Quem é Primo, alvo da Carbono Oculto que virou um mito nos canaviais de SP
Ex-“salvador” das usinas e foragido, Primo é acusado de chefiar, com Beto Louco, esquema bilionário de fraudes em combustíveis

Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, foi tratado como salvador de usinas do interior paulista que estavam crise. Acusado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) de chefiar, junto com Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis, o empresário atualmente está foragido.
Em Catanduva, no interior de São Paulo, João Mourad – como é conhecido na região – ainda é lembrado como o empresário que ressuscitou usinas paradas. Por quase dois anos, foi visto como o salvador da economia local. O apelido de Primo veio do hábito de chamar os outros dessa forma. A alguns usineiros, apresentava-se como Antônio.
Essa e outras histórias sobre a trajetória de Primo e Beto Louco e o impacto da Carbono Oculto no interior paulista estão na série especial do Metrópoles “Do canavial à Faria Lima”. O primeiro capítulo foi publicado nesta quarta-feira (28/10).
Primo foi um dos principais alvos da Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pelo MPSP. Ao lado de Beto Louco, Primo chefiou o núcleo do esquema considerado a maior ação contra a infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país, segundo as investigações. Os dois foram denunciados pelo MPSP em setembro de 2026 por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPrimo começou em postos de bandeira branca e empresas de produtos químicos. Em 2020, a dupla comprou a formuladora Copape e a distribuidora Aster e, depois, passou a investir nas usinas de cana. Quando a operação estourou, ele controlava cinco: Itajobi, Catanduva, Carolo, Rio Pardo e Furlan. Segundo as investigações, o grupo movimentou ao menos R$ 54 bilhões em fraude tributária, lavagem de dinheiro e estelionato.
O estilo misturava informalidade e ostentação. Primo andava de jatinho e fechava negócios em jantares no Lassù, restaurante com selo do Guia Michelin no topo do Edifício K1, na zona norte de São Paulo. O prédio, aliás, era o “hub” de empresas e fundos do grupo.
Em Catanduva, ficou o símbolo dessa ambição: um esqueleto de 6 mil metros quadrados, a “sede” do Grupo Itajobi, bloqueado pela Justiça na primeira fase da operação. O terreno foi comprado por R$ 3,9 milhões, por meio de empresa de fachada.
O “mito” também se explica pela imagem que ele cultivou entre os produtores. Ao reativar a usina Catanduva, do grupo Virgolino de Oliveira, investiu ao menos R$ 43 milhões. Negociava pessoalmente o preço da cana.
“Ele fazia questão de centavos”, conta um agricultor, para quem a imagem de dinheiro fácil associada ao PCC não combinava com alguém que “brigava por porcaria”. O contrato foi encerrado unilateralmente, e a Virgolino de Oliveira calcula prejuízo de R$ 50 milhões.
A defesa de Primo e Beto Louco nega ligação com o PCC. Os investigadores admitem que a dupla não integra a facção, mas afirmam que os grupos agiam em conjunto quando havia interesses coincidentes.
Um ano depois, a Usina Itajobi demite, e trabalhadores de Elisiário e Marapoama convivem com o desemprego. Na avenida principal, entre murmúrios, a dúvida que persiste é se ele “era mesmo do PCC”.
O que dizem os envolvidos
Nota da defesa de Mohamad Hussein Mourad:
A defesa de Mohamad Mourad esclarece que as recentes veiculações na imprensa sobre suas atividades empresariais contêm narrativas especulativas que não encontram respaldo nos autos do processo.
A reportagem publicada pelo portal Metrópoles extrapola o próprio objeto da acusação formalizada pelo Ministério Público. Cabe destacar que a denúncia recém-oferecida sequer imputa ao investigado qualquer vínculo com organizações ou facções criminosas — tema sobre o qual a referida matéria insiste em construir ilações infundadas.
A defesa repudia tentativas de criar um julgamento público antecipado e reforça que todas as atividades empresariais de Mohamed Mourad foram exercidas com estrita regularidade e respaldo documental. A legalidade de suas condutas e sua inocência serão devidamente comprovadas no âmbito do processo judicial.
Nota da defesa de Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, o Beto Louco:
“A defesa do empresário Roberto Leme esclarece que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e responderá a todas as acusações no momento processual oportuno.
E rejeita a disseminação de informações parciais e incompletas, uma prática que ataca a reputação dos empresários e prejudica sua defesa antes de serem apresentadas as contestações.
Por exemplo, é um erro grave tentar estabelecer alguma relação entre o empresário e a facção criminosa PCC. Não há nenhuma evidência que confirme essa falsa afirmação em nenhuma das investigações em curso”.
Grupo Itajobi:
O advogado William Martinez, que representa a Usina Itajobi, nega qualquer vínculo com o PCC e afirma que as vinculações entre a usina e a facção na imprensa após a deflagração da Carbono Oculto causaram danos reputacionais à empresa.
Do Canavial à Faria Lima
O Metrópoles inicia nesta quarta-feira (28/07) uma série de reportagens sobre as consequências da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação de combate à infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.
Deflagrada em agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), a operação expôs um grupo criminoso que controlava canaviais, usinas, distribuidoras de combustíveis e postos de gasolina – eram centenas de empresas enredadas em uma teia complexa de fraudes, sonegação de impostos e ocultação de patrimônio. A rede se estendia dos canaviais do interior paulista às fintechs da Faria Lima.
A estimativa dos investigadores é que o império comandado por Primo e Beto Louco tenha movimentado R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024, sendo que ao menos R$ 8,4 bilhões foram desviados em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Em muitos pontos, os negócios da dupla se cruzam com os de personagens acusados de pertencer ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As defesas, entretanto, negam que haja essa ligação.
A apuração do Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do MPSP e da Polícia Federal (PF) para entender os impactos da rede criminosa. Também entrevistou usineiros, agricultores, empresários do setor de combustíveis e autoridades públicas para detalhar os prejuízos causados à sociedade pelo crime organizado.
Pouco mais de um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco seguem foragidos, trabalhadores rurais tentam receber indenizações, alguns postos ligados ao grupo seguem funcionando sem autorização. O que mudou foi a expertise gerada na Carbono Oculto aos investigadores, que permitiu desvelar outras fraudes financeiras. Além disso, a arrecadação dos estados com combustíveis cresceu em todo o país, mostrando que a operação conseguiu, ao menos em parte, coibir a criminalidade no setor.

