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No Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil, jovens aprendem a transformar sucata de ferro em esculturas, produzem bordados, doces e licores. E vendem para clientes do Brasil – e mundo – inteiro.
Na Amazônia, comunidades ribeirinhas ao longo de mais de mil quilômetros do Rio Purus vivem da floresta sem destruí-la, processando cacau nativo, óleos e manteigas vegetais.
No Seridó potiguar, bordadeiras vestiram os uniformes do Brasil na abertura das Olimpíadas de Paris, em 2024. Em Porto Alegre, um grupo com 40 anos de história acolhe trabalhadores em situação de vulnerabilidade, ensina empreendedorismo com peças de teatro infantil e usa drones para limpar fachadas de prédios.
O que todas essas histórias têm em comum? A cooperativa no centro delas.
O cooperativismo
Para uma parte significativa dos brasileiros, o cooperativismo é o único modelo que atende às necessidades e contribui para o desenvolvimento deles.
Diferente de uma empresa comum, a cooperativa não tem dono, não tem foco no lucro e não existe para beneficiar ninguém além dos próprios cooperados.
Quando um motorista, por exemplo, se associa a uma cooperativa, ele não está contratando um empregador: está se unindo a outros profissionais para ter acesso coletivo a clientes, infraestrutura de cobrança e representação de mercado que jamais teria sozinho.
O mesmo vale para o catador de material reciclável que se filia a uma cooperativa de reciclagem: ele ganha acesso a equipamentos, logística, negociação com compradores e, muitas vezes, à previdência social – direitos que a informalidade não oferece.
A Cootravipa, cooperativa gaúcha de limpeza urbana com mais de 40 anos de história, é um exemplo disso. Com mais de 3 mil cooperados, ela oferece acolhimento e ressocialização a trabalhadores em situação de vulnerabilidade, desempenhando, em muitos casos, o papel que caberia ao Estado.

Na Amazônia, a CoopAgi, cooperativa indígena de Pacaraima, em Roraima, que atua com o fornecimento de alimentos para escolas e instituições locais, vai além do trabalho: ela também integra a Operação Acolhida, do Exército Brasileiro, apoiando imigrantes e refugiados venezuelanos com alimentos e logística.
Os números do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, publicação oficial do Sistema OCB, organização que representa o modelo no país, revelam um setor com presença onde poucos chegam: as cooperativas brasileiras estão ativas em mais de 3.500 municípios do país, incluindo cidades pequenas e regiões remotas que o mercado convencional ignora.
No setor de saúde, as cooperativas respondem por 33% do mercado de saúde suplementar. Boa parte desse atendimento ocorre por meio de médicos cooperados que, sem a estrutura coletiva, não teriam como ofertar serviços de forma organizada em cidades menores.
As cooperativas de infraestrutura atendem 806 municípios no interior do país e são referência nacional no índice de satisfação do consumidor da Aneel. As de transporte movimentaram cerca de 450 milhões de toneladas de carga em 2024.
No total, o setor reúne cerca de 26 milhões de cooperados, um crescimento de 66% desde 2019 – e gerou mais de 578 mil empregos diretos no último ano. Desses empregos, 52% são ocupados por mulheres.
No Seridó potiguar, a Comart é um caso que ilustra como uma cooperativa pode levar uma tradição local ao mundo. Fundada por bordadeiras, a cooperativa se tornou referência nacional e internacional no artesanato em bordado.
Em 2024 produziu as peças exclusivas que vestiram a delegação brasileira na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris. Sua Casa das Bordadeiras funciona como centro de qualificação e emprega e capacita centenas de profissionais, na maioria mulheres, muitas delas na terceira idade.
No Vale do Jequitinhonha, a Dedo de Gente faz algo parecido em uma das regiões mais vulneráveis do país: oferece a jovens a oportunidade de gerar renda por meio da produção artesanal, como esculturas em sucata, bordados, doces, licores, associada à formação em artes, cinema e tecnologias digitais. Os produtos são vendidos no Brasil e no exterior. Uma cooperativa que, ao mesmo tempo, preserva cultura e abre mercado.
Na Amazônia ocidental, a Cooperativa Amazônia Cooperar existe desde 2003 com uma missão incomum: manter a floresta em pé enquanto gera renda. Envolvendo 65 comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Purus, a cooperativa processa cacau nativo, madeiras tropicais, óleos e manteigas vegetais na filial agroindustrial em Boca do Acre
“Levar um pouquinho da floresta viva aos clientes” — essa é a síntese da cooperativa. É também a síntese de um modelo que prova ser possível crescer sem devastar.

Em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, a COAGRO nasceu em 2002 do colapso do setor sucroalcooleiro que havia destruído empregos e empobrecido a região por décadas.
Composta por mais de 11 mil associados, 95% deles pequenos produtores de cana, a cooperativa reativou usinas paralisadas, gera em média 3 mil empregos diretos e indiretos por ano e acaba de fechar parceria para construir a primeira biorrefinaria de biometano do Norte Fluminense. Uma cooperativa que transformou crise em projeto de futuro.
Há um dado que diz muito sobre a solidez do modelo: enquanto apenas 37% das empresas comuns sobrevivem após cinco anos de operação, existem hoje 2.342 cooperativas brasileiras com mais de 20 anos de atividade. Isso corresponde a quase metade do total ativo no país.
A cooperativa não depende de um único dono para sobreviver, não está sujeita à lógica do lucro imediato e responde diretamente aos interesses de quem dela faz parte.
Onde tem cooperativa, os efeitos se espalham: segundo estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), municípios com presença cooperativa apresentam, em média, PIB per capita R$ 5,1 mil maior, 28,4 empregos a mais por 10 mil habitantes e mais estabelecimentos comerciais ativos do que cidades sem cooperativas.
O cooperativismo não é uma solução nova. Mas, continua sendo, para milhões de brasileiros, a mais eficaz. Não porque seja perfeita. E sim porque parte de um princípio que o mercado raramente pratica: o de que quem trabalha junto cresce junto.
