Com licença, aqui do outro lado da coluna tem um ser humano

Segundo estimativas da ONU, 95% dos comportamentos agressivos e difamadores da internet são direcionados a mulheres

atualizado 17/07/2018 16:30

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Gostaria de pedir licença a vocês, caros leitores e leitoras, para ser humana. Na verdade, para lembrá-los de que essa dimensão minha nunca deixou de existir – muito física, material, cheia de lágrimas, sorrisos, levezas e pesos. Aqui, do outro lado da rede, esse avatar que você xinga, ataca e chama de burra nos comentários das redes sociais do Metrópoles é uma pessoa.

Aqui, do outro lado, esse nome com foto na tela é um ser humano desejando, mais que tudo nesta vida, ser amado por outros seres humanos.

Quando nos esquecemos de uma realidade tão básica para brincarmos de ser maldosos nas redes sociais? E digo “brincar de” pois estou segura de que a maioria das pessoas extrapolando grosserias na internet jamais o faria no mundo material. Eu mesma já devo ter recebido mais de mil xingamentos sérios e ameaças virtuais ao longo de minha carreira tratando de temas tão polêmicos quanto aborto ou estupro. Mas não me lembro de uma pessoa chegar perto de me atacar com tamanha falta de sensibilidade num debate frente a frente. Olhando-me nos olhos, talvez temam me ver chorar e assumir responsabilidade pela minha dor.

Mas essa dor continua sendo responsabilidade de cada um de nós quando desferimos um ataque virtual. Isso porque tudo que acontece virtualmente tem consequências bastante reais: cada dia mais, vejo profissionais atuando nas redes sociais e nos meios de comunicação vivendo crises psicológicas e emocionais profundas.

Da minha parte, admito já ter precisado ir à delegacia fazer denúncias, faltar ao trabalho por medo e dormir à base de calmantes. Um homem – depois descobri ser um estudante de 21 anos –, que disse “estar apenas brincando”, havia ameaçado me estuprar na frente do meu marido, fazê-lo assistir e violentá-lo também em seguida. Ele não tinha dimensão do peso daquela “brincadeira” nas nossas vidas. Mas precisa ter.

Na semana passada, minha amiga Luisa Marilac, uma travesti alegre e amorosa, dedicada a divertir as pessoas e encher seus corações de aceitação pelo diferente, também teve de ir à polícia. Uma mulher, uma completa estranha, convocou um linchamento público de “viados”, “gente doente como ela”. E Marilac, sempre tão cheia de boa energia, me ligou toda murcha: a vivacidade lhe havia sido roubada.

Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), 95% dos comportamentos agressivos e difamatórios na internet são direcionados a mulheres. Essa se tornou a mais nova maneira de ser machista, a mais moderna das violências de gênero. Atacam-nos por nos verem fracas, por esquecerem que somos humanas e por que pensamos diferente.

A cura para essa doença social do século 21 não está apenas em leis e punições rígidas. Acredito que passa não só por uma campanha de educação, mas pelo resgate real e profundo da humanidade, daquele que pensa diferente. Seria bom se, toda vez que fôssemos postar um comentário nas redes sociais, lembrássemos: a pessoa do outro lado também sente dor e também chora.

Deixo aqui, como reflexão, esta bela frase de Rosa Luxemburgo: “A Liberdade é quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós”.

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