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Lições da pandemia: 73% dos professores querem usar mais tecnologia em aula

O Brasil tem hoje 2,6 milhões de docentes. A maioria teve que se adaptar aos novos formatos de trabalho impostos pela pandemia

atualizado 29/01/2021 16:40

A pandemia da Covid-19 impôs que profissionais da educação dominassem os recursos tecnológicos, como uma das únicas saídas viáveis para manter a dinâmica de sala de aula e garantir o contato com os alunos. Essa nova realidade trouxe impactos de curto, médio e de longo prazo, e possivelmente alteraram até mesmo o curso da formação inicial e continuada dos professores.

Mesmo diante de tantos desafios em sala de aula, uma pesquisa da Fundação Lemann, em parceria com o Instituto Datafolha, aponta que 73% dos educadores brasileiros pretendem utilizar mais tecnologia no ensino do que usavam antes do contexto de pandemia. De acordo com Lucas Rocha, gerente de inovação na Fundação Lemann, a dificuldade sempre foi, e continua sendo, executar a tecnologia e inovação dentro de sala de aula, com profundidade e escala.

“Existem muitas experiências no Brasil de professores que conseguem e conseguiram oferecer uma experiência de aprendizagem mais ativa e significativa para os alunos durante a pandemia. Mas, de fato, eles ainda são minoria.”

Lucas Rocha, da Fundação Lemann

Apesar de 81% dos professores reconhecerem a tecnologia como uma grande aliada na promoção de um aprendizado mais ativo, os formatos usados até hoje ainda não são ideais. Afinal, não adianta trocar a aula expositiva na lousa por livro, tablet ou videoconferência no Zoom. “Isso só reproduz as mesmas experiências e resultados que temos tido até agora”, pondera Rocha.

Os desafios

Não é de hoje que se debate o uso definitivo da tecnologia em sala de aula. Até a pandemia, porém, essa discussão ainda se resumia a um compilado pontual de boas experiências, marcadas pelas diferentes realidades vividas por escolas privadas e públicas. Para Karina Tomelin, pedagoga e conselheira da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), construir algo novo gera uma certa angústia, especialmente porque o momento atual é incerto. Não se sabe, por exemplo, como alunos e professores voltarão da vivência virtual pandêmica ou os desdobramentos de possíveis consequências cognitivas do distanciamento social. “Existe o movimento tradicional de um paradigma que já existe há muito tempo e uma nova escola que ainda não conhecemos”, aponta a especialista.

Por trás de todo esse processo de adaptação, há desafios reais para as escolas, sobretudo para professores. O primeiro deles, porém, é a oferta das condições adequadas para o uso de tecnologias. Rocha, da Fundação Lemann, reforça que 45% dos docentes não consideram que suas escolas possuem a infraestrutura de tecnologia adequada e quase 30% alegam não ter acesso à internet nas instituições de ensino. “Enquanto o acesso à internet e a dispositivos não for universal, a tecnologia continuará sendo uma alavanca de desigualdades”, destaca.

Além disso, o novo cenário não deixa de ser uma oportunidade para repensar a carreira docente, especialmente porque é fundamental receber a formação adequada para lidar com esta nova realidade. Segundo Karina, da Abed, essa mudança exige novas competências do professor, como domínio das tecnologias que potencializem o ensino, olhar analítico sobre a aprendizagem, uso responsável e ético das redes, entendimento sobre dados, entre outros.

“Quem não vive aprendendo, não sobrevive ensinando”, argumenta a pedagoga.

Karina Tomelin, pedagoga e conselheira da Abed

Futuro

A implementação definitiva da tecnologia em sala de aula é um caminho sem volta, mas, de acordo com os especialistas, uma coisa não vai mudar. “A pandemia nos fez refletir, e espero que se estabeleça, de forma definitiva, que nada substitui um bom professor e as relações de confiança e empatia que eles constroem com seus alunos”, afirma Lucas Rocha. Segundo ele, a tecnologia deve potencializar a ação de um professor e aproximar o discente de uma experiência ativa de ensino, que o permita exercitar autoria, curiosidade, investigação e colaboração – e, assim, assegurar impacto na aprendizagem.

Para que essa construção seja significativa para ambos os lados, é essencial que a direção da escola e os profissionais da educação conversem com os estudantes, com outros gestores e entre si, no intuito de entender o que deu certo na experiência das aulas remotas e o que não funcionou.

Por fim, este é um momento de transição, em que a construção deve ser coletiva. O especialista da Fundação Lemann reforça a necessidade de entendermos as etapas do processo. “Estamos todos aprendendo a navegar neste novo cenário e ninguém tem a receita de sucesso”, conclui.