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Conteúdo especial

Tecnologia ganha espaço no combate ao crime e na segurança em São Paulo

São Paulo amplia o uso de tecnologia na segurança, com câmeras, reconhecimento facial, integração policial e proteção às mulheres

DANILO M. YOSHIOKA /ESPECIAL METRÓPOLES
26/09/2026 07:23

A sociedade brasileira se acostumou à sensação de insegurança nas últimas três décadas, mas em São Paulo há um trabalho consistente sendo realizado para transformar essa realidade de combate a criminalidade. Integração e tecnologia são a chave para essa mudança na segurança pública segundo os participantes do Metrópoles Talks – São Paulo Mais Segura – Tecnologia, Presença e Resultados na Proteção da Cidade realizado nessa sexta-feira (25/9), em São Paulo.

“Temos 20 mil câmeras da Prefeitura de São Paulo, com reconhecimento facial, alerta de intrusão e integração com câmeras da iniciativa privada. É importante destacar que a tecnologia vem para potencializar o trabalho dos nossos policiais. A tecnologia revoluciona e veio para ficar, ampliando a capacidade de atuação da Polícia”, garantiu Juliana Bussacos, secretária municipal de Segurança Urbana, em sua fala de abertura do talk.

Segundo Bussacos, a tecnologia também tem ampliado o acesso da população aos serviços de segurança. Atualmente, é possível registrar boletins de ocorrência pelo celular e solicitar medidas protetivas de forma digital.

Ela também destacou os resultados do reconhecimento facial. Desde novembro de 2024, quando começou a contabilização dos dados, mais de 3 mil prisões foram realizadas com o auxílio da tecnologia. Segundo a secretária, as ações ocorreram sem disparos de arma de fogo.

DANILO M. YOSHIOKA /ESPECIAL METRÓPOLES
Juliana Bussacos: “A tecnologia tem ampliado o acesso da população aos serviços de segurança”

Eric Coser, fundador da Gabriel, empresa de tecnologia voltada à segurança pública, destacou a importância da colaboração entre sociedade e poder público no enfrentamento da violência. Segundo ele, a segurança é uma responsabilidade coletiva, que exige a união de esforços com o estado e o uso de inteligência de dados estruturados.

Coser também ressaltou que a Gabriel criou uma rede de câmeras inteligentes, com 22 mil equipamentos instalados em 8 mil prédios.

O fundador da Gabriel afirmou que a empresa realiza atualmente a leitura de 4 milhões de placas de veículos por dia.

“O uso de inteligência na segurança pública pode transformar totalmente o combate à criminalidade. Daqui dez anos, o roubo de celulares deixará de ser economicamente vantajoso”.

Eric Coser, fundador da Gabriel
DANILO M. YOSHIOKA /ESPECIAL METRÓPOLES
Eric Coser: “A empresa realiza atualmente a leitura de 4 milhões de placas de veículos por dia”

Marcelo Finger, professor titular do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (USP), destacou a importância de compreender o funcionamento das tecnologias de segurança e avaliar seus resultados com base em dados.

Segundo ele, quanto mais claras forem as explicações sobre essas ferramentas, maiores serão as possibilidades de utilizá-las para o bem e evitar usos prejudiciais.

“A eficácia dos sistemas precisa ser analisada a partir de números e evidências, e não apenas de opiniões, independentemente da formação ou dos títulos de quem as apresenta. A população deve ter acesso a informações sobre essas tecnologias, que impactam o cotidiano de todos”, pontua Finger.

Eric Coser afirmou que São Paulo apresenta atualmente o menor índice de homicídios do país e destacou a mudança no perfil da criminalidade, com o avanço dos crimes digitais.

Para ele, a adoção de incentivos, metas e bonificações para servidores públicos pode contribuir para melhorar os resultados na segurança pública, uma vez que, segundo o empresário, as pessoas respondem a estímulos.

