Políticas públicas devem priorizar a formação de professores
Educação infantil, alfabetização e formação integral pautam debate sobre acesso e qualidade na rede educacional da capital paulista

“Atualmente, cerca de 42% das crianças brasileiras estão matriculadas em creches. No entanto, o crescimento e a migração da população exigem um esforço permanente do Poder Público para garantir o acesso às vagas e evitar a formação de filas.
Com essas palavras, o secretário municipal de Educação de São Paulo, Fernando Padula, deu o tom do talk “São Paulo: Educação que Transforma”, que reuniu especialistas para debater os principais desafios da educação no estado e discutir estratégias capazes de promover avanços para toda a comunidade escolar. O evento foi promovido pelo Metrópoles, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a São Paulo Negócios.
Padula explicou ainda, no primeiro painel intitulado “Primeira infância: da creche ao desenvolvimento integral”, que as creches, originalmente vinculadas à assistência social, passaram a integrar a área da educação com a implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
Segundo ele, a mudança está alinhada aos avanços apontados pela neurociência sobre a importância da educação na primeira infância.
Inclusive, a capital paulista celebra o sexto ano consecutivo com a fila de creches zerada, resultado da ampliação da rede, da entrega de novas unidades e do fortalecimento de parcerias.
Em 2020, a fila foi zerada. Hoje, conseguimos zerá-la a cada dois meses. O principal desafio é assegurar não apenas o acesso, mas também a permanência das crianças e a qualidade do atendimento.
Fernando Padula, secretário municipal de Educação de São Paulo

Já Dani Junco, fundadora e CEO da B2Mamy, ressaltou que a discussão sobre creches também precisa considerar a divisão das responsabilidades parentais e as condições sociais e econômicas que influenciam as escolhas das famílias.
Deixar um filho na primeira infância sob os cuidados de uma instituição é uma escolha complexa para muitas famílias, especialmente diante da pouca idade da criança.
Dani Junco, CEO da B2Mamy

Eduardo Queiroz, diretor-presidente da Fundação Bracell, por sua vez, ponderou que, garantir o acesso, é fundamental assegurar a qualidade do atendimento nas creches e na pré-escola.
O principal desafio é fazer com que as lideranças deem prioridade à educação e promovam a integração entre as áreas de saúde e educação em benefício das crianças.
Eduardo Campos Queiroz, diretor-presidente da Fundação Bracell

Alfabetização na idade certa
De acordo com Lucimeira Cabral Santana, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo, a alfabetização é resultado de um processo que começa na Educação Infantil. A colocação foi feita no segundo painel, “Alfabetização na idade certa: Currículo da Cidade, recomposição de aprendizagem e os resultados da Prova São Paulo”.
Muitas famílias criam a expectativa de que, ao ingressar no Ensino Fundamental, a criança já esteja lendo. É muito importante ajudar a família a compreender esse processo e perceber que a criança vai manifestando, gradualmente, aquilo que está aprendendo.
Lucimeira Cabral Santana, coordenadora pedagógica da COPED/SME
Inclusive, Lucimeire defendeu que as crianças não podem perder a capacidade de construir um projeto de vida e fazer as próprias escolhas. “A coerência do processo educacional ajuda o estudante a desenvolver autonomia e confiança para vivenciar novas experiências.”
Sobre a Prova São Paulo, Lucimeire Cabral frisou que vai além de uma avaliação externa em larga escala. A iniciativa permite posicionar os estudantes em uma escala de proficiência e acompanhar o percurso de aprendizagem.
Para a coordenadora, esse acompanhamento é uma ferramenta importante para orientar as políticas educacionais e contribuir para a redução de desigualdades.

