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O Carnaval do Rio não cabe mais só no Sambódromo

Só este ano, a festa atraiu cerca de 8 milhões de pessoas, movimentou mais de R$ 6 bilhões e levou a ocupação hoteleira a 98%

Marcos Mateus/Esp. Metrópoles
Rio que encanta o mundo
1 de 1 Rio que encanta o mundo - Foto: Marcos Mateus/Esp. Metrópoles

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Símbolo máximo da identidade cultural brasileira, a festa carnavalesca carioca foi o foco do painel “Carnaval do Rio e a vocação para encantar o mundo”, promovido na capital fluminense nessa segunda-feira (15/12). Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), e Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira e diretora cultural da entidade, discutiram o futuro do maior espetáculo popular do país sob a ótica da cultura, da economia e da gestão.

Com oferecimento do Governo do Rio de Janeiro e mediado pela jornalista do Metrópoles Vanessa Oliveira, o talk “Rio que encanta o mundo” reuniu mais de 300 pessoas no espaço Prodigy, localizado no Aeroporto Santos Dumont.

Logo no início, os convidados trouxeram números que impressionam: em 2025, o Carnaval atraiu cerca de 8 milhões de pessoas, movimentou mais de R$ 6 bilhões e levou a ocupação hoteleira a 98%, além de impulsionar em 40% o setor de alimentação. Mas, para além da festa, o debate deixou claro que o sucesso do Carnaval está em uma engrenagem que se modernizou sem perder a essência.

Para Gabriel David, o que permanece sagrado é o vínculo entre as escolas e as comunidades. “O mais sagrado no Carnaval é o trabalho das escolas e a forma como elas interagem com suas comunidades, preservando a arte e a cultura”, afirmou.

O que mudou, segundo ele, foi a capacidade de adaptação ao mundo contemporâneo. “As escolas tiveram que aprender a se comunicar melhor para além de suas comunidades e mostrar capacidade de transparência e compliance.”

Essa virada passa por uma reformulação do modelo de negócios, iniciada em 2022, que reposicionou o Carnaval diante do mercado e do Poder Público. “Trouxemos os ativos de volta para a mão das escolas.

Quando o ativo volta para quem produz, ele ganha valor”, explicou Gabriel, ao citar a simplificação de grandes negociações comerciais que antes dependiam de dezenas de contratos distintos.

Outro pilar dessa nova fase é o uso de dados. Hoje, toda a venda de ingressos ocorre em uma única plataforma, permitindo entender quem é o público, de onde vem e como consome o Carnaval. “A gente consegue provar o impacto com dados, algo que o Carnaval não tinha no passado”, ressaltou, ao lembrar antigos debates sobre investimento público em cultura.

Gabriel David, presidente da Liesa

Desafios

Apesar do crescimento, a festa enfrenta um limite estrutural: a demanda é maior do que a oferta. Como a venda de ingressos é uma das principais fontes de receita das escolas, ampliar a experiência do público se tornou prioridade.

Gabriel adiantou que a discussão sobre reformas e possível ampliação da capacidade do Sambódromo está no radar e defendeu transformar a Marquês de Sapucaí em um polo cultural ativo o ano inteiro, com atividades permanentes e a retomada do projeto do Museu do Carnaval.

Ao tratar das pressões comerciais, Gabriel foi categórico: “A arte não se negocia”. Segundo ele, patrocinadores se somam à festa, mas não interferem nos desfiles.

Decisões duras também fazem parte da profissionalização, como o controle de credenciais e mudanças no sistema de julgamento — debates que, para ele, fazem parte da essência competitiva do Carnaval.

Já Evelyn Bastos trouxe o olhar simbólico e humano do espetáculo. “Eu me divido entre a rainha de bateria e a gestora de cultura”, contou, ao lembrar que, por trás do brilho, existe preparo físico, disciplina e trabalho coletivo.

Para ela, o maior desafio do Carnaval está no pré-desfile, na construção diária feita nos bastidores. “O grande desafio é o pré, esse esforço coletivo que constrói o espetáculo.”

Ela também destacou a força dos saberes empíricos que atravessam gerações. “O poder de uma bateria funciona como uma grande orquestra, sem que a maioria seja musicista, mostra a força da ancestralidade. O segredo do maior espetáculo da Terra é a coletividade. O Carnaval só resistiu por causa disso.”

Para Evelyn, além de espetáculo, o Carnaval é espaço de afirmação e responsabilidade. “Quero que as crianças me vejam como artista do morro, parte do dia a dia delas.”

E deixou um recado que resume o espírito do encontro: “Nem todas serão rainha de bateria, mas serão rainhas da própria vida.”

Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira e diretora cultural da Liesa

Carnaval Fan Fest

No movimento de expansão do Carnaval para além da Marquês de Sapucaí, Gabriel David destacou o Carnaval Fan Fest, novidade prevista para 2026 que levará o samba para outros pontos da cidade e ampliará o acesso do público à festa.

A iniciativa prevê a montagem de uma arena gratuita na Praia de Copacabana, com 5 mil m², próxima ao Posto 3, na altura da Rua República do Peru. O espaço será inaugurado em 20 de janeiro, feriado de São Sebastião, e contará com shows e transmissões, em telões, de ensaios técnicos e desfiles, reforçando o Carnaval como ativo turístico, cultural e econômico do Rio.

Entre os próximos desafios, o presidente da Liesa também destacou a integração das escolas mirins ao planejamento geral do Carnaval. Ao todo, cerca de 17 mil crianças fazem parte dessas agremiações, que passam a receber mais estrutura, recursos e organização.

Evelyn reforçou a importância da base: “Para falar de futuro, a gente precisa cuidar das mirins. Muitos dos grandes artistas de hoje vieram delas, eu sou fruto de escola mirim”.

A proposta é fortalecer a formação artística desde a infância e garantir a continuidade do samba como cultura viva. Gabriel anunciou ainda avanços na profissionalização dos julgamentos, com o aumento do número de jurados a partir de 2026 e o reforço da formação técnica ao longo do ano.

Veja todo o evento “Rio que encanta o mundo”:

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