Coser afirmou ainda que uma parcela pequena dos criminosos seria responsável por uma proporção significativa dos delitos e defendeu o uso de evidências fotográficas como ferramenta de apoio à segurança pública. Segundo ele, identificar e retirar de circulação esse grupo poderia produzir um impacto relevante na redução da criminalidade.

O efeito Smart Sampa

De acordo com Juliana Bussacos, o sistema conta com câmeras de leitura de placas veiculares e opera em parceria com a Secretaria de Segurança Pública. Quando um alerta é gerado, os agentes da Guarda Civil Municipal (GCM) verificam se o mandado de prisão está ativo. Após a validação, o sistema aciona a viatura mais próxima por meio de georreferenciamento.

“O procedimento leva menos de um minuto e, nos casos de reconhecimento facial, o despacho da viatura ocorre quando há 92% de similaridade. A tecnologia já auxiliou na prisão de mais de 3,6 mil foragidos da Justiça”.

Juliana Lopes Bussacos, secretária Municipal de Segurança Urbana

No caso de pessoas desaparecidas, o sistema utiliza um índice de similaridade de 85% para acionar a viatura mais próxima, que realiza a abordagem e os procedimentos necessários para a localização da pessoa e a baixa do registro de desaparecimento.

Segurança pública e tecnologias conectadas

Marcelo Finger chamou a atenção para a quantidade de dados pessoais coletados por dispositivos e serviços digitais. Segundo o professor, a população é monitorada continuamente, o que reforça a necessidade de discutir a privacidade e o uso dessas informações.

Marcelo Finger: “A população é monitorada continuamente, o que reforça a necessidade de discutir a privacidade e o uso dessas informações”

Finger mencionou que imagens de multas de trânsito podem receber tarjas pretas para preservar a identidade de ocupantes dos veículos. Para ele, esses aspectos precisam ser considerados na apresentação e na discussão das tecnologias de monitoramento.

Segurança como vetor de desenvolvimento urbano

Fabrício Cobra, secretário municipal das Subprefeituras, destacou a importância da integração entre diferentes secretarias e da escuta à sociedade civil na construção de políticas de segurança pública.

“Os resultados atuais são fruto de um planejamento estruturado em eixos, que incluem segurança e zeladoria, com atuação conjunta entre a Prefeitura e o governo estadual, com iniciativas que permitem, por exemplo, que policiais militares atuem em operações municipais durante os dias de folga”.

Fabrício Cobra, secretário municipal das Subprefeituras
Fabrício Cobra: “É essencial a integração entre diferentes secretarias e da escuta à sociedade civil na construção de políticas de segurança pública”

Ele citou ainda ações integradas de combate ao tráfico de drogas e a ampliação dos serviços de zeladoria, que passaram de horários específicos para atendimento 24 horas. Segundo o secretário, as medidas foram planejadas em conjunto com o governo do estado e com a participação da sociedade civil.

Marcone Moraes, presidente da Associação Pró-Centro SP, afirmou que a sociedade brasileira se acostumou à sensação de insegurança nas últimas três décadas, recorrendo a muros mais altos e à contratação de vigilância privada.

“Nos últimos anos, São Paulo passou por uma transformação profunda, porém, os projetos de revitalização urbana precisam considerar os interesses e as demandas da população, pois não basta oferecer iniciativas que não correspondam ao que as pessoas desejam”.

Marcone Moraes, presidente da Associação Pró-Centro SP
Marcone Moraes: “A sociedade brasileira se acostumou à sensação de insegurança nas últimas três décadas, recorrendo a muros mais altos e à contratação de vigilância privada”

Ricardo Hoglhammer, capitão da Polícia Militar e representante do Copom-SP, destacou a importância da integração entre a polícia e a comunidade para ampliar a segurança nos bairros. Segundo ele, a iniciativa Vizinhança Segura contribui para identificar locais que podem receber melhor patrulhamento.

