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Amazônia 2050: plano mira em desenvolvimento sustentável e bioeconomia

Agenda Zona Franca de Manaus 2050 propõe integrar ciência, indústria e floresta para gerar renda e desenvolvimento sustentável

Rafael Vilela for The Washington Post via Getty Images
Curvas dos rios Ituí e Itaquaí, nas Terras Indígenas Vale do Javari - Metrópoles
Conteúdo Especial11/06/2026 11:47, atualizado 11/06/2026 12:11
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Como transformar a riqueza natural da Amazônia em desenvolvimento para quem vive na região e em crescimento econômico para o país? A pergunta norteou os debates do lançamento da Agenda Zona Franca de Manaus (ZFM) 2050, promovido na última terça-feira (10), em Brasília (DF).

Elaborada pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) e pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), a Agenda ZFM 2050 reúne diagnósticos e propostas para os próximos 25 anos. 

O documento propõe uma estratégia de longo prazo para ampliar a competitividade regional, diversificar a economia e transformar a biodiversidade, ciência e indústria em vetores de crescimento sustentável.

A iniciativa parte da avaliação de que a Amazônia reúne ativos estratégicos para o Brasil e para o mundo, mas ainda enfrenta desafios históricos relacionados à infraestrutura, logística, inovação e desenvolvimento social.

Ao longo do evento, especialistas e representantes da indústria e do Poder Público defenderam que a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico não devem ser tratados como objetivos opostos.

Economia regional 

No encontro, o presidente da Fieam, Antônio Silva, afirmou que o debate sobre o futuro da Amazônia exige participação ativa da região nas decisões nacionais.

Ao destacar a importância econômica do modelo, Silva apresentou números que, segundo ele, ajudam a explicar a relevância da Zona Franca para o desenvolvimento regional.

Foto colorida do presidente do Fieam - Metrópoles

“Em 2025, tivemos um faturamento superior a US$ 41 bilhões e mais de 132 mil empregos diretos. Além de 600 mil postos de trabalhos indiretos induzidos em toda a Zona Franca de Manaus.”

Antônio Silva, presidente da Fieam

Na avaliação do dirigente, a atividade industrial ajudou a criar um ambiente econômico capaz de gerar negócios, emprego e arrecadação mesmo diante de obstáculos logísticos que diferenciam a região do restante do país.

Visão estratégica 

Diante do impacto que já existe, a criação de uma estratégia a longo prazo é de extrema importância para o desenvolvimento da região.

“Esse documento representa um compromisso inadiável com o futuro da Amazônia e, com isso, com o futuro do Brasil”, afirmou Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do Cieam. 

Luiz ainda destacou que a preservação das garantias constitucionais da Zona Franca durante a tramitação da Reforma Tributária abriu espaço para que a discussão avançasse para novos temas, como diversificação produtiva, inovação e competitividade.

“A Zona Franca de Manaus é uma política de Estado. O documento nos convida a olhar além das urgências e além dos ciclos eleitorais. Construir uma visão de longo prazo é uma estratégia sólida e ambiciosa.”

Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do Cieam

Ao apresentar os objetivos centrais do estudo, o dirigente defendeu maior integração entre indústria, ciência e pesquisa. 

“Precisamos promover a diversificação, conectando a indústria à ciência. O desafio é transformar a floresta em pé em grandes ativos econômicos”, frisou.

Diagnóstico econômico 

O diagnóstico econômico que fundamenta a proposta foi apresentado por Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Ao analisar o cenário nacional, o economista chamou atenção para os efeitos da desaceleração econômica e da perda de participação da indústria na economia brasileira.

“O Brasil desacelera e faz uma desindustrialização de forma prematura, antes mesmo de atingir uma renda per capita alta. Corremos o risco de nos tornar um país envelhecido e pobre”, alertou.

Segundo Holland, documentos como a Agenda ZFM 2050 ganham relevância por apresentarem propostas de desenvolvimento em um momento em que o país busca novos caminhos para ampliar a competitividade.

Bioeconomia 

A discussão sobre diversificação econômica foi aprofundada pela empresária Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes, ex-deputada federal e ex-superintendente da Suframa.

Segundo ela, um dos erros mais frequentes nos debates sobre a região é ignorar as especificidades territoriais, logísticas e sociais.

“Há um grande equívoco em querer comparar a Amazônia com o resto do país. Nós vivemos em uma região que tem desafios permanentes”, ressaltou.

Rebecca destacou que a Zona Franca continua sendo o principal instrumento de ocupação econômica formal da região e defendeu o aperfeiçoamento.

“Não existe nenhuma economia formal que ocupe a Amazônia como a Zona Franca ocupa. O documento traz uma oportunidade de aperfeiçoar um modelo que não é perfeito”, acrescentou.

Ao comentar as perspectivas para a bioeconomia, a empresária lembrou que a Amazônia reúne uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, mas ainda enfrenta gargalos que limitam o aproveitamento econômico.

“A Amazônia é um grande celeiro de biodiversidade. Mas, precisamos avançar em educação formal, eficiência energética, infraestrutura e logística de escoamento.”

Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes

Ela também defendeu maior integração entre setor produtivo e governo na gestão dos recursos destinados ao desenvolvimento regional.

“O que a gente precisa é de planejamento. É uma contribuição da indústria, e ao lado da indústria precisa do acompanhamento do governo. Precisa ser compartilhada essa governança”, ponderou.

Logística amazônica 

O deputado federal Capitão Alberto Neto ressaltou que o Amazonas preserva cerca de 97% da cobertura florestal e argumentou que as particularidades amazônicas precisam ser consideradas na formulação de políticas públicas.

Ao abordar as dificuldades de mobilidade e integração regional, resumiu uma realidade cotidiana para milhões de amazônidas: “Nossas estradas são os rios”.

Segundo o parlamentar, a falta de investimentos permanentes em hidrovias e dragagem compromete o abastecimento e o deslocamento de pessoas em diversas localidades durante os períodos de estiagem.

Representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o subsecretário de Ciência e Tecnologia para a Amazônia, Dorival da Costa dos Santos, citou os impactos econômicos, sociais e ambientais produzidos pela Zona Franca ao longo das últimas décadas.

“É o maior experimento de desenvolvimento do mundo. Produzimos bens de ponta e geramos retorno econômico, industrial e social”, declarou. 

Ao mesmo tempo, defendeu que a preservação ambiental continue sendo o eixo central das estratégias voltadas para a região. “Sem a floresta em pé não há economia.”

Dorival também defendeu uma política de integração dos modais hidroviário, rodoviário e aeroviário como condição necessária para ampliar a competitividade regional.

No término dos debates, uma mensagem se repetiu entre empresários, especialistas e representantes do governo: o futuro da Amazônia dependerá da capacidade de transformar biodiversidade, conhecimento científico e capacidade industrial em oportunidades para a população.

Para os defensores da Agenda ZFM 2050, esse processo exige planejamento de longo prazo, investimentos estruturantes e uma estratégia capaz de conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.