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Em um mundo cada vez mais moldado pela tecnologia, a pergunta emergente que surge é: os diplomas tradicionais estão com os dias contados?
Durante muito tempo, a graduação foi vista como a porta de entrada para o mercado de trabalho. No entanto, o avanço acelerado das demandas, aliado à rápida inutilidade de certas habilidades, tem desafiado o modelo educacional convencional.
Foi justamente essa a discussão desta quinta-feira (9/10) durante o Festival Curicaca, evento de tecnologia e inovação que ocorre até este sábado (11/10).
Durante debate sobre o papel da educação formal no país, especialistas de diferentes instituições destacaram a necessidade de repensar o significado do diploma e o modelo de formação diante da ascensão de novas profissões.
O reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Manuel Nabais da Furriela, defendeu que o diploma continua sendo relevante para a formação da sociedade brasileira, mas ressaltou a importância de uma reflexão mais ampla sobre os caminhos da educação.
“É preciso pensar em dois tipos de estudo: aquele que o aluno deve ter após o ensino médio, e outro que não necessariamente precisa ser universitário. Daqui a 30 anos, metade das profissões que existirão ainda são desconhecidas. Precisamos repensar os cursos que oferecemos.”
Manuel Nabais da Furriela, reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB)
O secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação, Marcelo Bregagnoli, destacou que a nova geração tem buscado uma formação mais prática.
“Na última pesquisa do MEC feita com postulantes ao Enem, 80% dos jovens disseram querer disciplinas de caráter mais aplicado. A educação profissional e tecnológica têm essa vocação, aproximando a formação da inovação, do empreendedorismo e da sustentabilidade.”
Marcelo Bregagnoli, secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação

O superintendente de Educação Profissional e Superior do Senai, Felipe Morgado lembrou que o diploma deve ser visto como um ponto de partida, não de chegada.
“Por estarmos ligados à Confederação Nacional da Indústria, mantemos forte proximidade com as empresas. O diploma é o início de uma jornada de aprendizado contínuo”, afirmou.
Já o secretário de Educação Superior do MEC, Marcus David, alertou para o aumento no número de jovens que desistem da formação acadêmica tradicional.
“Há um crescimento de profissões que não exigem formações rígidas. Precisamos atuar em duas frentes: valorizar a formação formal e, ao mesmo tempo, reconhecer novas trajetórias profissionais”, avaliou.
A reitora do Instituto Federal de Brasília (IFB), Veruska Machado, questionou o discurso de que os diplomas estariam “em extinção”.
“A quem interessa dizer isso? Existe um movimento que tenta desvalorizar a formação. Mas a educação profissional é essencial — ela forma trabalhadores e cidadãos. A desistência pelo diploma está ligada à falta de perspectiva e à desigualdade social.”
Veruska Machado, reitora do Instituto Federal de Brasília (IFB)
Durante o debate, a comunicadora e atriz Maria Paula chamou a atenção para os riscos da superficialidade nas redes sociais.
“No mundo dos influenciadores, muitas pessoas falam sobre temas sérios, como depressão, sem formação adequada. É importante reconhecer o valor do estudo”, alertou ela, que também é psicóloga.
O economista David, complementando o argumento, citou exemplos de influenciadores que vendem soluções financeiras sem conhecimento técnico.
Encerrando a discussão, os participantes destacaram dados do Fórum Econômico Mundial, que prevê a criação de 78 milhões de novas oportunidades de emprego até 2030.
O relatório aponta que, mais do que substituir profissões, a inteligência artificial se soma a elas, e que as habilidades mais valorizadas serão criatividade, pensamento crítico e trabalho colaborativo.
IA ajuda na busca de novos planetas habitáveis
Alice Bessa, estudante de Física da Universidade de Brasília (UnB), participa do desenvolvimento de uma IA voltada à detecção de exoplanetas — planetas localizados fora do Sistema Solar.
O projeto é feito em parceria com o professor Vinicius de Abreu Oliveira e busca compreender melhor a formação desses corpos celestes e as possibilidades de habitabilidade.
“A detecção de exoplanetas é importante porque ajuda a entender como esses sistemas se formam e até como poderíamos, no futuro, estudar a viabilidade de vida ou colonização fora da Terra”, explica Alice.