“O videopatrulhamento, desenvolvido pelo Centro de Operações, é um diferencial no trabalho policial. A partir das imagens captadas pelas câmeras, é possível ampliar a percepção sobre as ocorrências e orientar as ações operacionais, contribuindo para o planejamento do policiamento”.

Ricardo Hoglhammer, capitão da Polícia Militar e representante do Copom-SP

Fabrício Cobra afirmou que a Prefeitura de São Paulo reestruturou a Guarda Civil Municipal, ampliando o efetivo de 2.180 para 3.750 agentes. O secretário também destacou a realização de concurso público para reforçar o quadro da corporação e ressaltou que a valorização salarial contribui para atrair profissionais mais qualificados. Segundo ele, a administração municipal também ampliou os investimentos no fortalecimento da GCM.

O presidente da Associação Pró-Centro SP, Marcone Moraes, afirmou que as ações de segurança e o trabalho comunitário têm contribuído para mudar a relação da população com o centro de São Paulo. Segundo ele, pessoas que antes apenas transitavam pela região, no trajeto entre casa e trabalho, passaram a permanecer no local após o expediente, frequentando restaurantes e outros estabelecimentos.

“Também há a importância dos conselhos de segurança, que promovem encontros mensais e aproximam a comunidade das autoridades. A melhora na sensação de segurança favorece o comércio e estimula mais pessoas a conhecer e frequentar a região central”, comenta.

O capitão da Polícia Militar, Ricardo Hoglhammer, destacou o uso de aplicativos para facilitar o registro de ocorrências e aprimorar o direcionamento do policiamento.

“Por meio do 190 SP, a população pode comunicar casos como perturbação do sossego, violência contra a mulher e furtos. Os registros ajudam a reunir informações e evidências para orientar a atuação policial de acordo com as demandas de cada região”, ressalta.

Ricardo Hoglhammer: “O uso de aplicativos facilita o registro de ocorrências e aprimora o direcionamento do policiamento”

O capitão também citou o SP Mulher Segura, que oferece recursos adicionais de atendimento e acolhimento às mulheres, complementando os canais tradicionais de emergência.

Segurança da mulher: prevenção, proteção e resposta integrada

O terceiro e último painel reuniu Marcela Arruda, secretária Municipal de Gestão; Mary Roseane de Souza, inspetora superintendente do Programa Guardiã Maria da Penha; e Patricia Godoy, assessora técnica da Coordenação de Proteção Especial, voltada para as Mulheres.

Marcela Arruda destacou que, diante do aumento da visibilidade dos casos de agressão contra mulheres, a Prefeitura tem ampliado as iniciativas de enfrentamento à violência. Segundo ela, as políticas públicas deixaram de se concentrar apenas na proteção das vítimas e passaram a incluir ações voltadas à autonomia financeira feminina.

DANILO M. YOSHIOKA /ESPECIAL METRÓPOLES
Marcela Arruda: “Diante do aumento da visibilidade dos casos de agressão contra mulheres, a Prefeitura tem ampliado as iniciativas de enfrentamento à violência”

“Entre as medidas, estão cursos, linhas de crédito especiais e programas de capacitação profissional, que buscam oferecer condições para que as mulheres conquistem independência financeira e tenham alternativas para romper ciclos de violência”. 

Marcela Arruda, secretária municipal de Gestão de São Paulo

Arruda também ressaltou a presença feminina no funcionalismo municipal: dos cerca de 130 mil servidores da Prefeitura de São Paulo, aproximadamente 95 mil são mulheres.

Mary Roseana, inspetora superintendente do Programa Guardiã Maria da Penha, destacou que as visitas às mulheres com medidas protetivas têm como objetivo identificar suas necessidades e encaminhá-las à rede de apoio. O acompanhamento permite compreender a situação de cada vítima e direcionar o atendimento de acordo com suas demandas.

DANILO M. YOSHIOKA /ESPECIAL METRÓPOLES
Mary Roseana: “As visitas às mulheres com medidas protetivas têm como objetivo identificar suas necessidades e encaminhá-las à rede de apoio”

“As informações coletadas durante as visitas são repassadas ao Ministério Público, contribuindo para eventuais ajustes nas medidas protetivas e para a adoção de providências, como a prisão do agressor, quando cabível”.

