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Da falta de internet até o Machine Learning: os desafios da tecnologia na educação

Especialistas defendem benefícios de soluções como inteligência artificial e big data, entre outras, para otimizar a aprendizagem de alunos

atualizado 29/01/2021 16:39

Mesmo que de forma tímida, nos últimos anos, o Brasil e outros países começaram a implementar dentro das salas de aula um processo de transformação digital na educação. O uso da tecnologia sempre foi visto como estratégico para aprimorar processos de aprendizagem, atuando de forma complementar a outras metodologias tradicionais de ensino. No entanto, gargalos como infraestrutura e capacitação acabavam servindo como justificativa para governos e escolas limitarem a conectividade e conter os avanços tecnológicos na relação aluno/professor.

A pandemia, no entanto, chegou para trazer uma ruptura nesse assunto. Com a necessidade de distanciamento social, as instituições de ensino precisaram se adequar ao formato de educação remota, com atividades pedagógicas não presenciais, que incluíram, entre outras ferramentas, o uso da tecnologia. Por conta das disparidades de cada região, muitas escolas utilizaram uma mistura de estratégias, além, é claro, de aulas on-line.

Segundo Lúcia Dellagnelo, diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), a Organização das Nações Unidas (ONU) defende, desde 2012, que quem não tem acesso à tecnologia no século 21 não é capaz de vivenciar a cidadania de forma plena. Afinal, a tecnologia faz parte do cotidiano e seria impossível desassociá-la do ensino.

Nossa forma de aprender e ensinar também tem que ser transformada pela tecnologia. Finalmente, isso ficou claro. Não é supérfluo nem complemento.

Lúcia Dellagnelo, diretora-presidente do Cieb

O momento atual escancarou a necessidade de avaliar a fundo o uso da tecnologia em sala de aula como mecanismo indispensável ao processo de aprendizagem. “Apesar de conhecermos os potenciais benefícios da tecnologia, ainda víamos resistência aos processos e falta de investimento na infraestrutura para que ela fosse usada de forma adequada para obter resultado”, ressalta Lúcia.

O desafio agora é de investimento

Assim como foi feito em outros países, o Brasil precisará destinar recursos para garantir internet de qualidade às escolas, comprar equipamentos adequados e ajudar a desenvolver as competências digitais dos professores, tanto na formação inicial quanto na continuada.

De acordo com a pesquisa TIC Educação 2019, 39% dos estudantes de escolas públicas urbanas não têm computador ou tablet em casa. Nas escolas particulares, o índice é de 9%.

Portanto, a implementação de espaços adequados para o ensino com tecnologia é urgente. Lúcia afirma que é necessário consolidar locais seguros e equipados para alunos que não têm como estudar em casa, por exemplo. Além disso, mesmo com o retorno do formato presencial, as escolas devem propor atividades explorando diferentes funcionalidades da tecnologia, para que isso faça sentido nos exercícios realizados paralelamente em casa. “A cultura digital precisa estar nas escolas para poder acontecer de forma mais fluida de forma remota”, defende a diretora-presidente do Cieb.

Novos formatos

Somadas aos desafios para implementação, há adaptações de formato que devem ser revisitadas para que o potencial da tecnologia seja atingido no dia a dia da sala de aula. Segundo Wilson Tayar, sócio e CTO da empresa Tera, especializada em tecnologia e novos formatos, muitas escolas ainda não se adaptaram e aplicam o modelo tradicional, com aulas longas e fala constante de uma única pessoa.

Não basta realizar a mesma aula presencial no modelo remoto, precisamos repensar as maneiras que engajamos estudantes e transmitimos o conhecimento.

Wilson Tayar, sócio e CTO da empresa Tera

Hoje em dia, avanços em diversos setores da indústria apontam caminhos para o futuro da educação. Como, por exemplo, a utilização de novos serviços e produtos que podem potencializar o ensino de conteúdos e aumentar o interesse do aluno. Machine learning, inteligência artificial e big data – ou ciência de dados – são conceitos já presentes no mercado. Não seria diferente na educação. “Após a crise de 2020, vemos um aumento do uso dessas tecnologias para entender o engajamento das estudantes ou para a recomendação de conteúdos”, diz Tayar.

Apesar dos nomes remeterem a algo meio industrial ou demasiado tecnológico, essas ferramentas têm muita funcionalidade na esfera escolar. Por exemplo, o machine learning é a capacidade que softwares dispõem de observar grandes quantidades de dados, analisá-los, aprender e transmitir o conhecimento adquirido. Isso pode ajudar na hora de estudar, especialmente para aqueles que têm dificuldade de organizar os conteúdos.

A ciência de dados também pode ser utilizada por escolas e professores para entender quão engajados os estudantes estão. Essa é uma excelente forma de acompanhar o desenvolvimento individual de forma mais detalhada, revisitar habilidades e competências, e ainda propor adaptações e melhorias no conteúdo, periodicamente.