Negócios que sobrevivem são construídos em equipe, afirma Edmar Mothé

Metrópoles Talks promove mais uma edição no Rio de Janeiro mostrando as estratégias de empreendedores na construção de grandes negócios

Marcos Mateus/Esp. Metrópoles
Visão mais aberta do palco, com três pessoas sentadas e uma mediadora. O telão ao fundo exibe a identidade visual “Rio que Empreende”, em letras grandes e coloridas. A plateia aparece em sombra, assistindo ao debate
1 de 1 Visão mais aberta do palco, com três pessoas sentadas e uma mediadora. O telão ao fundo exibe a identidade visual “Rio que Empreende”, em letras grandes e coloridas. A plateia aparece em sombra, assistindo ao debate - Foto: Marcos Mateus/Esp. Metrópoles

atualizado

metropoles.com

“Na verdade, eu não tinha noção do que era empreendedorismo. Eu achava que empreendedor era um grande empresário que gerava muitos empregos.” Assim, Verônica Oliveira, fundadora da Faxina Boa, começou a contar a própria trajetória no painel “Empreendedorismo para mudar realidades”.

O bate-papo ocorreu nessa quinta-feira (29/1) em mais uma edição do Metrópoles Talks no Rio de Janeiro com o tema “Rio que empreende: Por dentro de ideias e ações que desenvolvem negócios e mexem com a vida das pessoas”.

Com oferecimento do Governo do Rio de Janeiro e mediado pela jornalista do Metrópoles Brenna Farias, Verônica e Edmar Mothé, fundador da Bio Mundo e da Mundo dos Filtros, compartilharam as histórias que, mesmo partindo de momentos diferentes, convergem em valores.

Os convidados revelaram momentos de virada, erros, decisões difíceis e aprendizados que transformaram pequenos começos em negócios consolidados.

Uma mulher com cabelo curto segura um microfone e fala com expressão firme. Ela veste roupa clara e está sentada em uma poltrona branca. O fundo colorido indica o palco do evento
Verônica Oliveira relatou como transformou a faxina, historicamente desvalorizada, em símbolo de dignidade e identidade

Empreender por necessidade

Depois de enfrentar um quadro grave de depressão e uma realidade em que não tinha como alimentar os filhos, Verônica passou a fazer faxinas para sobreviver.

“Para mim, foi muito forte achar que seria ofensivo pagar por uma limpeza”, relembrou ao contar que, no começo, não sabia como tabelar o serviço.

Nasceu então uma compreensão simples e revolucionária: aquele serviço poderia ser uma fonte legítima de renda, autonomia e dignidade.

O que Verônica fez a seguir foi inventar o próprio mercado: o perfil Faxina Boa nas redes sociais começou com posts irreverentes, referências à cultura pop e um jeito leve de mostrar algo sério – que faxina é trabalho, é digno e necessário.

“Se eu ganhasse R$ 150 por dia, eu seria a Kardashian da Zona Leste”, lembrou no painel, não como arrogância, mas como o primeiro gesto de orgulho pelo próprio valor.

Sem estratégia sofisticada, sem capital e sem equipamentos, ela começa a divulgar os serviços nas redes sociais, explicando quem era, o que gostava, quais referências culturais tinha. Usou a própria identidade como ponte.

“Eu resolvi fazer referências à cultura pop para trazer pessoas que se interessassem pela mesma coisa que eu, porque nós teríamos uma identificação.”

Verônica Oliveira, fundadora da Faxina Boa

O que parecia improviso se transformou em diferencial. Após a faxina, os clientes sentavam com ela para ensinar redes sociais, comunicação, escrita, fotografia.

Verônica não comprou um curso. Não teve mentor formal. Ela foi aprendendo dentro das casas que limpava. Hoje, soma mais de 285 mil seguidores no Instagram e vive da criação de conteúdo e de palestras.

