategicamente posicionados no terraço do Palácio do Planalto e demais monumentos da Praça dos Três Poderes: Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF). Militares também estudaram a área onde Bolsonaro receberá a faixa presidencial e definiram pontos de observação.

Operação Antiterror nas Olimpíadas
As primeiras prisões feitas pela Polícia Federal no país com base na Lei Antiterror ocorreram em 21 de julho de 2016. Na Operação Hashtag, 10 pessoas foram detidas acusadas de integrar um grupo que preparava ações terroristas para as Olimpíadas do Rio de Janeiro.

De acordo com o ministro da Justiça na época, Alexandre de Moraes, o bando utilizava aplicativos de celular, como Telegram e WhatsApp, para conversar e organizar os atentados, que não chegaram a ocorrer. Ainda segundo Moraes, contatos com o Estado Islâmico eram feitos por meio de sites da internet, mas sem interação com a base.

Colaborou Fernando Caixeta

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