A gravidez me deu a certeza de que aborto não pode ser crime

Que meu filho Jorge nasça em um mundo em que nenhuma mulher seja punida por escolher não ser mãe

IStockIStock

atualizado 06/08/2018 22:52

À beira dos nove meses de gravidez, assisto ao julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o aborto. O que está em jogo é a descriminalização da interrupção da gravidez até as 12 semanas de gestação. Olho com amor para minha barriga e concluo: estou segura, ninguém deveria ir para a cadeia por não querer gerar um filho.

Desde que engravidei de meu filho Jorge, muitas pessoas me perguntaram se a experiência mudou meu posicionamento sobre o aborto. De forma alguma, respondo. O que ela fez foi me assegurar ainda mais de que estou correta.

Sabe por quê? Porque, por mais belíssima que seja a gravidez, com toda a magia que acontece em nosso corpo enquanto desenvolvemos um ser humano, ela também é um processo que demanda extrema participação e dedicação materna.

Não se trata de uma escolha no momento do sexo. Trata-se de milhares de escolhas, dia a dia, sobre o que comer, beber, que médicos visitar, quanto gastar com eles, que esforços e hábitos evitar, que trabalho praticar. Nada que demande tanto do corpo e da psique de alguém pode ser uma imposição.

 

Obrigar uma mulher a levar a termo uma gravidez indesejada é, sem exagero, um trabalho escravo do corpo feminino. E é uma injustiça mandar para a cadeia uma mulher que não quer dar tanto de si a um projeto ao qual não está preparada – ainda mais sozinha, porque o pai, nós sabemos, desaparece num passe de mágica tão milagroso quanto aquele que cria a vida.

“Mas e seu filho, Nana?”, insistem. “Tenho certeza de que você amou o Jorge desde a concepção. Eu vi seu olhar de encantamento quando descobriu que estava grávida, com poucas semanas de gestação.” O que eu amei, eu respondo, é “massinha”, a matéria-prima do meu filho. E a ideia do que ele viria a ser.

 

Meu filho não era aquele punhadinho de células zigóticas, assim como não era o óvulo que eu produzi e também não era o esperma que o fecundou. Meu filho é algo muito mais rico, dotado de um sistema complexo que caracteriza seu corpo como da espécie humana.

Meu filho Jorge foi formado a partir de células que eram vivas, sem dúvidas. Mas um conjunto de células ou partículas só se torna vida humana quando se junta num sistema humano complexo. Afinal, a maior parte do seu corpo é formada de milhões de partículas de água, não é mesmo? Quer dizer, então, que toda partícula de água por aí é uma partícula humana?

Ao meu ver, como também para muitos médicos respeitáveis, como o doutor Drauzio Varella (só um exemplo), o critério para determinar o começo da vida humana é o mesmo que aquele usado para determinar o fim dela: a existência de atividade cerebral complexa. Explico: quando há morte cerebral de uma pessoa querida, mesmo que a maioria de seus órgãos continue funcionando, nós a consideramos morta e doamos seus órgãos a outros. Da mesma forma, por volta de 12 semanas de gestação, quando o cérebro passa a operar, devíamos considerar que a vida humana começa. Antes disso, há só um conjunto de órgãos incompletos a funcionar.

 

Como poderíamos acreditar na primeira premissa e não na segunda sem sermos extremamente incoerentes?

Obviamente reconheço que existem outros argumentos respeitáveis para considerar o início da vida. Vou até mais longe: defendo o direito de qualquer pessoa de acreditar nesses pressupostos e, sim, de ser contra o aborto. Qualquer um pode se opor à interrupção da gestação, mas ninguém tem o direito de impor essa crença a outra pessoa. Como eu não teria o direito de obrigar uma mulher que deseja seu filho a abortar. Como eu condenaria qualquer pessoa que tentasse tirar de mim o direito de gestar e ninar o meu filho Jorge.

A gravidez, estou cada dia mais convencida, pode ser um dos mais belos gestos de amor e doação pelos quais passa uma mulher. Mas apenas se for um ato de liberdade e absoluta escolha em cada parte do processo. Do contrário, é das violências mais atrozes a que podemos submeter alguém. É o mesmo raciocínio que comanda o sexo que deu origem à gestação: com escolha, o sexo pode ser sublime. Sem ela, é abominável.

Que meu filho nasça em um mundo em que nenhuma mulher seja punida por escolher não ser mãe e que todas as crianças nascidas sejam tão desejadas e amadas quanto ele. Esta é minha oração de fim de gravidez. Na certeza de que nem Deus e nem Jorge se ofendem.

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