
Tiago PavinattoColunas

Lula é o novo Lampião?
O presidente Lula se comparou a Lampião em recente fala sobre a relação com Donald Trump
atualizado
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Ambos são pernambucanos: Luiz Inácio [Lula] da Silva é natural de Caetés (em 1945, ano de seu nascimento, era distrito de Garanhuns) enquanto Virgulino Ferreira da Silva [Lampião] nasceu em Serra Talhada.
250 quilômetros separam uma e outra cidade: subtraído o valor numerológico dessa distância (2+5+0=7) do ano de nascimento do Presidente (1945), encontramos, coincidentemente, o ano da morte do Rei do Cangaço (1945-7=1938). Não bastasse, Maria de Déa, mulher de Virgulino, primeira-dama do cangaço, era famosa, no sertão, por seu deslumbramento caro, mas nada refinado.
Entretanto, coincidências bobas e banais. Coincidências irrelevantes diante da gravidade da revelação de Lula da Silva às vésperas do Carnaval deste ano de 2026:
“Sou muito tinhoso, sabe. Se o Trump conhecesse, sabe, o que é que é a sanguinidade de um Lampião num Presidente, ele não ficaria provocando a gente.”
À plateia, Lula apresenta-se. Sem meias palavras, com galhardia, o Presidente diz quem ele, realmente, é: um sujeito tinhoso com a sanguinidade de Lampião.
No coloquial, “tinhoso” é substantivo masculino que significa “diabo, coisa-ruim, sete-peles, satanás, demônio”; todavia, em razão do adjetivo “muito” (muito embora empregado coloquialmente), aceitemos que o “tinhoso” de Lula tenha a função de adjetivo e, nesse diapasão, Lula se apresenta como “muito teimoso, insistente, obstinado”.
Mas Lula teima no Tinhoso, o com “t” maiúsculo; Lula insiste em ser o Diabo. Não apenas obstinado, Lula confessa ser um demônio de modo predestinado: sua “sanguinidade”, isto é, sua assumida consanguinidade com Lampião informa à plateia que ou ele carrega nas veias, e tem no seu DNA, a psicopatia do maior satanás do sertão ou, por identidade de caráter, guarda intensa afinidade com o bandido mais sanguinário da nossa História.
Sobre a psicopatia, apesar de não empregado este exato vocábulo à época, é farta a literatura psiquiátrica contemporânea a definir Lampião com as seguintes expressões equivalentes: “louco moral”, “anormal perverso”, “doente social” e “inválido moral.”
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi um terrorista mercenário que extorquia os ricos e destroçava os pobres com sadismo bestial; um criminoso serial que promoveu a simbiose entre o cangaço e o coronelismo, tornando-se ele próprio um coronel itinerante de coronéis sedentarizados; um agente da miséria a soldo dos donos do poder que sempre lucraram com essa miséria: enquanto Lampião compartilhava com eles, os ricos, esse lucro, o proletariado miserável, pobre e mediano, era vítima desse cangaceiro parasitário e sádico.
A falsa estética do seu heroísmo, a grande mentira do mito de Lampião, foi engendrada pelo comunismo brasileiro em meados da década de 1920. Fake news perversa, o retrato de Lampião como herói ou injustiçado ou qualquer coisa que o valha é, em última análise, um fenômeno produzido pela estupidez humana canalizada para o coletivo da esquerda brasileira em detrimento das suas incontáveis vítimas, que, até hoje, veem sangradas suas memórias sagradas.
Mesmo o celebrado historiador marxista britânico Eric Hobsbawm, entusiasta do banditismo social, rechaça o mito de Lampião: “Lampião assassinou um prisioneiro, embora sua mulher tivesse pagado o resgate pedido; massacrou trabalhadores; torturou uma velha que o amaldiçoara (sem saber de quem se tratava) fazendo-a dançar com um pé de mandacaru até morrer; matou sadicamente um de seus homens, que o ofendera, obrigando-o a comer um quilo de sal; e incidentes semelhantes. Causar terror e ser impiedoso é um atributo mais importante para esse bandido do que ser amigo dos pobres.”
Lampião e sua quadrilha dilapidaram os sertanejos impiedosamente. Em uma edição de 1936, lia-se no jornal soteropolitano A Tarde: “Lampeão reapareceu no Nordeste. Com uma fúria nova, um ódio mais vivo, uma perversidade mais deshumana. Já não se contenta em assaltar fazendas e sítios; ataca villas e cidades. E o flagelo solto. Realiza o seu ciclo fatal. Destrói sistematicamente, por séries, com uma pontualidade de catástrofe prevista no barômetro.”
Em 15 anos, o bando de Lampião roubou tudo de valor dos pequenos e médios produtores nas zonas rurais dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Alagoas, Bahia, Rio Grande do Norte e Sergipe. Quando não encontrava nada de valor, mandava o pobre sertanejo, depois de comer o seu rebanho e estuprar as suas filhas (muitas marcadas a ferro em brasa), tomar empréstimo com agiotas.
Famílias inteiras fugiram do sertão antes ou depois de terem sido levadas à mais absoluta miséria pelo Rei do Cangaço. Entregou ao sertanejo somente os prejuízos materiais dos roubos e incêndios e os morais do medo, da morte, da desonra.
Dentro da sua associação criminosa cangaceira, as mulheres eram submetidas a violências constantes de seus machos. Elas só poderiam permanecer no grupo de Lampião se tivessem um cangaceiro como dono… e elas até podiam, contra a suas vontades, é claro, mudar de proprietário: se o seu macho morresse e ela não fosse desejada por nenhum outro cangaceiro, era deixada na mata como quem abandona um cachorro. Muitas das mulheres do cangaço chegaram ao bando sequestradas de suas famílias. Muitas delas estupradas ainda crianças, como Dadá, mulher de Corisco.
Graciliano Ramos, em 1938, foi categórico: “Lampião era um monstro, tornou-se um monstro, símbolo de todas as monstruosidades possíveis”. De fato, Lampião e seus cangaceiros nunca tiveram projeto; nunca passou pelas suas cabeças qualquer reforma ou revolução social; eram, única e tão somente, parasitas da pior espécie que já existiu.
Se Lula se compara ao Lampião, Lula é um parasita da pior espécie.
