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Hemodiafiltração ganha destaque no tratamento de doença renal crônica

Brasil enfrenta o desafio de ampliar o acesso a tratamentos mais eficientes, humanizados e sustentáveis

Luís Nova/Especial para o Metrópoles
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1 de 1 talk-o-futuro-da-dialise-no-brasil - Foto: Luís Nova/Especial para o Metrópoles

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O futuro da diálise no Brasil depende de uma série de fatores, como o avanço tecnológico, a evolução de políticas públicas e o fortalecimento da atenção integral ao paciente com doença renal crônica.

Com uma demanda crescente, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pela prevalência de doenças como diabetes e hipertensão e pela expansão do diagnóstico precoce, o país enfrenta o desafio de ampliar o acesso a tratamentos mais eficientes, humanizados e sustentáveis.

Nesse contexto, o Metrópoles, em parceria com a Nefrostar, reuniu Maria Eugênia Canziani, médica nefrologista, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Rosilene Motta, médica nefrologista e pesquisadora; Christiane Kojima, médica nefrologista com atuação na assistência e na gestão de clínicas especializadas em terapias renais; e Eric Lopes, paciente com doença renal crônica; para debater o tema a curto e a longo prazo no talk “O futuro da diálise no Brasil”.

Impacto significativo

No início do evento, Vanessa dos Santos, consultora técnica da Coordenação-Geral de Atenção Especializada do Ministério da Saúde e enfermeira nefrologista, destacou que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença renal crônica afeta cerca de 10% da população mundial. Entre os grupos de risco, como pessoas com diabetes e obesidade, a prevalência pode chegar a 36%.

“Esses dados reforçam a importância do fortalecimento e da organização da rede de atenção à saúde, especialmente no cuidado às condições crônicas”, afirmou.

De acordo com ela, o paciente renal crônico gera um impacto significativo, tanto assistencial quanto econômico. Diante desse cenário, é fundamental utilizar esses indicadores para aprimorar e qualificar o cuidado oferecido à população.

“O Ministério da Saúde tem desenvolvido estratégias para fortalecer o acompanhamento e ampliar o contato direto com os pacientes, visando uma assistência mais integral e resolutiva.”

Vanessa dos Santos, consultora técnica da Coordenação-Geral de Atenção Especializada do Ministério da Saúde

“O senhor vai precisar de diálise”

No primeiro painel, intitulado “Oportunidades e desafios no tratamento de pacientes renais crônicos”, a doutora Christiane Kojima explicou o que é a doença renal crônica.

“Infelizmente, a doença renal crônica caminha para se tornar uma das principais causas de morte no mundo até 2040. Trata-se de uma alteração no funcionamento ou na estrutura dos rins que persiste por mais de três meses no quadro clínico do paciente.”

Christiane Kojima, médica nefrologista

Atualmente, já há medicamentos incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS) que ajudam a retardar a progressão da doença. “Ainda assim, muitos pacientes chegam aos consultórios e recebem, de forma tardia, a notícia: ‘o senhor vai precisar de diálise’”, ressaltou Kojima.

Presente no talk, Eric Lopes, paciente com doença renal crônica, relembrou como descobriu que estava doente. “Foi um susto. Quando saí da internação, passei três anos e meio lutando para evitar a hemodiálise, porque naquela época não havia a informação que existe hoje.”

“Quando você começa a entrar no universo da doença renal crônica, a sensação é de que está diante de uma sentença de morte. Mas não é bem assim”, contou.

Após o diagnóstico, Eric iniciou o acompanhamento em uma clínica de São Paulo. Foi um processo muito difícil, pois, a cada sessão de diálise, precisava passar quatro horas na clínica.

Ele lembrou que, depois do tratamento, era acometido por uma espécie de “ressaca” pós-diálise. “Eu mal me recuperava e já era hora da próxima sessão. Vivia com mal-estar constante. Esse foi o período mais turbulento.”

Posteriormente, ele buscou uma clínica que oferecia a terapia de hemodiafiltração (HDF), tipo avançado de tratamento de diálise renal usado em pacientes com insuficiência renal crônica ou aguda, e começou, de fato, a perceber uma melhora significativa na qualidade de vida.

Limpeza mais eficaz do sangue

A médica Christiane Kojima citou quatro modalidades principais de terapia renal substitutiva: a hemodiálise convencional, a hemodiafiltração (HDF), a diálise peritoneal e o transplante renal. “Lembrando que o transplante renal não representa a cura da doença, mas sim uma forma de substituir a função dos rins”, destacou.

A médica ponderou que cada paciente apresenta características clínicas específicas. Por isso, a escolha da modalidade deve ser individualizada, considerando a condição de saúde, o estilo de vida e a avaliação médica, de modo a personalizar a prescrição e oferecer o tratamento mais adequado.

Segundo ela, os rins têm como principal função filtrar e limpar o sangue. A hemodiálise convencional faz essa “limpeza” por meio de difusão apenas.

Já a HDF associa mecanismos de difusão e convecção, promovendo uma depuração mais ampla de toxinas, inclusive moléculas de maior peso.

Em termos didáticos, é como se fosse um processo com maior eficiência de filtragem, proporcionando uma limpeza mais eficaz do sangue.

Acompanhamento multidisciplinar

A assistência ao paciente com doença renal crônica exige acompanhamento multiprofissional, fundamental para garantir um cuidado integral e mais eficaz.

Além do nefrologista, a equipe pode contar com infectologista, cardiologista e endocrinologista, especialmente no acompanhamento de pacientes com condições associadas ao diabetes complicado.

