Reinaldo Azevedo - Colunista

Zema e Flávio fazem as pazes com a escravidão. E o silêncio “isento”

O casamento da má-fé com a má consciência leva a que se tente “entender” um fascistoide e a hostilizar um democrata em nome da isenção

atualizado

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Depois que Elio Gaspari decretou que Romeu Zema, ex-governador de Minas, havia feito “as pazes com a Inconfidência Mineira”, o pré-candidato do Novo à Presidência se tornou ainda mais “confident”. Enchendo-se, pois, de autoconfiança e falsos cognatos morais, houve por bem, numa entrevista ao podcast “Inteligência Ltda”, na sexta, defender o trabalho infantil. Sim, ele o fez no Dia do Trabalho. Vou expor aqui quão estúpida é sua fala, além de desinformada. Mas há outra questão relevante nisso tudo, e esta tem a ver com a cobertura política — e, pois com a imprensa — e com o (mau) espírito do tempo. Vamos ver.

ZEMA AÇOITANDO TAMBÉM CRIANÇAS, HOMENS E MULHERES

Cumpre lembrar o que Gaspari gravou para a eternidade sobre tão ínclita figura: “Açoitando os ‘intocáveis’ do Supremo Tribunal Federal, [Zema] valeu-se do aniversário da execução de Tiradentes e disparou: ‘Brasília explora o Brasil como os portugueses fizeram. (…) A luta dos inconfidentes não acabou’.” É mesmo de arrepiar. Quando o ex-governador ganhou tão notável selo de qualidade, já havia dito que, se eleito, deixará de pagar Bolsa Família para homens porque não quer dar mole a marmanjos. Antes ainda, tratara o Nordeste como um peso morto para o Brasil. Na sua lista do açoite, como se vê, também estão os homens adultos, as crianças e, por óbvio, suas respectivas mulheres e mães. Tudo indica que os nordestinos também não teriam vida fácil. Ninguém escapa de Zema, a não ser seus iguais.

Vultos da estirpe deste senhor não resistem à tentação de usar a si mesmos como exemplo. E foi o que fez. Disse que separava parafusos para o pai já aos cinco anos e que tinha carteira de trabalho desde os 14 (imagem), o que é mesmo verdade: era assinada pelo avô, o dono do grupo em que “trabalhava” e cujo conselho veio a presidir quando adulto — só pode ter sido por força da herança…

Também não seria quem é não fosse a sua notável ignorância sobre quaisquer assuntos a respeito dos quais deita falação com a desinibição dos inimputáveis intelectuais. Um jovem de 14 anos já pode ter a sua Carteira de Trabalho e Previdência Social. Transcrevo abaixo algumas regras extraídas do “Manual de Perguntas e Respostas Sobre Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador”, editado pelo Ministério do Trabalho e Emprego:

“No Brasil, a idade mínima permitida para o trabalho é de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos. Trabalho noturno, perigoso e insalubre são proibidos para menores de 18 anos, conforme art. 7º, inciso XXXIII, da Constituição Federal.
A Constituição Federal prevê, como exceção à regra da idade mínima para o trabalho, o contrato de aprendizagem, que pode ser celebrado a partir dos 14 anos. Trata-se de contrato de trabalho especial, que deve ser firmado nos termos do art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Para mais informações sobre contrato de aprendizagem, consulte a Questão 43. Além da aprendizagem, nossa legislação contempla outra exceção à regra da idade mínima para o trabalho, a qual é trazida pela Convenção nº 138 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que prescreve, no seu art. 8º, a possibilidade de concessão de autorizações para o trabalho, antes da idade mínima permitida, para a participação em representações artísticas. Essas autorizações são concedidas por autoridade judicial competente para cada caso individual, não se admitindo autorizações genéricas. Além disso, devem ser estabelecidas as condições em que o trabalho é permitido e limitado o número de horas de trabalho (art. 8º, item 2, da Convenção nº 138 da OIT)”

Vale dizer: o “impedimento” com o qual Zema diz pretender acabar não existe. O que há são regras que disciplinam minimamente o trabalho de menores. Mesmo com elas, campeia o abuso. Ou seja: ele se manifesta contra o mínimo de civilidade no trabalho de menores. E acrescenta: Lá fora, nos Estados Unidos, criança sai entregando jornal, recebe lá não sei quantos centavos por cada jornal entregue, no tempo que tem. Aqui é proibido, né? Você tá escravizando criança. Então é lamentável. Mas tenho certeza que nós vamos mudar.” Criança entregando jornal nos Estados Unidos? Do que está a falar esse cara?

