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A Ferrogrão (EF-170), ferrovia de 933 quilômetros projetada para ligar o Mato Grosso ao Pará, é apresentada como o ápice da eficiência logística para o escoamento da safra de grãos. No entanto, lideranças indígenas e especialistas alertam que o projeto carrega o risco de repetir o colapso social observado na usina de Belo Monte. O empreendimento ameaça gerar impactos lineares por toda a extensão da Amazônia, criando uma conta social que raramente aparece nos balanços financeiros do agronegócio.
O projeto abrangerá diretamente 14 municípios, incluindo Itaituba, Novo Progresso e Trairão, em uma região marcada por dinâmicas migratórias intensas. O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental de 2024 projeta um investimento de R$ 9,69 bilhões.
A estimativa de geração de vagas é de 51,1 postos diretos e 52,5 indiretos a cada R$ 10 milhões investidos. Ou seja, o empreendimento tem o potencial de movimentar cerca de 100 mil trabalhadores em um período de 10 anos de execução da obra, prazo que pode triplicar dadas as complexidades de se construir na floresta.
Essa massa de pessoas colide com a infraestrutura frágil das cidades que serão cortadas pelos trilhos. Os municípios apresentam déficits históricos em saúde, saneamento e educação, o que sinaliza um colapso iminente no atendimento básico. A disparidade entre a fase de obras e o início da operação é o principal vetor de desequilíbrio para o sudoeste paraense, que não possui um parque industrial capaz de absorver a mão de obra após a conclusão do projeto.
Especialistas descrevem o cenário como a arquitetura de um desastre anunciado.
“Quando a obra for finalizada, a tendência é que milhares de desempregados sejam empurrados para economias ilícitas. O histórico de Altamira serve como exemplo, onde o fim das obras de Belo Monte resultou em um exército de pessoas vulneráveis sendo absorvidas pelo garimpo, pela grilagem e pelo crime organizado”, alerta Melillo Dinis do Nascimento, advogado do Instituto Kabu (povo Kayapó- Mebêngôkre), da Associação Iakiô (povo Panará) e da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil).

Dados da 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, de novembro de 2025, reforçam essa preocupação. Altamira ocupa hoje a quarta posição nacional em conflitos por terra, segundo a Comissão Pastoral da Terra. A expansão demográfica descontrolada da última década catalisou a força de facções criminosas, transformando a região em um polo estratégico para o narcotráfico e elevando drasticamente os índices de mortes violentas.
Para os povos originários, a Ferrogrão representa um cerco territorial que fragmenta a floresta e facilita a entrada de grupos ilegais. Lideranças do povo Kayapó e Panará afirmam que o desmatamento e a grilagem ignoram a existência das aldeias em nome de um desenvolvimento que não chega às bases. A ferrovia funcionaria como uma barreira física, deixando as fronteiras indígenas vulneráveis ao avanço dos conflitos agrários que acompanham as grandes obras.
O avanço desses projetos de infraestrutura também coloca em xeque a segurança alimentar das populações locais.
“A substituição da biodiversidade pela monocultura e a alteração dos cursos hídricos desestruturam o modo de vida tradicional. Ao transformar a floresta em um corredor de carga para o mercado externo, o Estado retira a capacidade das comunidades de sobreviverem do que a terra produz, priorizando o lucro em detrimento da dignidade humana”, explica Cleber Oliveira de Araújo, biólogo e indigenista da Associação Iakiô (povo Panará).
Diferente do impacto localizado de uma usina hidrelétrica, a Ferrogrão promove danos ao longo de toda a sua extensão linear. A obra ameaça sobrecarregar cidades já precárias e marcar o coração da Amazônia com um ciclo de violência e descaso estatal.
Diante das projeções de bilionários investimentos em capital, a pergunta que permanece sem resposta por parte do poder público é quem será o responsável por pagar a conta social desse empreendimento.


