Debate sobre marco da IA destaca equilíbrio regulatório e governança

Criação de fundo para direitos autorais está no centro do debate sobre o PL 2.338, que deve definir o papel do país na economia da IA

BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto
Talk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAI
1 de 1 Talk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAI - Foto: BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto

atualizado

metropoles.com

O Brasil entra em uma fase decisiva para definir como a inteligência artificial será desenvolvida e utilizada no país. Com o avanço do Projeto de Lei nº 2.338 na Câmara dos Deputados, que cria o marco regulatório da IA, o Metrópoles, em parceria com a OpenAI, promoveu na quarta-feira (4/2) o primeiro encontro do ciclo “Para onde vai a regulação da IA?”, iniciativa que terá novos debates nas próximas semanas.

Um dos convidados do debate – mediado pela jornalista do Metrópoles Vanessa Oliveira -, o relator da proposta na Câmara dos Deputados, Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), defendeu o equilíbrio regulatório e destacou que o principal desafio é acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas sem perder de vista a proteção das pessoas. “Vivemos num mundo de tecnologia que avança muito rapidamente, em velocidade vertiginosa. Vários países estão revisitando aquilo que fizeram, alguns inclusive mudando posições”, afirmou.

Segundo o parlamentar, a preocupação do Congresso é evitar regulações excessivamente restritivas que acabem comprometendo a competitividade do país. “Nós não queremos, por exemplo, fazer o que alguns países fizeram. Depois se arrependeram de ter avançado rapidamente achando que estavam no caminho certo e tiveram de fazer ajustes, inclusive com penalizações”, disse, ao citar casos em que o excesso de controle resultou em perda de inovação e geração de riqueza. Ele afirmou que prefere discutir mais uma semana a apresentar o texto de forma apressada.

A experiência da União Europeia, utilizada como referência na construção da legislação brasileira, foi destacada pelo diretor executivo do Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS), Fabro Steibel. “A União Europeia pesou a mão em pequenas e microempresas e precisou corrigir a rota.” Para Steibel, a rigidez excessiva pode inviabilizar startups, justamente onde a inovação tende a surgir com mais força. Ele defendeu mecanismos como moratórias temporárias e regras diferenciadas para pequenas e médias empresas, de modo a estimular a transferência de conhecimento da universidade para o mercado. “A regra tem que ser boa para todos, mas não necessariamente a mesma regra para todos”, resumiu.

O assessor especial do Ministério da Fazenda, Igor Marchesini, afirmou que o texto deve ser uma surpresa positiva para todos os setores e que uma regulação clara e flexível reduz o medo do desconhecido e cria segurança para o desenvolvimento de novos projetos.

“Existe o medo de não saber o que está por vir, mas uma regulação flexível dá coragem para investidores, empreendedores e pesquisadores seguirem tocando seus projetos. A questão central é previsibilidade e segurança jurídica. O combinado não sai caro.”

Governança, fundo para direitos autorais e classificação de risco

O deputado Aguinaldo Ribeiro destacou que o coração do projeto está na governança, capaz de se adaptar à evolução tecnológica sem engessar a lei. Ele disse que existe a ideia de criar um fundo ligado aos direitos autorais e ao acesso a bases usadas no treinamento de IA, embora o desenho ainda não esteja fechado. O objetivo seria estabelecer uma “receita” associada ao acesso a esse banco de dados, com critérios de remuneração previsíveis.

“Nós já temos uma legislação de direitos autorais no país. Ela existe. Agora precisamos ver como adequar essa legislação.”

O parlamentar lembrou que ainda não há soluções definitivas no mundo e que “dados de qualidade custam dinheiro”. Para ele, uma lei engessada faria o Brasil perder velocidade em um campo que muda rapidamente, enquanto a governança permitiria ajustar critérios, proteger direitos fundamentais e, ao mesmo tempo, preservar o ambiente de investimentos.

