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Em Santarém, no Pará, a rotina da agricultura familiar não se resume apenas ao cultivo da terra. É também a história de famílias, sonhos e resistência que se entrelaçam com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma política pública que conecta a produção rural à comida na mesa de milhares de brasileiros.
Aos 72 anos, Antônio Rodrigues dos Santos revela uma trajetória de trabalho árduo. “Cheguei aqui no Pará em 1960 e, logo no ano seguinte, aos 9 anos, eu comecei a trabalhar na roça junto com meu pai”, conta. As filhas, antes de ir para a escola, também ajudavam na lavoura, enquanto ele sonhava com um futuro diferente para elas.
“Vou trabalhar domingo e dia santo, mas minhas filhas vão ter condição de estudar”, relembrou.

Conhecido como Antônio Grande, o agricultor foi um dos pioneiros no fornecimento de produtos para o PAA em Santarém, em 2010. Para ele, o programa foi mais do que uma oportunidade de renda. Garantiu igualdade ao pequeno produtor, com preços justos e uma possibilidade de estabilidade financeira.
“Com o programa, o preço sempre ajudava o produtor. Não era como negociar com o marreteiro”, explica. “O PAA trouxe igualdade, porque o pequeno agricultor vendia no mesmo valor que o grande.”
Graças ao programa, as filhas puderam estudar, se formar e trilhar carreiras de sucesso. “Hoje, minha filha trabalha em um Instituto Federal, mas faz questão de dizer quando eu chego lá: esse é o meu pai. Ela fala com muito orgulho mesmo”, declara, estampando o sorriso de quem teve o esforço valorizado.
Atualmente, Antônio ainda trabalha na lavoura, cultivando laranja, tangerina e limão, mas lembra que o PAA foi metade da vida dele, possibilitando as variadas plantações de maracujá, abacaxi e até andiroba.
“Ele me incentivou a produzir. Trabalhei seis anos com maracujá, fiz empréstimo e fui um dos únicos que pagou antes da data certa, graças ao programa”, ressalta Antônio Grande.
Impactos concretos
Mário Zanelato, presidente da Cooperativa Campo, que coordena agricultores familiares em Santarém, explica a segurança e a confiabilidade do programa. Por meio dele, o governo federal compra alimentos produzidos pela agricultura familiar e os doa para organizações que atendem quem não tem acesso à comida ou está em situação de insegurança alimentar.
A cooperativa faz o processo de inscrição, cotação de preço e a seleção dos agricultores junto à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ou seja, cuida da logística do PAA, desde o recolhimento até a entrega nos centros de distribuição.
Para Zanelato, o PAA é o mais completo programa do governo federal, pois abrange o fortalecimento do cooperativismo e ajuda produtores rurais e as pessoas em situação de vulnerabilidade, garantindo a renda de trabalhadores e a alimentação de boa parte da população.

Mulheres que semeiam autonomia e colhem dignidade
Zanelato relata ainda que, ao longo dos anos, a participação feminina aumentou, e muitas mulheres agora gerenciam a produção, conquistando autonomia e independência econômica, como é o caso de Maria Heloísa Tapajós.
Desde jovem, Maria Heloísa começou a trabalhar com hortaliças e pequenos animais, incentivada pelo sogro. Segundo a indígena do povo Tapajós, a agricultura familiar e o PAA são a base da vida dela e da comunidade.
A rotina é intensa, mas a dedicação traz recompensas. “Sempre acreditei que mulher deve ser independente. Não esperar que o marido forneça tudo. A determinação pessoal é essencial e é muito gratificante ver que o alimento que produzo chega à mesa de crianças e idosos com qualidade.”
Desde que entrou na cooperativa em 2019 e começou a fornecer alimentos para o PAA, conseguiu melhorar a moradia, adquiriu veículos, construiu uma casa para o pai e segue estudando enfermagem.
Hoje, 53 mulheres são cooperadas, gerenciando produção e conquistando autonomia econômica.
A pesquisadora em gestão pública e desenvolvimento rural Ádria Oliveira se dedica a estudar especialmente o impacto do programa sobre as mulheres fornecedoras.
Filha de pais agricultores familiares — um deles, Antônio Grande —, ela observa que o PAA não apenas gera autonomia econômica, mas também transforma vidas.
“Por meio dessa autonomia que algumas mulheres conseguiram sair de uma situação de violência doméstica”.
Ádria Oliveira, pesquisadora em gestão pública e desenvolvimento rural
Para a pesquisadora, estudar a agricultura familiar é uma forma de retribuir o que recebeu do programa, ajudando a melhorar as políticas públicas.

Mudanças de vida em Santarém
Hoje, graças ao programa, locais como a Feira do Orgânico e a Feira da Economia Solidária abastecem Santarém semanalmente com produtos livres de agrotóxicos, resultado da transição para a agroecologia incentivada pelo projeto.
O impacto vai além da renda: áreas remotas passam a comercializar produtos que antes seriam desperdiçados, evitando a migração para a cidade e mantendo viva a cultura alimentar regional.
“O PAA faz parte de um Brasil que alimenta, porque conecta a produção rural à alimentação das pessoas na área urbana”, destaca Zanelato.
O programa, portanto, não é apenas uma fonte de renda. É um instrumento de autonomia e transformação social, capaz de conectar sonhos individuais e coletivos garantindo oportunidades, comida na mesa e dignidade a milhares de brasileiros.
