Rodrigo França

O que você come não é comida, é sabor comida

O alimento de verdade existe, mas não chega para todos. O que chega em massa é o ultraprocessado, mais barato, mais durável, mais rentável

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Comida não saudável: copo de refrigerante e diversos salgadinhos - Comida remosa existe ou é mito? Entenda o que a ciência sabe sobre - Metrópoles
1 de 1 Comida não saudável: copo de refrigerante e diversos salgadinhos - Comida remosa existe ou é mito? Entenda o que a ciência sabe sobre - Metrópoles - Foto: fcafotodigital/Getty Images

Quando você encontra “sabor chocolate”, “bebida láctea”, “preparado de fruta”, “requeijão cremoso tipo”, não está diante de categorias inocentes. Está diante de uma gramática industrial construída para contornar custo. Retira-se o ingrediente mais caro, de qualidade, substitui-se por derivados mais baratos e reconstrói-se a experiência com aditivos. O nome muda o suficiente para cumprir a lei, mas permanece próximo o bastante para não assustar quem compra.

O suco que não é suco. O iogurte que não é iogurte. O queijo que não é queijo. O pão que não é pão. O sorvete que não é sorvete. E o consumidor que já não sabe mais o que é alimento. Mas essa não é uma fraude distribuída de forma igual. Ela tem direção.

O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Terra fértil, clima favorável, capacidade de produzir em escala. Exporta matéria-prima para alimentar outros países e, ao mesmo tempo, alimenta parte da própria população com produtos que imitam comida. Essa contradição não é acidente. É projeto.

A mesma cadeia que produz em abundância organiza a escassez de qualidade. O alimento de verdade existe, mas não chega para todos. O que chega em massa é o ultraprocessado, mais barato, mais durável, mais rentável. E aí a desigualdade deixa de ser conceito abstrato e passa a ocupar o prato. O pobre não está escolhendo livremente o que come. Ele está sendo empurrado. Empurrado pelo preço. Empurrado pela oferta. Empurrado pela publicidade. Empurrado pela ausência de política pública que enfrente isso com seriedade.

Enquanto isso, quem pode pagar, escolhe. Compra orgânico, compra direto do produtor, lê rótulo, rejeita o “sabor”. Não porque é mais consciente, mas porque tem margem para ser. E o resto é deixado com a simulação. É aqui que a palavra “veneno” precisa ser entendida sem caricatura. Não é um veneno imediato, dramático, que derruba no mesmo dia. É um veneno lento, cotidiano, socialmente distribuído.

A Organização Pan-Americana da Saúde e o Ministério da Saúde já estabeleceram a relação entre o consumo de ultraprocessados e o aumento de doenças crônicas. O Guia Alimentar para a População Brasileira não deixa dúvida ao recomendar evitar esse padrão alimentar. Mas o sistema não precisa negar esses dados. Ele convive com eles. Porque o lucro está garantido antes da conta chegar. E é aqui que a sua denúncia necessita ser mais precisa, mais incômoda.

Não se trata apenas de ganância no sentido moral. Trata-se de um modelo econômico que transforma redução de custo em virtude, mesmo quando isso significa empobrecer o alimento. Um modelo em que a saúde coletiva não entra como variável central. Ninguém precisa desejar a doença. Basta lucrar com o processo que a produz. E esse processo está em curso. Ele começa na infância, quando o paladar é treinado para o excesso de açúcar e gordura. Ele continua na vida adulta, quando a conveniência substitui a escolha. Ele se fecha na velhice, quando o acesso se reduz e a alimentação se simplifica. É um ciclo.

E o mais perverso é que ele se apresenta como normal. Você abre a geladeira e vê produto. Você vai ao mercado e vê promoção. Você assiste à publicidade e vê promessa de prazer. Mas o que está em jogo não é só gosto. É estrutura. É um país que produz alimento e distribui formulação. É um sistema que transforma matéria-prima em margem de lucro, e margem de lucro em padrão alimentar. É uma sociedade que aceita que comer bem seja privilégio.

Então, quando o meme diz “tudo é sabor”, ele não está exagerando. Ele está confessando. Confessando que o alimento foi substituído pela experiência. Que o natural virou exceção. Que o artificial virou regra. E que essa regra pesa mais sobre quem tem menos escolha.

Denunciar isso não é exagero. É precisão.

E a pergunta que fica não é mais sobre gosto. É sobre poder. Quem decide o que você come?

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