Quanto a Beatriz Cardoso, diretora executiva do Laboratório de Educação (LabEdu), afirmou que não existe uma “idade certa” para a alfabetização, mas um processo composto por diferentes etapas de desenvolvimento.
É fundamental aproximar as famílias desse entendimento e mostrar que a aprendizagem é um processo contínuo que prepara a criança para os desafios de uma sociedade cada vez mais complexa.
Beatriz Cardoso, diretora executiva do Laboratório de Educação (LabEdu)
Segundo ela, embora tenha havido avanços na compreensão da alfabetização como um processo de desenvolvimento, ainda existem divergências e incompreensões sobre o tema.

Silvia Lima, gerente de Advocacy do Instituto Ayrton Senna, destacou a importância do diálogo com as famílias durante o processo de alfabetização. Segundo ela, muitos pais se preocupam quando os filhos ainda não leem com fluência ou demonstram pouco interesse pelos livros.
“A escola deve orientar as famílias sobre como contribuir para o desenvolvimento das crianças. A alfabetização vai além de ler, escrever, calcular ou resolver problemas e deve ser compreendida de forma integral”.
Silvia Lima, gerente de Advocacy do Instituto Ayrton Senna
De acordo com ela, redes de ensino que apresentam altos índices de alfabetização são aquelas que mantêm, há anos, um trabalho contínuo e um compromisso compartilhado entre os diferentes gestores.

Educação que vai além da sala de aula
No terceiro painel, “Educação que vai além da sala de aula”, Carolina Bastos, coordenadora de Alimentação Escolar da SME, defendeu que a escola deve criar espaços para experiências práticas relacionadas ao cotidiano dos estudantes desde a Primeira Infância. Na alimentação, isso significa transformar as refeições em momentos de aprendizagem e formação cidadã.
Fundamentalmente, a gente garante isso. Quando olhamos para a evolução da alimentação escolar desde 1993, é possível perceber o quanto avançamos em termos de qualidade.
Carolina Bastos Mendonça, coordenadora de Alimentação Escolar da SME

Rosana Rodrigues da Silva, coordenadora da Coordenadoria dos Centros Educacionais Unificados (COCEU) da SME, acrescentou que a escola deve garantir oportunidades de desenvolvimento para todos os estudantes, com uma educação inclusiva e voltada à formação integral.
A escola deve assegurar a equidade de oportunidades para todos os nossos bebês, crianças e adolescentes, promovendo o desenvolvimento integral e pleno a partir de uma educação inclusiva.
Rosana Rodrigues da Silva, coordenadora da COCEU da SME
Rosana citou o exemplo do programa Recreio nas Férias como uma política pública de proteção social e democratização do acesso à cultura. “Nesta edição, o programa foi realizado em 133 polos, com mais de 33 mil inscritos. Mais do que oferecer um lugar para as crianças durante as férias, o Recreio nas Férias democratiza oportunidades, garante direitos e amplia o acesso à cultura na cidade de São Paulo.”
Conforme a coordenadora, a iniciativa também contribui para a trajetória educacional das crianças e oferece suporte às famílias durante o período de férias. “É um programa que traz muitos benefícios para a trajetória educacional e também cumpre um importante papel de proteção social.”

Já Luís Carlos Delfino de Azevedo Júnior, dirigente da Federação do Desporto Escolar do Estado de São Paulo, ressaltou a importância de ampliar as oportunidades oferecidas aos estudantes por meio do esporte e de atividades curriculares.
Segundo ele, a prática esportiva deve fazer parte da rotina dos estudantes, contribuindo para o bem-estar e para uma formação mais ampla.
A atividade física é o que queremos que o estudante incorpore à sua vida cotidiana, para o seu bem-estar e, principalmente, por meio do esporte escolar.
Luís Carlos Delfino de Azevedo Júnior, dirigente da Federação do Desporto Escolar do Estado de São Paulo
Para o dirigente, a participação em atividades esportivas também contribui para o desenvolvimento acadêmico e para a formação cidadã. “O mais importante é oferecer oportunidades. Quanto mais atividades curriculares permitirmos que os estudantes vivenciem, ampliamos sua visão de cidadania e de pertencimento. É assim que conseguimos contribuir para a formação completa de um cidadão.”