Mas, segundo ela, a verdadeira virada não foi financeira. Foi simbólica. “Uma moça me escreveu: eu sou faxineira, minha mãe tinha vergonha de mim. Quando você surgiu, isso mudou. Eu comprei minha casa. Eu sustento meus filhos.”

A importância disso é real: segundo dados do IBGE, existem mais de 6 milhões de trabalhadores domésticos no Brasil, maioria mulheres, negras e em condições de vulnerabilidade social, cuja atividade nem sempre é reconhecida ou valorizada pela sociedade.

Um homem aparece em close, segurando um microfone e falando. Ele usa terno claro e camisa. O fundo é desfocado, com luzes roxas e azuis, destacando o foco na fala do convidado.
Edmar trouxe ao painel uma reflexão que rompe com a visão puramente financeira do empreendedorismo: “Melhorar a qualidade de vida das pessoas”

Negócios que nascem com propósito (e não com slogan)

Do outro lado do painel, Edmar Mothé trouxe uma trajetória mais tradicional de negócio, mas igualmente inspiradora. Ele começou no varejo ainda jovem, vendendo de porta em porta, e isso o moldou: “Eu nunca deixo de ser vendedor”.

Contudo, ele reforçou que, ao pensar em crescimento, não basta perseguir números, é preciso cuidar do cliente, treinar equipes e manter atenção às necessidades verdadeiras dos consumidores, para que as lojas não sejam apenas pontos de venda, mas espaços de solução de problemas reais.

Ele relacionou os dois principais produtos – água de qualidade e alimentação natural – a melhora da memória, cognição, sono, disposição e da saúde como um todo.

Empreendedorismo real

Em um país onde mais de 30% da população adulta empreende, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), falar sobre empreendedorismo costuma vir acompanhado de imagens idealizadas: startups milionárias, escritórios envidraçados, investimentos internacionais e histórias de crescimento meteórico.

Mas, longe desse imaginário, existe um Brasil que empreende a partir da necessidade, da observação cotidiana e da tentativa de resolver problemas muito concretos.

Verônica mesmo não começou com um plano de negócios. Começou com uma necessidade.

Trabalhando como faxineira, percebeu que milhões de mulheres viviam a mesma realidade: jornadas longas, pouca valorização, renda instável e quase nenhuma visibilidade social.

Ao começar a registrar a rotina nas redes sociais, ela não falava apenas de limpeza. Falava de organização, dignidade, autoestima e trabalho. O que parecia apenas conteúdo pessoal se transformou, aos poucos, em uma comunidade. E comunidade, quando bem cuidada, vira negócio.

A Faxina Boa nasce desse encontro entre vivência real e escuta atenta do público. Um negócio que não apenas presta serviços, mas também gera oportunidades para outras mulheres.

Verônica não romantiza esse caminho. Ela fala de cansaço, medo e insegurança. Mas também fala de algo fundamental: constância. A decisão de continuar mesmo quando o crescimento ainda não aparece.

O crescimento exige escolha

Mothé trouxe uma perspectiva complementar. Ele observou a expansão do interesse por alimentação saudável, produtos naturais e bem-estar, mas percebeu um mercado fragmentado, pouco padronizado e sem identidade clara.

A BioMundo surge com a proposta de organizar esse setor, criando uma rede com processos, curadoria de produtos e padrão de atendimento.

O crescimento, no entanto, não veio sem custo. “Se você quer crescer, precisa tomar a decisão. E o crescimento gera desconforto. Você precisa ser consistente.”

Além disso, um dos pontos mais fortes do painel foi a desconstrução da figura do empreendedor que faz tudo sozinho. Tanto Verônica quanto Mothé reforçam que o crescimento real começa quando se entende que ninguém domina todas as áreas.

Mothé foi direto: “você precisa se cercar de pessoas melhores do que você”. Essa frase vai contra uma cultura muito presente no Brasil, que valoriza o “dar conta de tudo”. Mas, negócios que sobrevivem a longo prazo são construídos em equipe.

Assista o talk completo:

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