
Reinaldo AzevedoColunas

Zema X STF: político bufão é só sinal de salto civilizatório para trás
Vileza contra o Supremo é vista até por setores da imprensa como trilha da virtude; eis o grande salto civilizatório para trás
atualizado
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O decano do STF, Gilmar Mendes, enviou a Alexandre de Moraes, relator do Inquérito das Fake News, uma notícia-crime contra Romeu Zema, ex-governador de Minas e sedizente pré-candidato à Presidência da República pelo Novo. Não restava alternativa. O delito cometido pelo buliçoso Zema, que costuma preencher com ofensas ao tribunal e a seus integrantes o deserto de ideias em que transita, é de tal sorte escancarado que nada fazer implicaria condescender com a delinquência em favor do oportunismo e do vale-tudo.
Como se noticiou neste Metrópoles e em toda parte, Zema levou ao ar no mês passado um vídeo em que fantoches representando Gilmar e Dias Toffoli conversam ao telefone. Apelou à IA para criar vozes muito semelhantes às dos respectivos ministros, que urdem, na sua fantasia, uma trama criminosa. O Toffoli da ficção “zemiana” liga para Gilmar reclamando que a CPI quebrou seus sigilos. Este, então, pergunta a razão. O primeiro explica, embora o conteúdo seja omitido, talvez num esforço de não incorrer em calúnia, dando a entender, no entanto, que crimes foram cometidos. O boneco que representa Gilmar diz ao outro que vai resolver tudo e, em troca, pede que lhe seja franqueada uma temporada no resort (alusão ao Tayayá), onde se dedicaria à jogatina. E assim termina o enredo de Zema, com o decano da ficção aproveitando-se de vantagens que lhe teriam sido oferecidas pelo colega de tribunal em troca de decisões que tomou.
Gilmar escreve: “[Zema] vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”. E acrescenta: “Valendo-se de sofisticada edição profissional e de avançados mecanismos de ‘deep fake’, o vídeo emula vozes de ministros da Suprema Corte para travar diálogo que, além de inexistente, tem como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República, com objetivo de realizar promoção pessoal”.
Não há a menor dúvida a respeito. Mais: o conjunto é injurioso aos dois ministros e, no que respeita a Gilmar, a calúnia é explícita: Zema vale-se de um ardil para acusar o ministro de vender uma decisão em troca de facilidades.
Não sem estupefação, noto certa tendência em setores da imprensa de fazer dos crimes contra a honra e de aberrações em procedimentos investigativos — como a praticada pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) — práticas corriqueiras, que devem ser aceitas e normalizadas desde que os alvos sejam os ministros do Supremo. O “tour de force” midiático — com uma colaboração lateral, mas efetiva, de setores ditos “progressistas”, com a convicção dos que marcham para o abate — que fez do tribunal o “inimigo do Brasil”, com potenciais efeitos eleitorais, é dos mais bem-sucedidos da história republicana.
Vivemos dias de “se Deus não existe, tudo é permitido”. Ivan Karamazov não diz a frase assim, com essa crueza, mas a corruptela que se consolidou a partir de seu pessimismo destrutivo é autorizada pelas consequências. Pergunta-se: a calúnia, a injúria, a difamação e a manipulação do processo legal devem integrar, como um novo norte conceitual, o cotidiano de todas as relações sociais, políticas e econômicas do Brasil, inclusive para os assuntos de imprensa, ou se vai criar uma escolástica segundo a qual apenas os ministros do tribunal devem ser suas vítimas passivas?
Sentindo-se bem-sucedido na sua investida e, em muitos aspectos, acolhido em sua empreitada criminosa, Zema já reagiu à notícia-crime apresentada por Gilmar: “Esse processo é político. Se querem me intimidar, estão conseguindo o contrário. Me sinto mais indignado, mais inconformado e com ainda mais energia para criticá-los [aos ministros].”
E acrescenta:
“A crítica com humor, como a do meu vídeo sobre o STF, faz parte da vida em uma democracia. O humor faz parte desde que o mundo é mundo. Se os ministros do STF querem mudar isso, vão ter que prender o Brasil inteiro. Não vão conseguir”.
Errado. Reitere-se: o direito a crítica não supõe o direito à calúnia, à injúria, à difamação e à manipulação de procedimentos investigativos.
ZEMA COMO PERSONAGEM
Tivesse o ex-mandatário mineiro um pouquinho mais de, sei lá como dizer, formação intelectual ou mesmo complexidade psicológica, estaria para a política como a personagem Edmund, na peça “Rei Lear”, de Shakespeare, estava para a vida.
Filho ilegítimo do Conde de Gloucester, tomado pelo sentimento da exclusão e ressentimento — assim como o ex-ocupante do Palácio da Liberdade se apresenta um “outsider” da política —, julga que todos os procedimentos lhe são lícitos porque toda a baixeza de que era capaz serviria apenas a uma espécie de lei da natureza, como se lê no monólogo que abre a Cena II do Primeiro Ato. O “statu quo” de que dispunham seus inimigos seria justamente a razão da fraqueza que neles enxergava. Ele próprio, na condição de excluído original, mas que ascendeu a ponto de participar de uma conspiração, não precisava ter pruridos morais. Não se dá bem no fim da… tragédia, mas provocou desastres.
Zema é um bufão e não tem a dimensão destruidora de um Edmund, a não ser contra a gramática. Apelo à personagem shakespeariana para conferir algum vulto a esse caroneiro de crises e para justificar a mim mesmo ter dedicado a perfil tão ridículo e deletério um tanto do meu tempo. O mesquinho Zema, por si, é só um pequeno passo regressivo. A personagem que realmente conta nesta nossa tragédia é outra: refiro-me ao mau espírito que toma conta da vida pública. Nestes dias, a vileza contra uma instituição é vista como trilha da virtude. E, nesse caso, trata-se de um grande salto civilizatório para trás.