Juntos pela escola pública
Fernando Schüler, cientista político, especialista em políticas públicas e gestão governamental, professor e pesquisador do Insper, ressaltou a importância das parcerias entre o Poder Público e a sociedade civil no último painel do dia, “Juntos pela escola pública: oportunidades e desafios das parcerias entre governo e sociedade civil”.
Ele mencionou experiências em outras partes do país, como o Projeto Somar, desenvolvido pelo governo de Minas Gerais em escolas da periferia de Belo Horizonte que apresentavam resultados frágeis de aprendizagem.
A sociedade civil precisa participar de forma proativa da gestão pública, atuando em conjunto com escolas e estudantes e articulando ações também nas áreas de saúde e assistência social.
Fernando Schüler, pesquisador do Insper
Ele citou ainda uma experiência vivida em Porto Alegre, onde acompanhou escolas da periferia que estabeleceram parcerias com organizações da sociedade civil, entre elas a Escola Lumiar, instituição sem fins lucrativos que desenvolve uma proposta pedagógica baseada em projetos.
O cientista político também defendeu a ampliação das possibilidades de escolha para estudantes de baixa renda.
Segundo ele, enquanto famílias com maior poder aquisitivo podem escolher entre diferentes modelos de escola, como instituições católicas ou luteranas, é necessário discutir por que essa possibilidade não deveria estar disponível também para crianças de famílias de baixa renda.

Corroborando com o ponto levantado pelo cientista político, Neide Cavalcante, da Liga Solidária, ponderou que as organizações da sociedade civil aprendem diariamente com a atuação nos territórios.
Garantir o direito à educação de qualidade também significa assegurar possibilidades de escolha, e as parcerias com o Poder Público podem contribuir para isso, já que essas organizações estão próximas das comunidades e conhecem suas necessidades.
Neide Cavalcante, da Liga Solidária
Neide ainda observou que há questionamentos em relação à atuação das organizações parceiras, mas destaca a experiência e a presença dessas entidades nos territórios. Para ela, o modelo não deve representar um monopólio, mas uma forma de aproveitar conhecimentos e capacidades já existentes nas comunidades.
A principal demanda é por maior transparência na relação entre o Poder Público e as organizações parceiras, com definição clara das responsabilidades de cada parte e dos recursos financeiros envolvidos.
“A educação é feita por pessoas”, acrescenta. Por isso, ela defende que a parceria esteja acompanhada de investimentos na formação de professores e na garantia de ambientes escolares de qualidade.

O secretário municipal de Educação conta que, na Prefeitura de São Paulo, a parceria com organizações da sociedade civil é apresentada como parte da própria história da rede municipal de ensino. A cidade não possui duas redes de educação, mas uma única rede, formada por unidades diretas, indiretas e parceiras.
Ele lembrou que a primeira creche de São Paulo foi conveniada. De acordo com ele, a rede chegou a contar com 29 creches conveniadas e, atualmente, cerca de 85% da rede é formada por unidades conveniadas ou parceiras.
Para ele, independentemente do modelo de gestão, todas as unidades devem seguir os mesmos padrões de qualidade. “O cidadão paulistano tem o mesmo direito, independentemente do tipo de unidade.”
Nesse sentido, a formação dos professores também deve seguir uma política comum, garantindo que os profissionais estejam preparados para oferecer a mesma qualidade de ensino em toda a rede.
Por isso, ele defende que a atuação das organizações parceiras seja estruturada por meio de processos transparentes de chamamento público, permitindo que entidades da sociedade civil possam atuar em conjunto com o Poder Público na oferta do Ensino Fundamental.
“Como exemplo tem o programa Escola Aberta, voltado a territórios que estão fora da área de abrangência dos CEUs e apresentam maior vulnerabilidade social”, complementou.