“O caminho é o bom senso: diálogo com sociedade, governo e Parlamento para encontrar um equilíbrio que preserve a cultura, proteja o cidadão e permita que o Brasil não fique para trás.”
Talk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAI
O deputado Aguinaldo Ribeiro, relator do PL 2338, que institui o marco regulatório da inteligência artificial no Brasil na Câmara dos Deputados

Fabro Steibel aprofundou o argumento técnico ao afirmar que a regulação precisa reconhecer que nem todo dado é obra autoral e que simplesmente acumular grandes volumes de informação não garante uma IA melhor — o diferencial está em dados organizados e em novos arranjos tecnológicos, como agentes autônomos e sistemas que treinam outros sistemas. Para ele, esse cenário exige um modelo flexível, baseado em governança multissetorial, capaz de diferenciar o que já é conhecido do que ainda está em transformação.

O relator adiantou que o projeto caminha nessa direção: em vez de listas rígidas de aplicações “de alto risco”, a proposta aposta em uma governança permanente, com participação social e capacidade de reclassificar usos ao longo do tempo.

Talk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAITalk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAI
“Se queremos ter startups e médias empresas, que é onde a inovação acontece, precisamos favorecê-las. Se queremos levar o que está na universidade para dentro do mercado — essa tríplice hélice, como a gente chama —, precisamos desses incentivos”, disse o diretor-executivo do Instituto Tecnologia e Sociedade, Fabro Steibel (à direita)

Steibel alertou para o risco de uma classificação ampla demais de aplicações como “alto risco”. “Na primeira análise da União Europeia, 10% da IA era alto risco. Depois virou 18%. Na nossa análise, deu 35%, um terço do mercado. É sobre essa precisão de separar o joio do trigo que a gente precisa avançar.” Ele também destacou que o custo de conformidade pode consumir parte relevante do investimento inicial de startups e empresas inovadoras, reduzindo o número de novos projetos.

O Brasil como produtor — e não apenas consumidor — de IA

Representando o Ministério da Fazenda, Igor Marchesini afirmou que o Brasil reúne condições concretas para deixar de ser apenas consumidor de inteligência artificial e passar a ocupar uma posição mais ativa na produção da tecnologia. Ao detalhar o cenário brasileiro, chamou atenção para o alto nível de digitalização do setor público.

“O Brasil é um dos países com maior nível de digitalização do governo do planeta. Saúde, educação e segurança pública são setores em que o Estado é um grande comprador. A IA precisa dessas oportunidades.”

Compras públicas como política industrial

Marchesini comentou a proposta de ampliar o uso das compras públicas como instrumento de política industrial. “Uma das sugestões que o governo mandou para o Parlamento foi justamente um programa de compras públicas, replicando o sucesso que a gente teve na área da saúde.” Ele defendeu que o Estado tenha papel central nesse processo: organizar o ecossistema, dialogar com o Parlamento e criar um ambiente de previsibilidade para quem empreende, investe e pesquisa.

Talk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAITalk do Metrópoles “Como criar uma IA brasileira?”, em parceria com a OpenAI
Ao centro, representando o Ministério da Fazenda, o assessor especial Igor Marchesini

O Brasil em cinco anos

Ao encerrar o debate, os participantes projetaram o futuro da inteligência artificial no país. Para Aguinaldo Ribeiro, o objetivo é colocar o Brasil “na ponta”, transformando talento, dados e consumo estatal em fomento e infraestrutura. Igor Marchesini destacou o potencial da IA como ferramenta para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida. Já Fabro Steibel reforçou a necessidade de construir um caminho próprio: “Não precisamos copiar Europa, China ou Estados Unidos. Precisamos fazer algo com a nossa cara.”

Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra a importância da IA para o brasileiro

Antes mesmo de o Congresso Nacional definir as regras da inteligência artificial no Brasil, a tecnologia já faz parte da rotina de quase oito em cada 10 brasileiros.

Dados do Instituto Locomotiva mostram que 78% da população afirmam que a IA já integra o cotidiano; 80% acreditam que saber usar a tecnologia amplia oportunidades no mercado de trabalho; e 75% confiam no uso da inteligência artificial para melhorar os serviços públicos, inclusive no atendimento à população.

Talk: Como criar uma IA brasileira. Assista ao vídeo completo:

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?