Depois tentou arrumar um pouco as coisas e disse que se referia aos adolescentes: “Defendo, sim, dar oportunidades de trabalho para adolescentes, porque educação e trabalho digno é o que forma caráter, disciplina e futuro.” Com um pouco mais de entusiasmo, talvez dissesse que “o trabalho liberta…”

MÁ-FÉ E MÁ CONSCIÊNCIA
E agora volto ao ponto que larguei lá no primeiro parágrafo. Não! O mundo não vive uma guinada à direita. Isso é falso. O que se vê é um surto de extrema direita. A sua duração dirá se estamos diante de uma era; ainda é cedo para saber. São forças políticas distintas: uma é liberal e aceita o jogo democrático; a outra é fascistoide e golpista.

A imprensa, referência histórica no Ocidente da direita liberal, contaminou-se do iliberalismo truculento e passou a flertar com leituras de mundo e com perspectivas que, no limite, decretam a sua própria obsolescência. Sei que Zema como expressão de qualquer fenômeno sempre parecerá impróprio, dado o seu comportamento um tanto oscilante, entre o “clown” e o rancoroso vulgar. Mas, creiam, ele serve. Os reacionários patrulham a imprensa com afinco e é bem-sucedida nesse esforço. É fácil saber quando analistas se deixam capturar por aqueles que, de fato, os odeiam e gostariam de silenciá-los. Não é raro que os flagremos a apontar “verdades”, ainda que pontuais, mesmo nas falas e nas práticas as mais abjetas de extremistas de direita.

O ex-governador de Minas é um exemplo burlesco e a calhar: acusou o ministro Gilmar Mendes, do Supremo, de vender um “habeas corpus” — e, pois, cometeu um crime —, mas, ora vejam!, ele estaria apenas incorrendo na prática tradicional da “caricatura” e — bem…, já se escreveu, não é? — “fazendo as pazes com a Inconfidência ao açoitar o STF”.

Apontar a barbárie social com a qual acenam esses valentes da extrema direita, ah, isso, sim, é que seria “patrulha”. Assim, um verdadeiro “isento” teria como tarefa descobrir as virtudes, sobretudo as ocultas, de um fascistoide. E o (mau) espírito do tempo impõe que se proceda à operação inversa com os progressistas: só se pode aspirar à isenção caso se demonstre nem que seja o mal potencial de um bem evidente. “Ah, então os progressistas estariam isentos de erro?” Que besteira! É claro que não!

Mas não me peçam para encontrar virtudes em reacionários golpistas. Têm de ser banidos da democracia, não tolerados — logo, o exercício para compreendê-los como partícipes do jogo democrático ou é expressão da burrice ou da adesão a suas práticas de lesa democracia. Nesse caso, má-fé e má consciência se estreitam num abraço insano.

CAMINHANDO PARA O ENCERRAMENTO
As eleições estão aí. Ouviremos propostas do arco da velha. Zema está descontente com a regulação existente para o trabalho de menores. Quer o vale-tudo. Ao “Washington Post”, Flávio Bolsonaro defendeu a maioridade penal aos 14 anos. Também já afirmou que pretende implementar o “modelo Bukele” de combate à violência. E tudo parece normal…

“Está propondo que esses caras sejam proibidos de apresentar essas propostas, Reinaldo?” Eu não. Cobro apenas que seus autores sejam chamados por aquilo que são e que se evidencie que, com tais propostas, “fazem as pazes” com a escravidão, aquela que Joaquim Nabuco — que aparece espantado na ilustração, com a ajuda de IA — disse que permaneceria “por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Poderiam dizer-me: “Acontece que nós somos reacionários também e não gostaríamos nem de Joaquim Nabuco se o tivéssemos lido…” Ah, bom! De fato, não estamos do mesmo lado.

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