Além deles, é importante a atuação de nutricionista, psicólogo e fisioterapeuta.

O nutricionista orienta quanto à alimentação adequada para cada fase do tratamento; o psicólogo oferece suporte emocional diante dos impactos da doença crônica; e o fisioterapeuta contribui para a reabilitação, ajudando a preservar a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida do paciente.

Esse trabalho integrado fortalece o cuidado, amplia a adesão ao tratamento e promove melhores desfechos clínicos.

Prevenção

É fundamental acompanhar e tratar adequadamente doenças associadas, além de considerar os pacientes que já nascem com condições genéticas que podem comprometer a função renal ao longo da vida.

Além disso, com o envelhecimento, aumenta a probabilidade de desenvolvimento de doenças crônicas e de perda de massa muscular.

Por isso, a prevenção é indispensável, incluindo o controle das doenças de base, a manutenção de hábitos saudáveis e a hidratação adequada, que desempenham papel importante na saúde renal.

A prática regular de atividade física, momentos de convivência com a família e a adoção de hábitos saudáveis também contribuem para a prevenção de doenças.

Futuro da diálise

O segundo painel do talk abordou “O futuro da diálise: caminhos para a modernização do tratamento”. Nele, a médica nefrologista e pesquisadora Rosilene Motta destacou que, ao longo das duas décadas de experiência, acompanhou importantes avanços na terapia renal substitutiva. Ela relembrou, por exemplo, que a primeira diálise feita no Brasil ocorreu em 1949, em São Paulo.

“Daquela época até agora, muita coisa mudou. Houve uma grande evolução. Se pensarmos em termos de história da medicina, foi praticamente ontem. Imagine como era a realidade dos pacientes antes da possibilidade de fazer diálise?”

Rosilene Motta, médica nefrologista e pesquisadora

Segundo ela, o avanço do conhecimento científico permitiu o desenvolvimento de novas tecnologias, como a hemodiafiltração (HDF), além do aprimoramento significativo das máquinas de diálise, tornando os tratamentos mais seguros, eficazes e com melhor qualidade de vida para os pacientes.

As médicas nefrologistas Maria Eugênia Canziani e Rosilene Motta abordaram a evolução da diálise nos últimos anos

A também médica nefrologista Maria Eugênia Canziani afirmou que, embora o Brasil esteja evoluindo na área da terapia renal substitutiva, ainda está aquém de países da Europa em relação à incorporação de tecnologias e ampliação do acesso.

“Ao longo dos anos, foram acumuladas evidências científicas relevantes. Diversos estudos registraram a eficácia dos procedimentos mais modernos, demonstrando de forma clara a melhora na sobrevida e qualidade de vida dos pacientes”, frisou.

Ela destacou que, se considerarmos a história da medicina, a evolução do tratamento dialítico tem ocorrido de maneira bastante acelerada.

No Brasil, esse movimento começa a ganhar mais força, com avanços progressivos na modernização das terapias e na ampliação das possibilidades de cuidado ao paciente renal crônico.

Maria Eugênia Canziani destacou que a disseminação do conhecimento é fundamental para que a diálise seja realmente eficiente. Segundo ela, o tratamento precisa ser definido pelas características clínicas do paciente, e não por critérios administrativos.

“Um dos grandes desafios está nos convênios. Quem trabalha nessa área percebe que, muitas vezes, cada convênio impõe critérios próprios para liberar a hemodiafiltração. Essa decisão, porém, não deveria ser uma regra definida pelo convênio, mas sim pela real necessidade de cada paciente.”

Maria Eugênia Canziani, médica nefrologista

Ela reforçou que o cuidado individualizado é essencial, e que protocolos e diretrizes devem sempre priorizar a saúde e a qualidade de vida do paciente renal crônico.

Divisor de águas

A médica Maria Eugênia citou um episódio ocorrido em Caruaru, quando cerca de 60 pacientes em tratamento de hemodiálise foram contaminados pela água utilizada no procedimento, um dos acontecimentos mais marcantes da história da nefrologia no país, para abordar a questão dos protocolos.

“Tivemos uma contaminação da água que resultou em uma tragédia, vitimando muitos pacientes. Foi um momento de dor profunda para as famílias e para toda a comunidade médica. A partir desse episódio, a prática da diálise no Brasil passou por mudanças significativas”, recordou.

Segundo ela, o caso serviu como um divisor de águas e impulsionou uma revisão ampla dos protocolos de segurança.

A fiscalização da qualidade da água tornou-se mais rigorosa, com a implementação de controles técnicos mais frequentes, monitoramento laboratorial sistemático e padronização nacional dos critérios de potabilidade para uso em diálise.

Além disso, a legislação foi fortalecida, estabelecendo normas mais detalhadas sobre tratamento, armazenamento e distribuição da água nas clínicas.

Para a Agenda Regulatória 2026-2027, a Anvisa aprovou a revisão da RDC nº 11/2014, que trata dos padrões para o tratamento e monitoramento da água utilizada na hemodiálise. O esperado é que a atualização acompanhe os parâmetros internacionais de pureza da água utilizada na diálise, a chamada água ultrapura (AUP).

“O que a gente já sabe é que com uma água ultrapura o paciente tem menos inflamação, dados confirmados por estudos científicos. Com água ultrapura você consegue melhorar a anemia, consegue melhorar a resposta ao tratamento com a eritropoetina, melhorar o padrão de estresse oxidativo, e diminuir a ocorrência de doença cardiovascular, que é a principal causa de mortalidade nos pacientes que fazem diálise”, destacou a dra. Rosilene.

Assista o talk completo:

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