Mary Roseana, inspetora superintendente do Programa Guardiã Maria da Penha

Roseana ressaltou o papel da tecnologia no atendimento às mulheres com medidas protetivas. Durante as visitas, as vítimas recebem um aplicativo instalado no celular, que permite acionar a equipe em situações de risco. Ao receber o chamado, uma viatura é direcionada ao local para prestar acolhimento e atendimento à mulher. Segundo a inspetora, a ferramenta tem contribuído para agilizar a resposta e reforçar a proteção às vítimas.

Patricia Godoy, assessora técnica da Coordenação de Proteção Especial, destacou os desafios do atendimento às mulheres em situação de violência nos serviços de assistência social. Para ela, uma mulher que procura um Centro de Referência de Assistência Social (Cras) para atualizar o cadastro do Bolsa Família, por exemplo, pode ter lembranças despertadas durante as perguntas feitas pelo profissional.

“Nesses casos, a orientação é encaminhá-la a uma sala reservada, onde um assistente social possa oferecer acolhimento e escuta especializada. A assistência social tem papel fundamental nesse processo, especialmente porque muitas mulheres não reconhecem que estão em situação de risco de morte”.

Patricia Godoy, assessora técnica da Coordenação de Proteção Especial

Marcela Arruda destacou a estrutura da Casa da Mulher Paulistana, que oferece quartos para acolher mulheres em situação de violência que não tenham condições de retornar para casa. O espaço também conta com ambientes destinados às crianças.

Ainda segundo a secretária, a Prefeitura disponibiliza diferentes canais de atendimento e tem investido na capacitação dos servidores para identificar e acolher situações de violência. Ela citou ainda a atuação da Polícia Militar como um dos principais caminhos para buscar ajuda, além do botão de emergência.

Marcela explicou, ainda, que o programa Elas SP é voltado ao fortalecimento da liderança feminina dentro da Prefeitura, enquanto o Ponto de Afeto atende mães servidoras que retornam ao trabalho após o nascimento dos filhos.

Ela destaca que as iniciativas fazem parte de uma estratégia para criar condições para que as mulheres tenham mais autonomia e possam desenvolver suas trajetórias profissionais.

A secretária destacou ainda que a formulação de leis e políticas públicas deve considerar as necessidades específicas das mulheres, inclusive no ambiente de trabalho, e afirmou que o Elas SP surgiu justamente com o objetivo de fortalecer a presença feminina em posições de liderança.

A assessora explicou que é realizada uma avaliação de risco com a participação da própria mulher. Para isso, os profissionais utilizam instrumentos específicos que ajudam a identificar se ela está em uma situação de risco iminente ou se precisa de outro tipo de acompanhamento.

Patrícia Godoy: “Profissionais utilizam instrumentos específicos que ajudam a identificar se ela está em uma situação de risco iminente ou se precisa de outro tipo de acompanhamento”

“O atendimento psicológico precisa estar articulado a uma rede de apoio capaz de atender às diferentes demandas dessas mulheres, envolvendo áreas como educação, saúde, cultura, lazer e programas da Secretaria Municipal do Trabalho. Os casos identificados também podem ser encaminhados para os serviços de saúde, de acordo com as necessidades apresentadas”.

Patricia Godoy, assessora técnica da Coordenação de Proteção Especial voltada para as Mulheres

Ao final, Godoy garantiu que há uma equipe técnica responsável por realizar esses atendimentos e, quando necessário, os casos são encaminhados para avaliação na área da saúde.

Ao final, Marcela Arruda destacou que os dados demonstram que, em alguns casos, o agressor utiliza a violência contra animais como forma de atacar ou intimidar a mulher. Também há situações de abandono em que a mulher permanece responsável pelos animais.

Assista o talk completo: