atualizado
Estima-se que aproximadamente 15% da população mundial seja neurodivergente. Ainda assim, a presença deles no mercado de trabalho ainda enfrenta desafios relacionados à falta de compreensão sobre as características de cada variação neurológica.
O cenário aborda ambientes profissionais pouco adaptados e levanta uma reflexão: como o mercado de trabalho está preparado para lidar com profissionais que apresentam diferentes formas de pensar, interagir e resolver problemas? A resposta dessa provocação foi destrinchada no Educa Talks, encontro produzido pelo Metrópoles em parceria com o Centro Universitário Euroamericano (Unieuro) na quinta-feira (1º/4). O bate-papo contou com a participação do psicólogo Gustavo Tozzi.
Para o especialista em análise do comportamento aplicada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), um dos fatores que tem ampliado o debate sobre neurodivergência é o aumento dos diagnósticos em adultos.
Mudanças nos critérios dos diagnósticos ao longo das últimas décadas têm contribuído para que muitas pessoas passem a compreender características do espectro autista apenas na vida adulta, o que impacta diretamente nas trajetórias pessoais e profissionais.
Em paralelo, também há habilidades geralmente associadas a esses perfis, como alto nível de concentração, atenção a detalhes, pensamento analítico e criatividade, que contribuem para ambientes de trabalho mais inovadores e diversos.
Assista ou reveja o conteúdo:
Múltiplas neurodivergências
Para iniciar o bate-papo, Tozzi explicou o verdadeiro conceito de neurodivergência, que inclui o autismo, o TDH, o transtorno de déficit de atenção e o transtorno de aprendizagem, como a dislexia. Segundo o especialista, o termo é amplo e engloba muitas pessoas, por isso trata-se de uma neurodiversidade.
“A palavra não é comum em manuais psiquiátricos, porque ela vem escrita como ‘transtorno de desenvolvimento’, que é justamente para caracterizar o prejuízo causado pelos transtornos”, explicou.
O psicólogo também identificou o motivo de uns tempos para cá, ter um aumento de diagnósticos em adultos. “São múltiplos fatores, mas dois motivos principais justificam bem esse cenário: maior busca por avaliação e melhora no diagnóstico por parte dos profissionais”, reforçou.
Hoje, o autismo é prevalente. Segundo dados do IBGE de 2025, é 1 caso para 38 pessoas.
Adaptação corporativa
Na visão do psicólogo, o mercado não está preparado para a mão de obra neurodivergente. “Não só o mercado, mas o ambiente acadêmico que antecede essa etapa também. Ainda vivemos uma sucessão de falhas quanto ao acolhimento dessas pessoas”, afirmou.
Quanto ao mundo corporativo, é necessário que as empresas compreendam as necessidades desse perfil, reforça o psicólogo. “Às vezes, aquela pessoa vai precisar de um acompanhamento in loco. Ou seja, a empresa tem que ter o cuidado nas adaptações”, reiterou.
“Para cadeirante e cego, já é mais fácil pensar nas medidas, como rampa, piso tátil, braille. Mas, e quando as barreiras são sensoriais, como luzes e sons?
Psicólogo Gustavo Tozzi
Sendo assim, na visão de Tozzi, o mercado deve despertar o interesse por esse perfil de funcionário.
“O que se pensa, hoje, é sobre o custo com essas pessoas, porque deve haver todo um preparo. Mas, é preciso entender que essas pessoas geram muito retorno. Elas são disciplinadas, meticulosas e organizadas. Por isso, já estamos nos movendo para formalizar projetos de lei que deem incentivos fiscais a empresas para acolherem neurodivergentes”, evidenciou.
Outro fator alarmante é a falta de adaptação em processos seletivos. “O ideal é que as perguntas de um possível teste sejam enviadas ao neurodivergente antes, para que eles possam se preparar bem. Além disso, é interessante passar informações completas das vagas, como modelo de trabalho, salário, endereço. E o melhor para o autista é que todas as informações sejam por escrito. Tudo isso interfere”, exemplificou.
“Aquilo que é bom para neurodivergentes, é ótimo para todas as pessoas.”
Inclusão
O psicólogo aproveitou para dar alguns bons exemplos de inclusão.
“Um pai, nos Estados Unidos, soube do hiperfoco do filho em água, e abriu um lava-jato para ele. Já em outro caso, um pai cujo filho é autista resolveu contratar só pessoas autistas para trabalhar na pizzaria da família”, explorou.
“Não podemos praticar o capacitismo, sabe? Que é o estereótipo de que todo mundo que tem diagnóstico funciona da mesma forma. Não é todo autista que não gosta de socializar”, afirmou.
Para o especialista, quando há mais inclusão, a sociedade está mostrando o que ninguém mostrava antes. Com isso, o mercado amplia os horizontes de possibilidades e quebra preconceitos.
O acolhimento, então, não deve acontecer somente na cultura empresarial. Ele deve vir desde o ambiente acadêmico, por isso, a verdadeira inclusão é quando há um caminho em via dupla. “E a inclusão é comportamental, não geográfica. Não basta que a pessoa esteja só ali no presencial. Ela precisa vivenciar as adaptações”, reiterou.
Inclusive, na visão dele, há cursos técnicos que acolheriam muito bem os interesses hiperfocados dos neurodivergentes, como o audiovisual. “Há pessoas autistas que, desde pequenas gostam de práticas que casam com a área”, assegurou.
Na prática
Na experiência profissional de Tozzi, a inclusão é algo muito natural. “Na minha equipe há pessoas autistas, com TDH. E a gente consegue fluir e produzir de forma muito satisfatória”, relatou.
Nos dias atuais, Tozzi ressaltou que o maior erro da sociedade ainda é a exclusão.
“Precisamos de mais neurodivergentes na política, trabalhando por políticas públicas, ou aqui como estou, dando entrevista e debatendo sobre. Elas sentem na pele; no dia a dia, então têm local de fala”, pontuou. “Convido grandes empresas a verem modelos de trabalho para neurodivergentes mundo à fora; e o quanto dá certo. Vamos importar essas ideias”, completou.
Já para os próprios neurodivergentes, ele deixa um recado: “Procurem por programas de contratação para pessoas com esse perfil, como a Specialisterne, com forte atuação no Brasil, além de buscar por suporte clínico e terapêutico”, finalizou.
Educa Talks
O Educa Talks nasceu do compromisso do Centro Universitário Euroamericano (Unieuro), em parceria com o Metrópoles, com a disseminação de conhecimento que ultrapassa as salas de aula.
A cada episódio, o projeto convida vozes inspiradoras para discutir temas urgentes como ciência, saúde, tecnologia, meio ambiente e, agora, humanidade.
A iniciativa reforça o papel da instituição como um polo de pensamento crítico e inovação educacional no Brasil. E a cada episódio, convidados batem papos inspiradores e informativos, conectando especialistas e a sociedade a temas que impactam diretamente o nosso futuro coletivo.







