Ex-presidente dos Correios depõe à PF por suposta fraude em eleições
Procurador do MPF vê indícios de corrupção, prevaricação e falsidade ideológica; apuração foi aberta após denúncia de candidato derrotado

O ex-presidente dos Correios Fabiano Silva dos Santos (foto em destaque) prestou depoimento à Polícia Federal, em 9 de julho, em um inquérito que investiga suposta interferência na eleição de 2024 do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco).
A investigação foi instaurada a pedido do procurador Athayde Ribeiro Costa, que fez parte do núcleo duro da finada Operação Lava Jato. Em despacho obtido pela coluna, ele apontou “indícios mínimos” de corrupção, prevaricação e falsidade ideológica na relação entre a estatal e dirigentes do Sindifisco, que representa os servidores de uma das categorias mais bem pagas do país.

À coluna, o advogado Michel Saliba, que representa o ex-presidente dos Correios, afirmou que Athayde age por “vingança” (Fabiano é uma das principais lideranças do Grupo Prerrogativas, crítico da Lava Jato).
O Sindifisco afirma que a investigação representa uma nova tentativa de sustentar uma acusação de fraude que foi rejeitada em diferentes instâncias. Os Correios informaram que ainda não foram oficialmente notificados sobre o caso e que adotarão as medidas administrativas e legais cabíveis quando isso ocorrer.
O caso começou com uma acusação feita por George Alex Lima de Souza, candidato derrotado na disputa pelo comando do Sindifisco.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA denúncia sustenta que os Correios interferiram na eleição ao adotar um procedimento especial para receber cartas-respostas utilizadas na votação. A acusação percorreu diferentes instâncias desde então — e, segundo o Sindifisco, esta é agora a oitava frente aberta pelo candidato derrotado para tentar sustentar a mesma tese.

O episódio envolve uma operação realizada pela Agência Central dos Correios, em Brasília. Cartas que haviam sido postadas em outras cidades e chegado à capital sem o carimbo de origem receberam, em Brasília, um novo carimbo de recebimento.
O procedimento não estava previsto no serviço contratado pelo Sindifisco. A estatal informou inicialmente à Polícia Civil que havia concedido um “tratamento diferenciado” ao sindicato em razão da “longa parceria” entre as instituições. O serviço, segundo os Correios, foi realizado sem cobrança adicional.
A história ganhou outro contorno quando documentos apresentados em uma ação na Justiça Federal mostraram que o procedimento havia sido solicitado pelo então presidente do Sindifisco, Isac Falcão, diretamente a Fabiano.
O pedido chegou aos Correios em 25 de setembro de 2024. No mesmo dia, às 22h48, o diretor de Operações da estatal respondeu concordando com a solicitação. A orientação era para que as agências carimbassem, no recebimento, cartas que chegassem sem a marcação de origem.
O regulamento eleitoral do Sindifisco previa a validade das cartas mediante carimbo de postagem dentro do prazo. Ao receber uma correspondência sem essa marcação e colocar outro carimbo no espaço destinado à postagem, os Correios poderiam conferir aparência de regularidade a um voto que, pelas regras eleitorais, seria considerado inválido.
A Comissão Eleitoral identificou 117 cartas nessa situação e decidiu anulá-las. A decisão não foi suficiente para estancar a disputa que se arrasta desde então.
George levou a acusação aos mecanismos internos do sindicato, ao Ministério Público do Trabalho, à Polícia Civil, à Justiça do Trabalho, à Justiça comum, à Justiça Federal e ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Segundo o Sindifisco, nenhuma dessas iniciativas resultou no reconhecimento da fraude ou na anulação da eleição.
A Polícia Civil chegou a arquivar uma investigação sobre o episódio. Na Justiça, também houve decisões desfavoráveis à tentativa de anular o pleito. Mais recentemente, segundo o sindicato, o TJDFT analisou o processo eleitoral e confirmou a validade da eleição.
A história, porém, ganhou uma nova frente no Ministério Público Federal.
O procurador da República Athayde Ribeiro Costa decidiu levar adiante a apuração. Em despacho de março, ele rejeitou um pedido da própria Polícia Federal para reconsiderar a abertura do inquérito. Para Athayde, o fato de outras instâncias terem arquivado ou rejeitado as acusações não encerra a questão criminal. O ponto, segundo ele, é descobrir se houve uma eventual ingerência ilícita de dirigentes sindicais dentro dos Correios.
No despacho, o procurador apontou “indícios mínimos” de corrupção passiva e/ou ativa, prevaricação e falsidade ideológica.

Athayde também determinou novas diligências. A PF deverá reunir a investigação feita anteriormente pela Polícia Civil, analisar o processo que tramita na Justiça Federal e ouvir envolvidos no episódio.
Entre os depoimentos está o de Fabiano, que foi ouvido em 9 de julho. Também estão na mira das oitivas o diretor de Operações dos Correios Paulo Cesar Penha da Silva Júnior, a chefe de Atendimento Isabela Silva Caldeira e o ex-presidente do Sindifisco Isac Falcão.
Defesa de ex-presidente dos Correios nega irregularidades
A defesa de Fabiano contesta a investigação. Ao Metrópoles, o advogado Michel Saliba afirmou que o depoimento do ex-presidente dos Correios foi “extremamente claro” e classificou o caso como uma reação de adversários do grupo que comandava o Sindifisco.
Segundo Saliba, a acusação desconsidera que os Correios estavam em greve e que a medida adotada pela estatal tinha como objetivo evitar que votos fossem prejudicados por atrasos no serviço postal. O advogado também questionou a atuação de Athayde e disse que o procurador deveria avaliar eventual suspeição.
O Sindifisco vai além. Em nota, afirma que o caso representa a “oitava frente” aberta por George desde que perdeu a eleição de 2024. Para o sindicato, não há fato novo, mas uma tentativa de encontrar uma nova porta para uma acusação que já passou por diferentes órgãos públicos e tribunais sem prosperar.
A entidade afirma que o chamado “tratamento diferenciado” não favoreceu nenhuma chapa e ocorreu por causa da greve dos Correios, alcançando indistintamente as correspondências dos filiados.
Os Correios, por sua vez, informaram que ainda não foram oficialmente notificados sobre o caso. A estatal afirmou que mantém compromisso com ética, integridade e conformidade e que adotará as medidas cabíveis quando for formalmente comunicada.