A estudante atua na parte de detecção, utilizando o método de trânsito planetário, técnica que analisa pequenas quedas no brilho de uma estrela quando um planeta passa na frente.
“Estamos treinando uma máquina para observar essas variações de luminosidade e identificar se o sinal é de um planeta verdadeiro ou um falso positivo”, detalha.
De acordo com Alice, o uso da IA é fundamental para agilizar as análises.
“O volume de dados é enorme e há poucas pessoas dedicadas à área. A inteligência artificial otimiza o processo e reduz significativamente o tempo necessário para examinar as observações”, afirmou.
Propulsão elétrica para satélites
Aluno do último semestre de Engenharia Aeroespacial na Universidade de Brasília (UnB), Jonatha Willian integra uma equipe que pesquisa propulsão elétrica para satélites, no Laboratório de Física dos Plasmas.
O foco do grupo é desenvolver propulsores do tipo Hall, tecnologia já consolidada em satélites de grande porte, mas agora adaptada a pequenos satélites, conhecidos como CubeSats.
O objetivo é miniaturizar componentes e embarcar tecnologia nacional nesses satélites, possibilitando testes em órbita e fortalecendo a indústria espacial brasileira.
“Queremos mostrar que é possível desenvolver soluções 100% brasileiras e acessíveis, sem depender de tecnologias estrangeiras”, explicou Jonatha.

Os propulsores elétricos utilizam gases nobres, como argônio, que, ao serem ionizados, produzem plasma — responsável por gerar o empuxo que mantém os satélites em órbita por mais tempo e corrige sua trajetória.
A pesquisa pode, no futuro, reduzir os custos de lançamentos e incentivar parcerias entre universidades, startups e o governo brasileiro no setor espacial.
Divulgação da ciência
Estudante do curso de Bacharelado em Física da Universidade de Brasília (UnB), João David Moreira integra o Grupo Astro.
O grupo atua no Observatório Astronômico Luiz Cruls, localizado na Fazenda Água Limpa, espaço dedicado à pesquisa e à popularização da astronomia.
“Inaugurado em 2016, o observatório foi idealizado pelos professores José Leonardo Ferreira e Iván Soares, mas acabou sofrendo danos estruturais durante a pandemia, após o impacto de raios e o fechamento temporário das atividades”, relembrou João.
Em 2023, o observatório começou a ser reativado, com apoio do professor José Leonardo e do Grupo Astro. A iniciativa busca revitalizar o espaço e aproximar o público da astronomia, especialmente estudantes da UnB e de escolas públicas.
“Nosso objetivo é despertar o interesse pela observação astronômica e fortalecer essa área dentro da universidade”, contou.
As atividades incluem observações de nebulosas, planetas e aglomerados estelares, além de eventos de extensão, como o “Eclipse Parcial do Sol”, realizado em 2023, que reuniu membros da comunidade acadêmica e visitantes externos.

Como se manter relevante na liderança em tempos de disrupção
Em outro painel desta quinta-feira, Ana Minuto consultora de Liderança, Diversidade e Carreira; Fernanda Campos, superintendente da Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (FIEMT) e do Instituto Euvaldo Lodi de Mato Grosso (IEL-MT); e Patrícia Becker, mediadora mestre em Estratégia (Governança em Relacionamentos Interorganizacionais) subiram ao palco BNDES para abordar o tema liderança.
Segundo Fernanda, o Mato Grosso possui 62% do território preservado. Isso significa que todo o aumento de produtividade no estado ocorreu graças ao uso de tecnologia e inovação, sem expandir áreas de produção. Esse processo, no entanto, exigiu muito das lideranças: fazer tecnologia sem deixar de ser humano.
Ela destaca que, no cenário atual, os líderes precisam conhecer e se interessar genuinamente por pessoas. Muitas empresas não conseguem avançar justamente por falta dessa sensibilidade. Para ela, a flexibilidade é um dos caminhos essenciais para o progresso.
Fernanda também lembra que mudanças políticas recentes impactaram diretamente as pautas de diversidade e inclusão dentro das organizações. “Nosso desafio é separar a diversidade como causa social do negócio em si, integrando as duas dimensões de forma equilibrada”, afirmou.

