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Ao longo da minha trajetória na educação, tenho observado que muitas escolas ainda priorizam o método, o material didático e o conteúdo, mas deixam de enxergar o principal: o aluno.
É comum ouvirmos que os estudantes estão dispersos, desinteressados ou indisciplinados e, diante disso, surge o discurso de que “antigamente era diferente”.
Entretanto, mais do que buscar respostas no passado ou esperar que um método resolva todos os problemas, precisamos aprender a reconhecer quem está diante de nós.
Quando ouvimos a história de uma criança, suas vivências, medos, contexto familiar, compreendemos que a sala de aula é um espaço onde identidades e realidades diversas se encontram.
A neurociência reforça essa visão ao mostrar-nos que o desenvolvimento humano é um processo contínuo e que cada cérebro aprende de maneira singular. Por isso, conhecer o aluno é essencial para promover ambientes de aprendizagem significativos, mais importante até do que a escolha do livro ou da metodologia. Na Fundação Bradesco olhamos o aluno de forma integral e com esse propósito impactamos positivamente, todos os anos, a vida de mais de 42 mil crianças e adolescentes em nossas 40 escolas próprias em todo o país.
Hoje, convivemos com diagnósticos diversos, como TDAH, TEA, dislexia, altas habilidades, entre outros. No entanto, muitos professores não sabem o que fazer com essas informações no cotidiano escolar.
Frequentemente, esperam “receitas prontas” vindas da neurociência, como se ela pudesse oferecer soluções imediatas. Mas, a verdade é que a pedagogia é quem nos ensina a transformar conhecimento científico em estratégia prática. A neurociência não substitui o professor, mas amplia sua visão, oferecendo fundamentos para escolhas metodológicas mais conscientes.
As orientadoras pedagógicas, educacionais e os diretores das escolas da Fundação Bradesco, em conjunto com os times de Governança e Socioemocional, acompanham os alunos de forma individual e coletiva, atuando em casos relacionados à saúde mental e inclusão, além de promoverem a educação socioemocional no cotidiano escolar.
Quando compreendemos como o cérebro aprende, percebemos que todos os alunos, com ou sem diagnósticos, se beneficiam de abordagens que utilizam estímulos visuais, auditivos e táteis, além do uso do humor, da afetividade e de referências que façam sentido para eles.
Quanto mais variadas forem as estratégias utilizadas, maiores são as chances de alcançarmos diferentes formas de aprender. Aqui, contamos com o time do ensino que acompanha o trabalho pedagógico realizado com os alunos.
A neurociência traz para a sala de aula conhecimentos fundamentais sobre memória, atenção, sono, emoções, linguagem, funções executivas e desenvolvimento cerebral.
Saber que o cérebro é plástico, ou seja, que ele continua aprendendo e se transformando ao longo de toda a vida, muda nossa compreensão sobre dificuldades escolares.
Não há ponto final para a aprendizagem, mas sim caminhos múltiplos. A experiência inclusiva comprova isso: quando ajustamos o modo de ensinar, muitos alunos alcançam resultados que antes pareciam improváveis.
Além disso, os desafios contemporâneos reforçam ainda mais a importância dessa perspectiva. O uso crescente de tecnologias, o impacto das emoções na aprendizagem e as questões relacionadas à saúde mental de estudantes e professores se tornam cada vez mais centrais na educação.
A neurociência tem pesquisado esses temas de forma consistente e pode contribuir para práticas mais humanas, equilibradas e eficazes.
Gosto de lembrar uma frase do neurologista Oliver Sacks: “O desafio terapêutico pode ser sintetizado por: apenas conecte.”
Esse é, também, o desafio educacional. Ensinar é estabelecer conexões entre o aluno e o conhecimento, entre a teoria e a vida, entre o que sentimos e o que pensamos.
Quando um professor me pergunta o que fazer quando uma estratégia não funciona, eu sempre digo: pergunte ao aluno. Ele é parte ativa do processo. Quando explicitamos metas, explicamos expectativas e escutamos suas percepções, criamos um ambiente mais claro e participativo.
E a aprendizagem acontece de maneira mais profunda. No trabalho coletivo que realizamos em sala, além dos comitês estudantis no Ensino Médio, temos muitas boas práticas de escuta e participação dos nossos alunos, trabalhando valores como o respeito, ouvindo a todos os envolvidos e promovendo experiências saudáveis, positivas e exemplares.
Conhecer o aluno é permitir que ele também se reconheça. É ajudá-lo a perceber que é capaz, que está em constante evolução e que seu percurso faz sentido. Não é um trabalho simples, exige sensibilidade, tempo, consistência. Mas, é nisso que reside a força transformadora da educação.
Tenho convicção de que muitos professores já são autores e atores fundamentais na vida de seus alunos. Eles criam vínculos, abrem portas, despertam talentos.
Quando acolhemos a ciência para iluminar nossas escolhas pedagógicas, ampliamos muito essa potência. A educação se torna, então, não apenas transmissora de conteúdo, mas promotora de desenvolvimento humano em sua forma mais plena.
* Por Katia Chedid, líder de governança educacional da Fundação Bradesco e especialista em Neurociência aplicada à educação

